O presidente do cercadinho

Não houve uma nova eleição, nem o presidente Jair Bolsonaro sofreu o merecido impeachment. Quem conhece Brasília, porém, já percebeu que a caneta Bic mudou de dono. Obrigado a se agarrar à bóia do Centrão para sobreviver politicamente ao oceano de desastres que assolam seu governo, Bolsonaro assumiu definitivamente o papel de “rainha da Inglaterra” — sem pompa, nem circunstância. O outrora “mito” — rebatizado atualmente como “minto” — não resistiu à realpolitik brasileira: Bolsonaro, hoje, é apenas o presidente do cercadinho.

A metáfora é óbvia, mas inevitável. O cercadinho, para quem não sabe, é um local no Palácio da Alvorada onde ele costuma tirar fotos e conversar com seus apoiadores. Ali, em meio a fanáticos que o seguem como os roedores seguiam o flautista de Hamelin, Bolsonaro diz o que quer, sem contestação, e é sempre aplaudido. Podemos expandir o conceito para as redes sociais, essa bolha digital onde o presidente recebe afagos de alguns humanos e muitos robôs, multidões de mentirinha programadas nas sombras por seu gabinete paralelo. É apenas nesse cercadinho, real e virtual, que Bolsonaro continua a mandar no País. Na vida real, nossa criativa democracia criou um sistema híbrido que pode ser batizado de “parlamencentrismo”.

A partir de agora, Bolsonaro só governará para seus seguidores. Na vida real, teremos o ‘parlamencentrismo’ liderado pela dupla Arthur-Ciro

Vai funcionar mais ou menos assim: o presidente da Câmara, Arthur Lira, reúne os deputados e faz as contas para que Bolsonaro possa continuar brincando de governar. Ciro Nogueira, líder do Centrão, senador e novo ministro da Casa Civil, recebe a fatura, saca a Bic e manda pagar.

É a terceira fase do governo Bolsonaro. Na primeira, obedecendo ao guru Olavo de Carvalho, recrutou mentecaptos como Arthur Weintraub e Ernesto Araújo. Na segunda, encheu o Planalto de militares acreditando na fábula de que eles eram competentes. Pois esses gênios da hierarquia e da logística mundial nos levaram às 550 mil vítimas fatais do coronavírus, atrasaram a vacinação e permitiram um sistema de corrupção generalizada (com o perdão do trocadilho). Agora, com o “parlamencentrismo”, os donos da bola forçaram a chegada da terceira fase do governo. Não será mais necessário enganar o povo com um orçamento secreto: a dupla Arthur-Ciro vai operar as verbas oficiais, mesmo. Como prêmio de consolação, vão deixar o presidente Bolsonaro manter a faixa presidencial. Mas ele terá de obedecer a uma condição: só poderá usá-la dentro do cercadinho.


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