Edição nº2590 16/08 Ver edições anteriores

O presidente acidental

Nem ele mesmo apostava que chegaria lá. Assumiu o cargo repleto de boas intenções e cercado pela impopularidade quase congênita — logo no início, sem maiores motivos. Desejava genuinamente fazer a transição da crise assombrosa montada pelos devaneios administrativos da antecessora Dilma Rousseff para a bonança reabilitadora de um crescimento estável. E não se pode dizer que nesse quesito ele falhou. Ao contrário. Foi além das expectativas. Michel Miguel Elias Temer Lulia, no nome de batismo, deixa a Presidência da República nos próximos dias legando de fato e direito um País pronto para a decolagem. No interregno de sua gestão, somados pouco mais de dois anos no cargo, não existiria mesmo tempo hábil para ir muito além, entregando o comando da Nação já em velocidade de cruzeiro. Temer consertou as peças, ajustou o prumo e no próximo dia 1° de janeiro, logo na virada de ano, transfere o manche ao sucessor Jair Bolsonaro com resultados razoavelmente efetivos. Podem jogar pedras, criticar o estilo, antipatizar por pura aversão, mas jamais negar os resultados. Alguns dirão que ele não deixará saudade, talvez movidos por impulsos mais subjetivos que concretos. Nesses tempos belicosos, com os ânimos marcados à brasa, é compreensível notar que o mandatário sainte não goze de admiradores fiéis. O próprio lamenta, na verdade, o completo isolamento. Até de assessores. E segue à espera de um reconhecimento a posteriori, quem sabe nos anais da história. O início aos trancos e barrancos de seu governo teve por chaga, extenuante como não poderia deixar de ser, o impeachment da antiga chefe. Ele compreende as consequências dessas circunstâncias excepcionais nas quais foi arrolado ao alçar ao poder e até aceita a exata dimensão do papel que lhe coube. Só não conseguiu prever que, para além de ser ver às voltas com a administração de uma massa quase falida – gerada pela incúria e inépcia da antecessora –, teria de combater ataques políticos pesados dos que buscaram demovê-lo do cargo na forma de denúncias em situações ainda não completamente explicadas. Temer foi atropelado, literalmente, pelos acordos do procurador Rodrigo Janot com um time de delatores de alto calibre que o gravaram em conversas comprometedoras, em encontro previamente armado. Do pandemônio que se seguiu, o Brasil pagou o preço. Perdeu a oportunidade de ouro de aprovar uma reforma previdenciária que mudaria o status quo da crise, da noite para o dia. Não deu. Como presidente, a passagem de Temer pelo Planalto é no mínimo intrigante. Sem ele, a reforma trabalhista, aprovada e já aplicada, seria uma quimera. De sua lavra ainda saiu a aprovação da Lei de Responsabilidade das Estatais, com tetos para gastos e rígidas regras de gestão pública, a reforma do currículo de base do Ensino Médio, a privatização em áreas de energia e pré-sal além, como lambuja, do controle da inflação – que já ameaçava disparar – e dos juros, retornando ao patamar de um dígito, de onde nunca mais saiu. Para quem herdou um governo mergulhado no caos, rumando para a insolvência, foi uma transformação e tanto. É imperioso registrar que Temer deixou muitas pontas abertas pelo caminho, como a da persistência do desemprego em índices indecentes. Mas não se pode dizer que ele não executou a maioria dos objetivos traçados. Para um presidente acidental, que teve de ser fiador de uma gestão transitória, sem respaldo popular, adotar medidas ortodoxas e duras exigiu praticamente todo o seu cacife político. E ele pagou para ver. Fez o que define como um governo “semiparlamentarista”, trazendo o Congresso para comandar junto, com todos os prejuízos e benefícios decorrentes daí e concretizou uma transição épica. Se há um mérito do qual possa se gabar é o de ter desbloqueado o futuro do Brasil, norteando uma melhora sensível da coisa pública e afastando de vez a recessão acumulada que já passava de 8% do PIB. Não conseguiu, por outro lado, se livrar da sanha criminosa que parece acometer todas as administrações que por Brasília passaram nas últimas décadas. Uma mácula da qual ele diz que se livrará não mais no campo político e sim no foro jurídico. De maneira nada acidental.

FOTO: Adriano Machado/REUTERS


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