Negócios

O preço do glamour

A gigante de luxo francesa LVMH compra um símbolo americano da elegância, a joalheria Tiffany. A transação de US$ 16,2 bilhões mira a China e reforça a tendência de concentração no setor

Crédito: Divulgação

ÍCONE Lady Gaga exibiu na cerimônia do Oscar, esse ano, o famoso Diamante Tiffany, utilizado por Audrey Hepburn (à dir.) na divulgação do filme “Bonequina de Luxo”, em 1961 (Crédito: Divulgação)

O mundo do luxo foi sacudido na segunda-feira 25 com o anúncio do maior negócio já efetuado no segmento. Por US$ 16,2 bilhões, a gigante francesa LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton comprou a legendária rede de joalherias americana Tiffany. Criada em 1837, a marca de Nova York é um símbolo de elegância, design inovador e criatividade. Ficou conhecida internacionalmente com o filme “Bonequinha de Luxo” , de 1961, estrelado por Audrey Hepburn. Esse clássico dá uma boa medida do lugar que a grife ocupa no imaginário americano — repleto de romance e charme. A Tiffany também é famosa pela sua loja da Quinta Avenida, um marco de Manhattan, e por suas típicas embalagens confeccionadas em um tom de azul desenvolvido no século 19. Em termos de negócios, é uma potência internacional que faturou US$ 4,4 bilhões no ano passado em 300 lojas. No Brasil, tem seis unidades: em São Paulo, em Brasília, no Rio e em Curitiba.

Nos últimos anos, a Tiffany vinha tentando se modernizar, depois de enfrentar um período de estagnação. Para isso, associou sua imagem à cantora Lady Gaga, que estrelou uma das suas campanhas mais recentes. A artista também ostentou na festa do Oscar, em fevereiro passado, o chamado Diamante Tiffany, uma joia rara que foi utilizada por Hepburn em um colar na divulgação do longa-metragem da década de 1960. Trata-se de um diamante de 128 quilates adquirido por Charles Lewis Tiffany, na África do Sul, em 1877.

Para a LVMH, a aquisição consolida sua posição nos EUA. Além disso, fortalece a companhia no mercado conhecido como “hard luxury” — que, além de joias, inclui relógios. É o ramo que lidera a alta nas vendas. Um primeiro movimento nesse sentido já tinha acontecido quando comprou a joalheria italiana Bulgari, em 2011. A operação atual vai usar o mesmo modelo bem-sucedido de integração de marcas. O império LVMH abarca ainda vinhos, destilados, moda, produtos de couro, perfumes e cosméticos. O grupo alcançou 46,8 bilhões de euros em vendas em 2018, e possui globalmente mais de 4.590 lojas e 156 mil colaboradores. Para a joalheria americana, especialmente relevante é a expansão na China, que tem concentrado o crescimento mundial do segmento e já ocupa um terço do mercado de luxo. Lá, a LVMH tem atuação consolidada, diferentemente da Tiffany, que é forte nos EUA e no Japão.

A incorporação mostra a boa fase do setor de luxo e evidencia a dificuldade crescente das empresas tradicionais em se manterem independentes, como era o caso da Tiffany. Reforça, ainda, a tendência de concentração de corporações cada vez mais poderosas. A LVMH é a maior do mundo, e havia adquirido em dezembro passado, por US$ 2,6 bilhões, a rede hoteleira Belmond, que possui o hotel Cipriani, de Veneza. Também passou a ser a proprietária da grife de malas alemã Rimowa, em 2016, em um negócio de US$ 719 milhões. Sua maior concorrente é a holding suíça Richemont, que reúne marcas como Cartier, Montblanc e Chloé.

MARCO Fachada da Tiffany em Manhattan: com mais de 180 anos de história, ela virou sinônimo de elegância (Crédito:RoBeDeRo)

A transação bilionária ainda requer aprovação pelos acionistas da Tiffany, e deve ser concluída até a metade de 2020. Se for confirmada, ela torna ainda mais relevante o papel de Bernard Arnault, um bilionário de 70 anos que assumiu a LVMH na década de 1980, quando ela ainda se chamava Boussac e estava à beira da falência. Chegou a ser absorvida pelo governo francês — o caso foi polêmico na época, e mostra a importância desse setor para a França. Desde então, Arnault tem mantido a sua agressividade e obtém números cada vez mais favoráveis. As ações da LVMH tiveram alta de 58% esse ano, com crescimento de 11% nas vendas do terceiro trimestre. No primeiro semestre, o faturamento do grupo foi de 25,1 bilhões de euros, 15% superior ao mesmo período do ano anterior. O patrimônio do empresário francês soma atualmente US$ 100 bilhões.

A aquisição mostra a boa fase do setor e evidencia a dificuldade das empresas tradicionais em se manterem independentes

Um império de luxo
A holding francesa LVMH inclui 75 marcas de moda, produtos de couro, perfumes, cosméticos, joias, relógios, vinhos e destilados

JOIA Anel de safira cravejado de brilhantes de 21,7 quilates da Tiffany: grife fundada em Nova York tem 300 lojas no mundo (Crédito:Divulgação)

Lojas
4.590

Colaboradores
156 mil

Principais marcas
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