Daniel Schenker Foto Reprodução Ao final de um dos últimos ensaios de Em Nome do Jogo, já na semana de estreia, Marcos Caruso opina sobre o momento em que a cortina deve ser fechada durante a música de encerramento do espetáculo. ?Antigamente havia a profissão de cortineiro, uma das mais importantes do teatro, hoje substituída pela máquina. O cortineiro precisava ter a sensibilidade para perceber o volume dos aplausos. A partir deles, avaliava a quantidade de vezes que a cortina deveria ser aberta para que os atores fossem saudados pelo público?, lembra. Logo no início da entrevista, interrompe brevemente para tecer um comentário sobre o cenário. ?Eu me meto em tudo?, assume. É natural. Na montagem de Em Nome do Jogo, texto de Anthony Shaffer, Caruso assina a adaptação com o diretor Gustavo Paso e o ator Emilio de Mello, com quem divide a cena. O acúmulo de funções não é inédito na sua carreira. Afinal, Marcos Caruso é não ?só? um ator de destaque como um prestigiado dramaturgo, legítimo representante da comédia de costumes política. Agora, Caruso se exercita em outro gênero que aprecia: o policial. Você assistiu às versões cinematográficas do texto? Sim. Quis ver justamente para me distanciar. A primeira versão é muito inglesa. A história poderia ser ambientada em qualquer lugar, por mais que a figura do inspetor esteja ligada ao espírito inglês. Destacamos, então, o contraste entre o culto e o inculto, o rico e o pobre. Mas gosto da preocupação de Makiewicz em manter fidelidade ao texto. A segunda versão traz um final diferente do original. A comédia marca a sua trajetória, tanto como ator quanto como autor. A aproximação com o gênero foi uma escolha ou se deve ao acaso? Ambos. O humor é a matéria-prima do meu trabalho. Eu sou muito bem-humorado na vida. Como dramaturgo, travei parceria com Jandira Martini. Somos dois seres políticos. Começamos a escrever numa época (1984) em que já se podia falar abertamente sobre o que acontecia no país. Colocamos no palco as falcatruas do poder. Há algum projeto de texto novo com Jandira Martini? Somos atores e dramaturgos bissextos. Nossas peças ficam bastante tempo em cartaz. Aproveitamos como fonte dramatúrgica os momentos das Diretas Já, da inflação galopante e do escândalo do mensalão. Estamos sempre antenados, alertas. O nosso teatro é oportuno. Nas suas escolhas como dramaturgo e nos espetáculos em que trabalha como ator (a exemplo de Intimidade Indecente e As Pontes de Madison) parece haver uma preocupação em dialogar com uma ampla faixa de espectadores… Sim. Não adianta fazer uma peça hermética apenas para o meu prazer pessoal. Faço teatro para o público. Quero dialogar com muitos espectadores. Você acaba de completar 60 anos. É um momento que o leva a avaliar a sua trajetória? Eu não olho para trás. Não olho com saudade. O que eu fiz ? o que sofri, chorei, sorri ? está em mim. Foi bom ter trabalhado com Antunes Filho, recebido prêmios. Ano que vem completarei 40 anos de profissão. Parece que foram 12. Teatro Maison de France ? Av. Presidente Antonio Carlos, 58, Rio. Tel.: (21) 2544-2533. Até 10/6.