O “posto Ipiranga” da Ciência e Tecnologia


A bordo da nave russa Soyuz TMA-8, o tenente-coronel da reserva Marcos Cesar Pontes, hoje com 55 anos, realizou algo que para os demais brasileiros jamais passará de um sonho: ir à Estação Espacial Internacional (ISS). Integrante da missão que em 2006 celebrou cem anos do pioneiro voo de Santos Dumont com o 14-Bis, Pontes realizou uma série de experimentos científicos no espaço. O êxito da expedição fez dele um herói nacional. Ao retornar da ISS, foi recebido por 5 mil pessoas em Bauru (SP), sua cidade natal. Virou ídolo das crianças e foi agraciado pela Federação Aeronáutica Internacional com a medalha Yuri Gagarin. Depois da glória, o carismático astronauta passou a exibir seu sorriso também como garoto-propaganda de uma marca de travesseiros, supostamente fabricados com tecnologia da NASA, a agência espacial dos EUA. Andava meio sumido até ser convidado para ser ministro do governo Jair Bolsonaro — para quem Marcos Pontes é “O posto Ipiranga da Ciência e Tecnologia”. Ou seja, como Bolsonaro é incapaz de responder a qualquer questionamento sobre o que pretende fazer nessas áreas, quem quiser respostas deve perguntar ao astronauta de Bauru. Pontes já declarou estar feliz da vida com a condição de “sabe-tudo da ciência”.

Gostar de ser chamado de posto Ipiranga é um direito dele. Para o Brasil, porém, a sensação que fica é outra. Na ausência de um programa eficiente para reconstruir um dos setores que mais sofreram com os cortes orçamentários do governo Temer, o presidente eleito recorreu a alguém que não só é alheio ao mundo político como reúne atributos midiáticos importantes: Pontes é extrovertido, simpático, entende de tecnologia e tem o mérito de ter feito parte daquele que é considerado o mais desafiador dos centros de pesquisa do mundo, a NASA. O que pouca gente sabe é que o Brasil precisou investir cerca de R$ 40 milhões para enviar um astronauta brasileiro à ISS. O custo inclui os oito anos de treinamento de Pontes nos EUA, além do custo da viagem como tripulante da nave russa. É difícil medir o retorno desse investimento. É mais provável que ele se justifique como peça de marketing do que pela disseminação de conhecimento aeroespacial no País. Esse é o risco de ter Pontes em Brasília. Como ministro, ele pode ser pouco mais que um garoto-propaganda de travesseiros da NASA. E os brasileiros continuarão a sonhar com as estrelas…

O Brasil gastou cerca de R$ 40 milhões para enviar um astronauta brasileiro à Estação Espacial Internacional. Como ministro, Marcos Pontes pode ser pouco mais que um garoto-propaganda


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