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O Polipresidencialismo

Num passado distante, abrir um negócio era um projeto arriscado. Não bastasse a burocracia, ainda existia o risco do fracasso. O sujeito largava seu emprego estável para apostar em um novo negócio com a cara e a coragem, também conhecidos como “reputação”. Se desse certo, ótimo. Caso contrário, enfiava o rabo entre as pernas e voltava a procurar emprego com a pecha de fracassado.

Os empreendedores modernos não foram capazes de resolver a burocracia, que continua firme e forte, gerando empregos públicos em todo País. Mas as consequências de um eventual fracasso os modernos resolveram muito bem: consagraram o termo “beta”. Funciona assim: você lança uma empresa mas não pode garantir que vá dar certo. Então coloca um “beta” como sobrenome, que é para todo mundo ter paciência e compreender que, caso ocorra um ou outro probleminha, a culpa não é sua. A gente tem muito a aprender com os empreendedores modernos.

Não faz muito tempo, ouvi dizer que uma dessas empresas introduziu um novo conceito de liderança: ao invés de um presidente ou CEO, colocaram dois copresidentes, dividindo responsabilidades. Em beta, claro. Me pareceu estranho. Afinal, não existem comaestros regendo orquestras, ou cotécnicos de futebol.

Preconceito meu.

Nada mais atual do que compartilhar liderança e responsabilidades. Em beta, claro.

Uma empresa moderna pode se beneficiar até mesmo de mais do que apenas dois copresidentes. Um cuida da operação enquanto o outro administra as finanças. Um para recursos humanos, outro para compras.

Sorte nossa que o presidente Bolsonaro é um homem moderno e sensível a essa tendência.

Desde que era candidato vem sugerindo, em seus pronunciamentos, essa ideia de uma Presidência democraticamente compartilhada.

Claro que não podia ser um negócio escancarado, porque iria contra a nossa Constituição. Nem precisa.

Pode ser um copresidencialato extraoficial.

Assim, desde que assumiu, o Brasil passou a ser o primeiro País Polipresidencialista do mundo. Em beta, claro.

Alguém duvida que Paulo Guedes é o copresidente de economia, já que Bolsonaro, humilde que é, mais de uma vez assumiu que não entende nada sobre o assunto?

E como não é advogado, podemos concluir que também não entenda nada de Direito, assim, Sergio Moro é seu copresidente da Justiça.

Poderia citar outros nomes, mas vocês já entenderam.

No Polipresidencialismo brasileiro, até o vice-presidente pode ser copresidente e expressar sua opinião sem nenhum constrangimento, muitas vezes passando pitos no próprio presidente.

Claro que, como o sistema ainda está em beta, é o presidente quem assina os documentos mais importantes mas, com o tempo, quem sabe essa formalidade possa ser abolida.

Uma coisa que pode preocupar é o risco desses diversos copresidentes emitirem declarações contraditórias.

É uma preocupação verdadeira, afinal, o próprio STF, que nos enche de orgulho com seu trabalho compartilhado, colegiado e harmônico, vez ou outra se atrapalha com decisões monocráticas. É raro mas acontece.

O Polipresidencialismo, no entanto, dispõe de dispositivos para evitar esse problema.

Primeiro porque todas as decisões importantes são informadas para a população através da conta do presidente no Twitter.
Qualquer outra fonte como porta-voz ou imprensa podem ser ignoradas.

Suspeito até que os copresidentes tenham o login e a senha dessa conta.

Assim, tudo que decidirem parecerá ser dito pelo próprio presidente.

Se for verdade, é uma ótima estratégia, já que qualquer informação contraditória soa apenas como uma mudança
de opinião do próprio presidente, percebem?

E ainda tem os filhos.

Para muitos, parecem trapalhões.

Ingenuidade. Os cofilhos, que na prática também são copresidentes, têm a tarefa de dizer o que não pode ser dito.

Uma espécie de sincericídio controlado que preserva o presidente.

Você pode dizer que essa estratégia não vai dar certo.

Pode estar preocupado com o risco dos cofilhos, um dia, criarem uma saia justa demais, ou que os militares aleguem que “co” só mesmo co-ronel.

Eu digo calma. Vamos ter paciência porque, afinal, o Polipresidencialismo está apenas em beta.

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Mentor Neto

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