Comportamento

O polêmico caso Bouvier

Uma história digna de um filme de espionagem: um oligarca russo e um marchand suíço brigam judicialmente há anos por 38 peças de artistas famosos como Picasso, Toulouse-Lautrec e Leonardo da Vinci. Enquanto Rybolovlev exige R$ 5 bilhões alegando ter sido vítima de fraude, Bouvier ameaça mover um contra-processo bilionário por ter a “reputação arruinada”

Crédito: Ore Huiying/Bloomberg via Getty Images

PROCESSO Dmitry Rybolovlev: acusação envolve até o roubo de quadros de Picasso (Crédito: Ore Huiying/Bloomberg via Getty Images)

A briga entre o negociante de obras de arte Yves Bouvier e o oligarca russo Dmitry Rybolovlev ganhou nome de filme de espionagem: “O caso Bouvier”. Os dois se enfrentam nos tribunais desde 2015, quando o marchand suíço e seu principal cliente, um dos maiores bilionários da Rússia, se encontraram em Mônaco para acertar o pagamento final da obra nº 6 de Mark Rothko (“Violeta, Verde e Vermelho”), que Rybolovlev comprara um ano antes por € 140 milhões (cerca R$ 980 milhões).

GUERRA “Salvator Mundi”: obra de Da Vinci é a maior disputa judicial do setor (Crédito:Kirsty Wigglesworth)

Bouvier foi recebido por um policial do principado. Ele não sabia, mas, seis semanas antes, Rybolovlev havia entrado com uma queixa internacional contra Bouvier por fraude. O russo acusava o marchand de tê-lo enganado sobre os preços das obras de arte, superfaturando 38 obras desde 2003. Rybolovlev gastou bilhões com Bouvier entre 2003 e 2014, incluindo a compra da famosa obra “Salvator Mundi”, de Leonardo da Vinci, que ele comprou por US$ 127,5 milhões (cerca de R$ 643 milhões). O russso então vendeu a obra por US$ 450 milhões na Christie’s por uma taxa recorde mundial. O lance inicial, porém, era de US$ 80 milhões. Ou seja, bem abaixo do que o russo havia adquirido.

Inconformado, ele pede US$ 1 bilhão – mais de R$ 5 bilhões. O marchand, por sua vez, ameaça abrir um contra-processo bilionário, alegando que essa briga judicial arruinou a sua reputação por fazê-lo ter de lidar com a imprensa e com advogados. Por enquanto, Bouvier tem se saído vitorioso. Ele alega ser um comerciante e não um consultor de arte, alguém que teria a capacidade de avaliar o valor da obra. Isso levou a uma crise no mundo da arte, com muitos questionando como esses valores são definidos. “Há uma ganância na Europa e EUA, mas o mercado da arte é bem abstrato. O olhar pessoal do curador pode definir preços”, explica o curador e negociante de arte brasileiro, Renato de Cara, responsável pelo centro cultural B_arco. “No exterior há essa extravagância de valores, que só recentemente chegou ao Brasil. Quando se encontra algo raro, como um Da Vinci, é impossível prever o que pode acontecer”, diz.
Ou seja, o mercado da arte trabalha na base da oferta e da procura, por isso a discussão sobre o “Caso Bouvier” é crucial. Para o leiloeiro James Lisboa, diversos critérios definem o valor. “Há toda uma investigação em torno da obra quando se acredita que ela possa ser verdadeira, mas se o marchand vendeu o quadro de “boa fé”, antes do estudo, não há crime”, explica. Isso porque “Salvator Mundi” foi encontrada em um antiquário em 2005, bastante danificada por restaurações e adquirida por apenas R$ 50 mil reais. Bouvier a comprou por US$ 80 milhões e a revendeu ao russo – por quase o dobro do valor comprado. A história chamou a atenção para as áreas cinzentas entre negociação e corretagem, com o suíço afirmando ter agido na qualidade de um negociante e dizendo que suas comissões foram justificadas. Bouvier também trouxe luz em relação aos “Freeports”, portos de armazenamento onde as obras deixam de pagar impostos na entrada e saída de países. A relação entre marchand e cliente sofreu outro desgaste em 2015, quando Rybolovlev entregou duas aquarelas de Picasso às autoridades francesas. A enteada do artista, Catherine Hutin-Blay, afirmou que elas haviam sido roubadas de sua coleção pessoal. As pinturas tinham sido vendidas a Rybolovlev por Bouvier, que afirmou tê-las comprado de um fundo de Liechtenstein.

Por enquanto, Bouvier está vencendo. Ele alega ser um comerciante e não um consultor de arte, alguém pago para definir o valor de uma obra

CONTRA-ATAQUE Yves Bouvier: marchand quer indenização por ter de lidar com a “imprensa e advogados” (Crédito:The New York Times)

Inocência

Rybolovlev fez fortuna no negócio de fertilizantes após o colapso da União Soviética. Proprietário do time de futebol Atlético de Mônaco, ele já foi detido e acusado de corrupção. Suas ligações com Donald Trump também já foram examinadas pela Justiça após um possível conluio com o Kremlin ter sido investigado em Mônaco. Lavar dinheiro por meio de obras de arte é um crime comum, já que um quadro, fácil de ser transportado, é um bem pequeno e muito valioso.

O russo incluiu no processo outro item relacionado a seus negócios com Bouvier. A questão judicial voltou a chamar a atenção porque a equipe jurídica de Rybolovlev decidiu abordar também a venda de uma pintura de Henri de Toulouse-Lautrec, feita em nome de Rybolovlev pela Sotheby’s. Ele afirma que não recebeu o valor de US$ 9,5 milhões da casa de leilões, acusação que a Sotheby’s nega. Quem perde com essa briga bilionária são os apreciadores de arte – a longa lista de obras roubadas e desaparecidas da Interpol mostra como esse universo é nebuloso.