Comportamento

O pior de todos os medos

A violência é o tema que mais preocupa as crianças e adolescentes em todo o mundo — mas em nenhum país ela assusta tanto quanto no Brasil. É o que revela uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a infância

Crédito: Silvia Izquierdo

CAMPO DE GUERRA Alunos tentam se proteger de tiroteio em escola do Rio de Janeiro (Crédito: Silvia Izquierdo)

Guerra, terrorismo, fome, pobreza. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) sabe que questões como essas afligem as crianças e adolescentes do mundo todo. Para identificar quais são os assuntos mais atemorizantes — e desenvolver programas que possam amenizar seu impacto nos jovens — uma agência de pesquisas foi encarregada de entrevistar 11 mil meninos e meninas, de 9 a 18 anos, em 14 países. Os escolhidos foram África do Sul, Brasil, Egito, Estados Unidos, Holanda, Índia, Japão, Malásia, México, Nigéria, Nova Zelândia, Quênia, Reino Unido e Turquia. Na soma de todos os itens avaliados, a violência desponta na primeira posição. Ela é considerada a maior preocupação para 67% dos entrevistados, chegando a 82% no Brasil — um lamentável recorde.

Em nenhum outro país a violência aflige tanto. Nem mesmo onde há conflitos armados. Na Nigéria, que desde a década de 1950 enfrenta a insurgência islâmica do grupo jihadista Boko Haram, a violência aparece como o maior problema para 77% das crianças e adolescentes. No México, com os cartéis de droga que disputam o controle do narcotráfico valendo-se dos métodos mais brutais, a taxa é de 74%. A julgar pelos dados da pesquisa, a infância brasileira vem sendo destruída pela violência, superando a má qualidade da educação (apontada como maior problema para 81% dos entrevistados) e até mesmo a pobreza, terceira maior vilã, com 79% das respostas. “A predominância da questão da violência para as crianças e adolescentes brasileiros é muito preocupante. Ela confirma que o alto número de homicídios no País tem um impacto extremamente danoso para o desenvolvimento psicológico e emocional dessa juventude”, diz o alemão Micheal Klaus, coordenador de comunicação do Unicef. Para ele, não se trata apenas de um assunto restrito às falhas na segurança pública. “O Brasil precisa adotar com urgência programas sociais que criem melhores perspectivas de vida e tirem essas populações da condição de vulnerabilidade em que se encontram”, afirma, citando um exemplo de sucesso recente no combate à violência: “Vitória, no Espírito Santo, alcançou bons índices de redução de homicídios, sobretudo entre jovens, ao adotar uma estratégia com ênfase na educação. Os indicadores mostram que estar na escola e ter acesso à educação reduz a vulnerabilidade dos jovens”.

Confiança

Embora devesse estar na ordem do dia, uma solução pacífica parece uma utopia em cidades como o Rio de Janeiro, onde os conflitos deflagrados entre facções de traficantes rivais e a resistência dos criminosos às ações policiais mantêm escolas fechadas e expõe as crianças a ainda mais tensão — isso sem falar quando elas mesmas são vítimas de balas perdidas até dentro da escola, como ocorre em comunidades cariocas. “A saúde emocional fica totalmente comprometida. Imagine uma criança na escola tentando aprender a ler durante o tiroteio, quando sua professora, aquela em que ela confia, está aterrorizada”, diz Miriam Guimarães, coordenadora da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (ASEC). “Crianças e adolescentes precisam crescer com confiança em si mesmos e nos outros, mas sentem-se mais vulneráveis e sem recursos num ambiente ameaçador”, afirma. Isso talvez explique outro dado alarmante da pesquisa do Unicef: no Brasil, 81% das crianças e adolescentes não confiam nos líderes. É a maior proporção entre 14 os países do estudo, seguido pela África do Sul, com 69%. Para Miriam Guimarães, uma cultura de paz — e confiança — só poderá ser alcançada com o reforço das habilidades socioemocionais, que hoje já são ensinadas em escolas. “Elas também auxiliam as crianças e jovens a lidarem com situações de risco em seus relacionamentos, encontrando opções pelo diálogo, sem necessidade de uso de violência. Assim, a cultura de violência começa a dar lugar a do diálogo e à da convivência desde a infância”.

Crianças com cartuchos deflagrados por fuzis: ambiente ameaçador e sem perspectivas (Crédito:Silvia Izquierdo)