Edição nº2573 18/04 Ver edições anteriores

O picadinho

O presidente andava desanimado.

Não aparecia para despachar e acordava depois das onze.

Para alguém com disciplina militar, era sinal de que alguma coisa não andava bem.

Até a primeira-dama estava preocupada.

– Às vezes ele passa o final de semana sem sair da cama, só no celular – revelou à manicure.

A moça desconfiou que fosse o Tinder, mas achou melhor não falar nada.

Quando perguntavam o problema, o presidente respondia enigmático:

– Essa gente… Essa gente me deixa louco.

Ninguém sabia quem era “essa gente”.

Considerando seu histórico de polêmicas, poderiam ser as minorias: índios, ONGs, LGBTs, oposição, China, Estados Unidos e mais uma infinidade de possibilidades.

Foi num café da manhã que a primeira-dama resolveu confrontá-lo de uma vez.

– Querido, por que você anda tão chateado?

O presidente fez uma pausa, ergueu a cabeça da bolacha e olhou para o nada.

– Essa gente. Essa gente está acabando comigo – e deu um longo gole no Danoninho.

– Que gente, amor? Quem?

– Quem?! O pessoal do Twitter, pô.

A primeira-dama respondeu com olhar de incompreensão.

– Como assim?

– Tô perdendo muitos followers, entende?

– Ah… Mas isso não é grave, querido! – a mulher tentou consolar.

Era grave.

O que mais se falava em Brasília era a obsessão do presidente com o Twitter, sempre metido nas confusões que ele mesmo criava.

– Qualquer coisa que eu falo, é uma chuva de mimimi. Passo o dia bloqueando “reiters” – confessou.

– Li que o Trump não pode mais bloquear ninguém – a primeira-dama deixou escapar, o que só serviu para irritar ainda mais o marido.

Os dois ficaram em silêncio alguns minutos.

Então, enquanto o presidente passava Leite Moça no pão, a primeira-dama sugeriu:

– Amor, quem sabe não é a hora de dar um tempo de Twitter? Voltar a despachar… Ou mesmo tentar o Instagram. Que tal?

O presidente explodiu.

– Instagram?! Foto de gatinho. Você acha que é para isso que fui eleito? Acha que é isso que o País espera de seu mandatário?

O Trump tem Instagram? Hein? Era só o que me faltava.

– Tá, desculpa… Mas apaga esse Twitter, poxa vida! Tá te fazendo mal isso.

O presidente não respondeu imediatamente.

Na verdade já vinha pensando em largar a rede social.

Enquanto cortava uma fatia de queijo de minas, perguntou:

– Você acha? Não vai pegar mal?

– Claro que não! Você é o mandachuva ou não é?!

Era.

Então prometeu para a mulher que apagaria o aplicativo e voltaria a despachar.

Os dias passaram e viraram semanas.

O presidente cumpria à risca a promessa.

Os aliados estavam felizes de ver o presidente de volta, cuidando dos graves problemas da Nação.

Até a imprensa notou, elogiosa, a mudança.

Mas o coração do presidente estava apertado.

Sentia saudades da interação com os leitores, das confusões e até dos bloqueados.

Só que não podia voltar atrás, porque promessa de presidente, ainda mais para a primeira-dama, é lei.

Ela, sensível, notava a tristeza do marido, mas evitava o assunto.

Foi numa noite que serviram picadinho, o prato preferido do presidente, que ele deu um basta.

Sacou o celular e começou a tirar fotos do prato, como quem dá tiros com um revólver imaginário.

– Ficou doido, homem? Pra que tanta foto? – a primeira dama perguntou, mas já desconfiava da resposta.

– Instagram, pô.

Enquanto o presidente postava as fotos, a primeira-dama sorria orgulhosa.

Ideia dela, afinal.

Família é isso.

 


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