Comportamento

O pesadelo não acabou

Seis anos depois da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), quando 242 pessoas morreram e 680 ficaram feridas, os sobreviventes lutam para superar os traumas. E seguem esperando que a Justiça cumpra seu papel e puna os responsáveis

Crédito: Laura Fabricio

MUDANÇA Delvani teve 40% do corpo queimado. Quer trocar o curso de fisioterapia pelo de medicina (Crédito: Laura Fabricio)

Na noite de 26 de janeiro de 2013, Delvani Rosso, 26 anos, saiu da cidade de Manuel Viana para encontrar o irmão e os amigos em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Decidiram ir dançar e na madrugada do dia 27 ele quase perdeu a vida. Delvani é um dos 680 sobreviventes da tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria. Naquela madrugada, um incêndio destruiu o lugar, matando 242 pessoas. Não havia saídas de emergência e os extintores estavam vencidos. O Brasil amanheceu paralisado naquele domingo. As imagens de jovens desesperados tentando quebrar paredes para salvar quem estava preso nas chamas, a dor dos pais a procura dos filhos e as primeiras informações sobre as irregularidades que facilitaram a propagação do fogo chocaram o País. De lá para cá, a vida andou mas, para quem viveu o drama da Boate Kiss, o pesadelo continua. De outra forma, mas doendo igual.

CUSTO Cristiane Clavé gasta R$ 500 em remédios. Teve os pulmões queimados (Crédito:LAURA FABRICIO)

A culpa como companheira

Falar com os sobreviventes e os seus familiares é retroceder o tempo. O relato emerge como se a tragédia ocorrida há pouco mais de seis anos tivesse acabado de acontecer. A busca de uma rotina normal é permeada por dores e memórias que insistem em permanecer. Delvani Rosso, por exemplo, iniciou mas interrompeu o curso de fisioterapia na Universidade Franciscana. Agora pensa em cursar medicina. “É o que parece fazer mais sentido”, diz. Hoje ele trabalha como auxiliar administrativo e admite que as escolhas decorrem da experiência que viveu.

Para Cristiane Clavé, 32 anos, é difícil respirar. Funcionária pública da prefeitura de Santa Maria, ela não sai de casa sem a bombinha para asma que usa depois de ter tido os pulmões queimados. A lesão é irreversível e a obriga a gastar R$ 500 reais mensalmente em medicações. O trauma a acompanha no dia-a-dia. “A vida não é mais a mesma”, afirma.

O administrador de empresas Gustavo Riet, 40 anos, só teve o pulmão 100% curado em 2017. Até hoje, porém, ele sente culpa por não ter salvado um dos melhores amigos, Ubirajara Bastos Junior. “Mesmo os pais dele me perdoando, sinto culpa”, conta. Gustavo ficou conhecido nacionalmente como um dos heróis da marreta, o grupo que ajudou a quebrar as paredes e salvar diversas pessoas. “Me sinto culpado por não ter feito mais.”

Culpa também é um sentimento experimentado por Ezequiel Real, 29 anos, atleta fisiculturista e educador físico. Ao sair da boate, ele caiu sobre duas moças. Uma vez do lado de fora, voltou para tentar resgatá-las. Foi quando teve a dimensão do pânico instalado. Começou a recolher as pessoas e quebrar as paredes. Hoje tem dificuldades de demonstrar e receber afeto. “Eu não admitia que as pessoas tivessem pena de mim sabendo que outras estavam em situação pior.”

MARCO Hoje, o local tornou-se uma espécie de memorial para lembrar o drama e pedir Justiça (Crédito:LAURA FABRICIO)

Na cidade, todo dia 27 de cada mês familiares fazem vigília em uma tenda com a imagem das 242 vítimas. É um protesto diante de uma justiça que se arrasta. Em 2013, a Polícia Civil do Rio Grande Sul apontou 28 pessoas como responsáveis pelo incêndio. Delas, 16 foram indiciadas no maior inquérito realizado pela polícia do estado. Entre os apontados na época, estava o prefeito César Schirmer, que em 2016, durante o governo José Ivo Sartori, tornou-se Secretário Estadual de Segurança. No mesmo ano, o delegado Marcelo Arigony, que fazia a investigação, foi transferido para um cargo de menor categoria. Na época, ele era delegado regional e responsável por mais de 20 municípios. Hoje, atende uma zona periférica da cidade de Santa Maria. “Às vezes as pessoas me perguntam se estou de castigo, se fui perseguido. Se eu disser que as mudanças não estão relacionadas ao evento Kiss, estaria mentindo”, diz.

Atualmente, apenas quatro réus — Marcelo de Jesus dos Santos, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão, o produtor da mesma banda, Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffman, sócios-proprietários da Kiss — aguardam decisão do Supremo Tribunal de Justiça para saber se serão condenados por dolo eventual ou culposo. E nenhuma família foi indenizada.

Vídeo: advogado de Elissandro Spohr, sócio da Boate Kiss, fala sobre o processo 

Vídeo: advogado das vítimas de Santa Maria

Vídeo: depoimento do pai de uma das vítimas da tragédia