Internacional

O Peru no laboratório

Breve análise de um país cujo presidente fechar o Congresso é constitucional, em que o Legislativo vive de intriga e toda corrupção passa por uma única empreiteira

Crédito: Juan Pablo Azabache Manayay

POLÍTICA PERUANA afastado pelo Congresso, o presidente Vizcarra (foto) recebe apoio do povo. A vice Mercedes assume e renuncia: crise rotineira (Crédito: Juan Pablo Azabache Manayay)

A democracia peruana é digna de ser estudada em laboratório por uma junta de cientistas políticos. Em qualquer país, o ato de o presidente fechar o congresso é considerado golpe de Estado. No Peru, não. Em qualquer país, arestas entre Executivo e Legislativo sempre existem, mas os poderes acabam se entendendo, batem boca de novo, mais uma vez se entendem, e seguem a vida. No Peru, não. Em qualquer país há corrupção (o Brasil que o diga) envolvendo muitos agentes públicos e muitas empreiteiras. No Peru, não. É uma empreiteira só.

Gorda gatunagem

Esse quadro ficou claro na semana passada quando o presidente Martín Vizcarra ordenou a dissolução do Congresso porque os parlamentares, pela segunda vez, rejeitaram suas propostas. Na primeira ocasião, os congressistas rechaçaram a reforma política; agora, não aceitaram o fim da prerrogativa de escolha dos membros do Tribunal Constitucional — e fizeram isso porque tal tribunal tem, há tempo, a função de acobertar suas falcatruas. De volta ao nosso laboratório, o estranho é que a Constituição do Peru assegura ao presidente o direito de dissolver o Congresso. Estão assim explicitadas duas das questões acima levantadas. Ou seja: mandar as Forças Armadas fechar o Congresso é constitucional; e mais uma vez os dois poderes entraram em choque.

Fiquemos nos três últimos presidentes. Eles envolveram-se
em gorda gatunagem. E em todos os rolos
a Odebrecht foi constante

Os parlamentares não aceitaram a ordem, afastaram o presidente, o que é somente um gesto simbólico, e empossaram, também simbolicamente, a vice Mercedes Araóz. Isso foi na segunda-feira 30, ficando portanto o Peru com dois presidentes. Vinte e quatro horas depois, Mercedes renunciou, enquanto as Forças Armadas, doze governadores e alta porcentagem da população fechavam apoio ao presidente. Porquê? Resposta fácil: o povo sabe da corrupção que há no Congresso. A surpresa desse apoio é que o mesmo povo sabe da mesma corrupção que rola no comando do país. Para nos restringirmos aos três últimos mandatários, todos eles enrolaram-se em gatunagem. E aqui vai a olhada que faltava no microscópio de nosso laboratório político: toda a corrupção, estimada em cerca de US$ 4 bilhões, se deu com uma única empreiteira, e isso é inédito. Seu nome: Odebrecht.

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