Internacional

O pêndulo regional se movimenta

Eleição ainda indefinida aponta a provável vitória da centro-direita no Uruguai, após 15 anos. Se resultado for confirmado, a “onda vermelha” no continente sofrerá um golpe

Crédito: PABLO PORCIUNCULA

EXPECTATIVA Luis Lacalle Pou, de centro-direita, recebeu o apoio da maioria dos eleitores por uma pequena margem. Apuração dos chamados “votos observados” pode confirmar seu triunfo (Crédito: PABLO PORCIUNCULA)

As eleições uruguaias do último domingo 24, ainda com resultado indefinido, podem mudar o cenário político do país. Se a vitória da coalizão de centro-direita for confirmada, ela encerrará 15 anos de governos de esquerda e repercutirá nos rumos do continente. Significará na prática uma contenção à onda vermelha representada pela eleição do kirchnerista Alberto Fernández, na Argentina, e pela crise que o conservador Sebastián Piñera enfrenta no Chile. O presidente Jair Bolsonaro, que hostilizou o novo mandatário argentino, poderá ganhar um alento para a frente de países que pressiona o regime venezuelano do ditador Nicolás Maduro.

Para o presidente Jair Bolsonaro, é importante que Lacalle Pou seja consagrado. Mas isso não significa que ganhará automaticamente um aliado

Foi uma disputa acirrada, como já indicavam as pesquisas. Os eleitores deram uma ínfima maioria de 48,71% ao candidato Luis Lacalle Pou, que lidera uma aliança de centro-direita de cinco partidos — entre eles o Nacional, o Colorado e o Cabildo Abierto, que foi lançado pelo ex-chefe do Exército Guido Manini Ríos. Logo atrás, com 47,51%, ficou Daniel Martínez, da governista Frente Ampla. Até a quarta-feira 27, o resultado ainda era incerto. O candidato do Partido Nacional conseguiu 1.168.019 votos, enquanto Daniel Martínez, da governista Frente Ampla, havia obtido 1.139.353 votos. A dúvida se refere aos chamados “votos observados”, de eleitores que votaram fora de suas zonas originais — são apenas 35.229. Segundo as normas eleitorais, essas cédulas precisam ser checadas e o processo só deverá ser concluído até o final da semana. A vantagem para Lacalle Pou é de 28.666 votos. Para que o esquerdista consiga superar o rival, precisaria reverter 90,69% dos “votos observados”. Muito difícil, mas matematicamente possível.

Antes do pleito, pesquisas indicavam uma vantagem de pelo menos cinco pontos percentuais a favor da Lacalle Pou. Isso foi revertido por um esforço grande da Frente Ampla, que conseguiu mobilizar eleitores que moram na Argentina. No campo conservador, pesaram negativamente as dúvidas sobre intenções autoritárias do aliado Manini Ríos, que tem em seu currículo a suspeição de ter acobertado crimes na ditadura (1973-1985). Mais que isso, ele deu declarações polêmicas na reta final da disputa conclamando os militares a votarem na chapa de centro-direita. Se a provável vitória de Lacalle Pou se confirmar por uma diferença situada em pouco mais de um ponto percentual, conforme calculam analistas, o governo de direita que assumir terá menos força do que esperava.

TENSÃO O presidente Daniel Martínez, da Frente Ampla, é confortado pela esposa: a aliança de esquerda pode perder o poder que detinha desde 2005 (Crédito:EITAN ABRAMOVICH)

Para a esquerdista Frente Ampla, mesmo que consiga triunfar, terá sido sua mais dura prova desde que chegou ao poder pela primeira vez, em 2005, mais de 30 anos após sua criação. Ela é formada pelo Partido Socialista, por ex-guerrilheiros Tupamaros e partidos menores. O atual mandatário não mostrou receio de uma virada. “É preciso alternar pessoas e partidos, não existe drama nisso. O próximo governo terá o desafio de manter os equilíbrios”, afirmou Martínez no dia da eleição.
O Uruguai tem conseguido manter a estabilidade política e a tradição democrática, contrastando com a turbulência atual em vários países da região. Em parte, o desgaste da atual administração pode ser explicada pela dificuldade com a economia, que entrou em um processo de desaceleração depois de um longo período de estabilidade e crescimento. Este ano, a previsão é de expansão do PIB de apenas 0,6%. Os impostos altos e a alta da taxa de desemprego, atualmente em 9,5%, também desgastou a atual administração. Ao lado da economia, a segurança pública é o tema mais sensível, com um aumento expressivo no número de homicídios.

Para o governo Bolsonaro, é importante que Lacalle Pou seja consagrado. Mas a provável vitória não fará o brasileiro ganhar automaticamente um aliado. O candidato conservador defende o liberalismo na economia, mas não tem uma agenda conservadora nos costumes. Ao contrário, defendeu a legalização da maconha no país. Ele rejeitou um alinhamento com o brasileiro durante a campanha. É um sinal importante. Bolsonaro tem perdido seus poucos aliados internacionais de perfil populista e direitista. Tentou, até agora sem sucesso, ganhar protagonismo liderando um movimento conservador na América Latina. A posse de Andrés Manuel López Obrador, no México, a eleição do peronista Alberto Fernández, na Argentina, e as revoltas populares no Chile e na Colômbia debilitam ainda mais sua frágil articulação. Com Lacalle Pou no poder, a tendência conservadora no continente ganharia um alento, mas sem fortalecer o discurso radical e de inspiração autoritária de Bolsonaro.

Estagnação da economia, impostos altos, desemprego crescente e aumento dos homicídios explicam a crise do atual governo