Edição nº2522 20.04 Ver edições anteriores

O país do passado

Depois de anos estagnado, o Brasil finalmente rompeu sua inércia.
O gigante adormecido acordou e, atrasado, saiu correndo a passos largos.
De ré.
Largamos na frente de todo o planeta na corrida de volta à Era Glacial.
Muitos acharam, com o aquecimento global, que esse era o destino da humanidade, mas isso levaria séculos.
Nós não.
Decidimos regredir a partir de agora mesmo.
E já ultrapassamos a barreira do séulo 20.
Se você não acredita, pense que enquanto o mundo todo começa a ter acesso à internet ultra rápida, a automóveis elétricos e com baixas emissões, computadores e eletrodomésticos futuristas, nós protegemos a indústria nacional dessas modernidades inúteis com reserva de mercado e impostos absurdos.
Percebe?
Assim passamos batido pelos anos 80 rumo ao Paleolítico.
Mas a corrida é longa.
Não adianta apenas nos tolher dos futeis bens materiais.
Não.
Viajar para trás no tempo é uma tarefa multidisciplinar.
Urge resgatar o racismo, o machismo, o autoritarismo e as ideias mais conservadoras eventualmente enterradas pelos progressistas.
É preciso sabotar as parcas conquistas políticas e sociais das últimas décadas.
Num salto triplo surpreendente tiramos de letra os anos 1970, dando holofotes a gente que se expõe sem vergonhas ou constrangimentos pedindo a volta dos militares.
Ou seja, está nas nossas mãos a chance de ser o único País na História a se a ditadura democrática.
A didatura que vem pelo voto mesmo, sem necessidade de revoluções, cumprindo nossa tradição atávica de povo pacato.
Foucault teria orgulho de nossa busca do tempo perdido.
Semana passada, numa demonstração de racismo contra a filha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, regredimos para lá dos anos 1960.
Fosse num ônibus e teríamos nossa Rosa Parks as avessas.
Qualquer pequeno avanço na luta pela igualdade precisa ser esquecido ou correremos o risco terrível de evoluir.
Enquanto escrevo, o Congresso pretende votar contra o aborto até nos casos de estupro, para colocar a mulher no lugar de onde acham que nunca deveria ter saído: os anos 1950.
Com algum esforço, conseguirão que mulheres não votem mais.
Ou fumem.
Nossos políticos nos guiam a salvo pelo traiçoeiro caminho do regresso.
Enquanto você e eu tentamos alcançar o século 14, deputados e senadores já estão de volta à Idade Média.
Nos permitem a visão de País governado pela Nobreza e pelo Clero.
Pré-Iluminismo.
Nobreza que se entope de dinheiro e decisões mesquinhas e individualistas.
Ministros de Estado roubam milhões.
Juízes não se constrangem em soltar seus compadres. Governadores formam e lideram quadrilhas para pilhar seus eleitores.
Essa elite compõe uma casta especial de 55 mil nobres com direito a Foro Privilegiado, regras salariais diferenciadas e aposentadorias generosas.
O clero, também conhecido como “Bancada Evangélica”, garante o obscurantismo.
Censuram exposições, pedem o fechamento de museus. Proíbem a expressão artística como se queimassem livros.
Censuram, mentem, tudo em nome do seu divino poder. Nosso Luiz 16 está desconectado de qualquer anseio popular, mesmo depois de termos decepado nossa Maria Antonieta, no ano passado. A eleição no ano que vem é a revolução que se aproxima, para acelerar nossa regressão. Uma revolução sem ideais.
Sem heróis.
O que é ótimo, pois só uma revolução assim pode garantir que nosso mergulho no passado não seja interrompido.
Não podemos correr o risco de eleger alguém que atrase nossos planos.
Por isso enche de esperança saber que nosso Robespierre é o Bolsonaro.
Estamos de parabéns. Daí para as cavernas é um pulinho.

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Mentor Neto

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