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O outro lado de Casanova

Biografia revela que o mestre da libertinagem, para além do apetite sexual, foi um símbolo do Iluminismo com suas memórias e invenções, como a loteria francesa

O outro lado de Casanova

CELEBRIDADE Retrato de Giacomo Casanova em 1760 aos 35 anos, por seu protetor, o pintor Anton Raphael Mengs: gênio sedutor

A fama atual do aventureiro veneziano Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798) foi ter seduzido milhares de mulheres e dezenas de homens. Trata-se de uma glória póstuma, adquirida com a “História da minha vida”, memórias publicadas postumamente entre 1822 e 1825, em 28 volumes. Elas se tornaram uma das obras mais populares do Ocidente, por suas histórias libidinosas e peripécias impensáveis, não raro inventadas. O historiador americano Laurence Bergreen apresenta um retrato mais realista na biografia “Casanova: a vida de um gênio sedutor” (editora Objetiva). O livro fez sucesso ao ser lançado nos Estados Unidos em 2016, por causa da profusão de detalhes, do humor e da revelação de detalhes ignorados. “Decidi escrever sobre Casanova porque era Casanova”, afirma Bergreen à ISTOÉ. “Excêntrico, carismático, vivendo a vida em abandono selvagem.”

“Seus lugares favoritos no mundo eram os bordéis e as bibliotecas” Laurence Bergreen, biógrafo e historiador

Durante a investigação, que o levou a seguir os rastros que o biografado deixou em Veneza, Praga e Paris, Bergreen descobriu que ele conquistou 122 mulheres em vez de milhares, como disse, entre outras confissões. “Ele até poderia ter exagerado mais”, diz. “Mas os registros comprovam que foi o que disse que foi. Ele manteve contatos amorosos, como mostra a sua correspondência. Temos de confiar em suas memórias, mesmo que sejam subjetivas.”

Matemático

O livro de 480 páginas narra como o filho de um ator e de uma soprano, Zanetta, conquistou os nobres de Veneza, onde os cidadãos costumavam se fantasiar o ano todo, mesmo em cerimônias oficiais. Brilhou como literato e padre. Na sacristia onde rezava a missa, deu início às escapadas amorosas. Ficou famoso pela simpatia, imponência (media 1,90 metro) e inteligência, apesar de feio. Tornou-se especialista de trapacear nas cartas e fugir de prisões. Entre seus troféus, consta o de ter sido o único ser humano a ter escapado das masmorras do Palácio Ducal de Veneza em 1755, onde estava preso por dissolução de costumes e — acusação mais grave — uma crítica negativa que fez estampar em um jornal sobre uma soprano que era amante do Doge.

Também trabalhou como proxeneta. Em 1753, quando morava em Paris, envolvia-se com todo tipo de mulher. Encantou-se tanto pelas formas de Louise O’Murphy, uma “maltrapilha imunda” de 13 anos, que encomendou um retrato dela nua a François Boucher. Seu objetivo era mostrá-lo a Luís XV. O rei se encantou por Louise e tomou-a como amante, não sem favorecer o intermediário. Logo o monarca a expulsaria do palácio de Versalhes por causa da língua afiada.

Mas o sexo para Casanova resultava em força criativa. “Foi também um gênio da literatura, da psicologia e da matemática”, afirma Bergreen. “Mestre da autopromoção, criou a loteria francesa, utilizada até hoje.” E revelou-se uma das primeiras celebridades europeias. “Ele encarnou o espírito da liberdade, da libertinagem e da revolução”, diz. “O Iluminismo pode ser chamado também de a Era de Casanova”.

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