Entrevista

Andor Stern, Sobrevivente do Holocausto

O ódio não resolve nada

Divulgação

O ódio não resolve nada

Vicente Vilardaga
Edição 21/02/2020 - nº 2615

O engenheiro Andor Stern é um sujeito excepcional. Lépido e curioso, aos 91 anos ele ainda trabalha numa empresa fabricante de resinas termoplásticas e dirige seu próprio carro pela cidade. Teve uma carreira brilhante, formou uma bela família e se considera um homem realizado. Stern carrega, porém, uma história terrível: é o único brasileiro nato ainda vivo que sobreviveu ao Holocausto, a matança de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial. Ele viu sua família sendo levada para morrer nas câmaras de gás e passou 14 meses sendo escravizado em vários campos de trabalho forçado. Teve também a infelicidade de se deparar por duas vezes com um dos maiores carrascos nazistas, o médico Josef Mengele. Quando foi libertado pelos americanos, no dia 30 de abril de 1945, Stern pesava 28 quilos e estava com sua identidade aniquilada. Mas ele se recuperou, encontrou um caminho virtuoso e hoje está muito preocupado com o aumento do antissemitismo e com o avanço da extrema-direita no mundo, inclusive no país de seus antepassados, a Hungria. “O momento é complicado. Um cara como o Trump é perigosíssimo. Ele incita a violência”, disse Stern em entrevista à ISTOÉ.

O senhor acaba de fazer uma viagem à Auschwitz. Como é voltar para um lugar em que houve tanto sofrimento?
Acabei de chegar de Auschwitz, 75 anos depois, e ganhei, inclusive, uma medalha. Mas já tinha estado lá outras vezes. Passei por vários campos de trabalho forçado e depois que recuperei a liberdade pensei muito naquele lugar. Uma hora você chega à conclusão de que tem de voltar para lá para entender sua própria experiência. E vai lá para sofrer. Tive de voltar em várias ocasiões.

Como é o lugar hoje?
É surreal. Angela Merkel foi lá e deu dinheiro para recuperar o lugar. Não sei que tipo de curiosidade é essa. Hoje visitam Auschwitz no mínimo oito mil pessoas diariamente, inclusive no inverno. O aeroporto de Cracóvia é maior que o de Guarulhos. A cidade tem 600 mil habitantes e cinco shopping centers, por causa do turismo. O que tem lá de japoneses, chineses, húngaros, poloneses é impressionante. Chega avião do mundo inteiro. Lá tem umas coisas que são para machucar. Tem um lugar cheio de latas largadas, no outro, uma montanha de sapatos abandonados, montanhas de cabelo de pessoas que morreram ali. Tudo é exposto, como num museu, para chocar mesmo.

É importante preservar essa memória?
Se for uma ajuda para que a história não se repita, tudo bem, mas é um turismo mórbido.

O senhor acha que as pessoas que visitam Auschwitz tem noção do que realmente aconteceu ali?
O ser humano normal, que tem um interior decente, não imagina a situação vivida lá. É indescritível. E não estou querendo valorizar minha experiência. Eu, da mesma forma que respeito você, respeito minha cachorra e até uma planta. Porque a vida sempre merece todo o meu respeito. O que aconteceu ali é inimaginável. As pessoas eram exterminadas.

Durante muito tempo, o senhor não se sentia confortável para falar desse assunto? O que motivava esse silêncio?
Você já conversou com alguém que passou por semelhante coisa? Eu digo que quebrei. Tenho um amigo cuja filha é psiquiatra. E quando falávamos do assunto a gente chorava. Acordar todos os dias de manhã pode ser uma rotina para qualquer um, mas, por causa do que vivi, é um milagre para mim. Banho quente, escova de dente, uma camisa limpa, um sapato confortável e um terno. Tudo isso pra mim é um presente. Pego meu carro e vou para onde quero e sei que ninguém vai me enfiar uma Beretta na cara. Sou livre. Preciso de mais alguma coisa? Quando você toma conhecimento de que está vivo, de que sobreviveu, você entra na luta e quer ser igual aos outros.

Como o senhor foi preso?
Estava escondido em Budapeste e quando me descobriram me mandaram para Auschwitz. Fui separado da minha família e lá foi a última vez que vi minha mãe. Ela tinha 36 anos e morreu no dia 6 de outubro de 1944. Ela estava junto com minha tia Elizabeth, que sobreviveu. O meu pai, que havia se separado da minha mãe e desaparecido, eu reencontrei muitos anos mais tarde na Espanha. Fiquei preso e fazendo trabalhos forçados durante 14 meses. Da minha família foram 93 pessoas para os campos, entre primos, avós e tios paternos e maternos. Deste total, só restaram cinco pessoas.

O que o senhor viu ao chegar?
Você imagina um camarada saindo do vagão e uma mulher descendo com um bebê. Ele pega o bebê e joga na lateral do trem. E isso foi para salvar a mulher, que iria direto para a câmara de gás, como faziam com todas as mães com filho pequeno. Ele salvou a mulher matando o filho. Ai começa a degradação física e psicológica. Você é jogado num barracão com uma montanha de gente. Não tem nem lugar para dormir. Todos se amontoam. Os kapos (prisioneiros que supervisionavam os trabalhos forçados) apontam uma chaminé e dizem que nossa família está lá, naquela fumaça. Quando vem a fome, não é apenas uma necessidade fisiológica, mas também psicológica. Eu fechava os olhos e imaginava os armários de cozinha com uma seleção de pães, embutidos, queijos. Imaginava que fazia um sanduíche imaginário. Porque eram dadas somente 400 calorias por dia para a gente e eu carregava tijolos e cimento o dia inteiro. Quando me libertaram eu pesava 28 quilos.

Qual era a rotina nos campos de trabalho forçado?
Eu cheguei em Auschwitz junto com meu amigo Luis Berger e fomos selecionados pelo Mengele para ir para uma fábrica, que foi dividida e hoje é ocupada pela Degussa e pela Bayer. Lá eles fabricavam gasolina, partindo de carbono e buna, uma espécie de borracha sintética. Começamos como funcionários e, logo, uma comissão selecionou a gente para trabalhar no Gueto de Varsóvia. Fomos levados para recolher tijolos inteiros, que selecionávamos e colocávamos num trem que os levava para a Alemanha. Naquele momento, a Alemanha já estava sendo bombardeada e não havia mais olarias. Ao longo do tempo, fui colocado em campos de castigo, de trabalhos forçados, de prisioneiros. O extermínio era por meio do trabalho forçado.

Houve outros encontros com o médico Josef Mengele?
Passei por ele duas vezes, porque ele era o chefe da seleção de pessoas. Ele procurava gêmeos para fazer as experiências dele. Mas todos os contatos com os alemães eram feitos pelos kapos. Depois de chegar em Dachau fui mandado para outro campo onde estavam construindo uma fábrica de aviões, que nunca ficou pronta. Eram três empresas que “alugavam” a gente para a SS. Pagavam diárias por nós pelos serviços prestados.

O senhor achava que seria escravizado para sempre?
Perdi a noção do tempo. Nesse processo, para você conseguir sobreviver você se acostuma com o sofrimento, Quando você chega, você é gente, mas logo começa a se degradar com a fome e a sujeira. Dá nojo, mas o nojo também desaparece. E quando as exigências desaparecem, a tua mente vai desfalecendo. Senão você não agüenta. Eu e meu amigo cuidávamos um do outro.

A amizade foi fundamental para sua sobrevivência?
Foi importante, porque quando eu estava mais pra lá do que pra cá ele me acalentou. Quando ele machucou o joelho eu fiz um suporte porque ele não conseguia por o pé no chão. Durante todo o tempo nos ajudamos. Éramos amigos desde o jardim da infância e os dois tinham a ideia de serem engenheiros. Depois da guerra, esse amigo ficou na Hungria, mas nossa amizade durou muito tempo, até sua morte.

É uma ferida que nunca cicatrizou? O senhor sente ódio dos alemães?
Não, eu saí de lá vazio. O ódio não existe dentro de mim. O ódio não resolve nada. Você fica com úlcera e não resolve. Lá dentro você não tem energia. Você vira um zumbi, senão morre. Cada um se defende como pode. Quando me incomodava a lembrança da minha mãe, sentia uma imensa dor, mas passava. Você vai progredindo na miséria, tem diarréia constante e se acostuma com aquilo. Sua existência não tem momento seguinte, só o presente.

Você perde a capacidade de pensar no futuro?
A natureza humana começa a se animalizar. Eu olhava na cara de uma pessoa e de repente achava que ela ia embora. Ficava perto para verificar se ia embora mesmo para eu ficar com seu pão. O pão era tudo. Era o centro da atenção.

O senhor se lembra do dia da libertação?
Sim, perfeitamente. Estávamos trancados num trem, à beira de um lago em Seeshaupt e alguém gritou que todos estavam livres. Estávamos há sete dias sem uma gota de água e sem um fio de capim para comer. Os americanos nos libertaram no dia 30 de abril e no dia 1º de maio, ouvimos um barulho e vimos uma fila de tanques com estrela de cinco pontas. Aí apareceram soldados americanos e alguns deles choravam como crianças. Eles nos deram comida, até chocolates. Mas eu não conseguia nem comer. A diarréia era constante. Quando abriram o vagão foi uma tristeza, porque poucos sobreviveram. Os americanos chegaram com toda sua estrutura: hospitais de lona, médicos alemães que capitularam e aderiram à Cruz Vermelha, caminhões com boiler e água quente. Deram banho, comida, remédio para todos. Essa sensação de alívio nunca mais passou. É como uma brasa na churrasqueira que está quase apagando e alguém mexe para reavivar. Você começa a achar que está vivo de novo. De repente está lavado, escovado, desinfetado. Continua com sarna, eczema, furúnculos e tudo mais, mas volta a ser gente.

Como é conviver com a extrema maldade? Imaginava que pudesse existir?
Nunca analisei isso. Você não tem nem energia para isso. Só precisa respirar. Só consegui chorar muito tempo depois. Fiquei livre em 1945 e voltei ao Brasil em 1948 e só um ou dois anos depois eu fiquei emocionado e consegui chorar conscientemente. Minha tia dizia ter me encontrado embaixo da mesa chorando na Hungria, depois da guerra. Mas não lembro. Depois fui relaxando. Hoje tenho uma família na Hungria, descendentes dos sobreviventes. Voltei a ser como qualquer ser humano.

O nazismo começou a apavorar o senhor desde o início? Como percebia a perseguição aos judeus?
Não, eu era moleque. Mas sentia diminuir a minha liberdade. Na Hungria fui expulso de piscina, cinema, patinação do gelo. Isso eu sentia. Quando cheguei em Budapeste já tinha bullyng no primeiro dia da escola. Um moleque queria que eu lambesse a sola do sapato dele. Você não tem idéia do que é o ódio planejado. O próprio adulto falava do “porco judeu”. Mas não tinha a noção dessa estrutura toda de maldade. Eu era tratado com extremo carinho pela minha mãe, minha tia. Era paparicado. Não tinha noção de que queriam destruir a gente. Eu tinha amigos e um lar.

A vingança passa longe do seu espírito?
Quando saí estava muito machucado. Mas não preciso me preocupar se você me fez mal. Se você fez mal, vai pagar isso por sua conta. Eu não vou participar. Você é meu próximo e eu tenho de respeitar porque você é um ser humano. Eu me odiaria se eu descesse do meu grau de humanidade por besteira. Não sei se tenho razão. Tenho a impressão que não é bom quando você se sente injustiçado e quer apertar a garganta de alguém.

Como vê o revisionismo que quer negar o Holocausto?
Quer que eu te conte? Estou apavorado. A Itália é o único lugar onde os alemães não tiveram sucesso e não conseguiram matar judeus. Os italianos colocavam os judeus num navio, que ia para o alto mar e diziam que, depois que os alemães fossem embora, eles seriam salvos. Muitos morreram, mas os italianos não mataram. Hoje o futebol italiano tem o Roma, com torcida de judeus, e o Lazio, time dos antigos fascistas. A torcida do Lazio grita no campo: a locomotiva está fazendo vapor. É uma alusão aos vagões onde eram colocados os judeus que iam para os campos de concentração.

O antissemitismo está se fortalecendo?
Sempre foi latente. A perseguição aos judeus existe desde a morte de Jesus Cristo. Se Jesus soubesse que, em nome dele, muita matança iria acontecer, talvez ele nem tivesse aberto a boca. Desde os templários, dos cruzados, dos reis católicos, que expulsaram os judeus da Espanha, existe o antissemitismo.

O senhor se preocupa com o aumento da tensão política no Brasil e no mundo?
O momento é complicado. Um cara como o Trump é perigosíssimo. Ele incita a violência. Você pode até gostar de um camarada como o Bolsonaro, mas ele é limitado. Não sei se é simpático ao nazismo. Acho que é deficiente mental e a má educação dele é demasiada. Desculpe dizer. Mas é aí que nasce o perigo. O poder cega. Quando a mosca azul pica o sujeito é assim. Depois da ditadura militar, o mais comedido foi o Fernando Henrique Cardoso, porque tinha mais cultura. Esse Bolsonaro a vida inteira brigou com o Exército. Foi baixo clero como deputado. E o mais engraçado, segundo imagino, é que não teve tantos votos porque queriam ele na presidência, mas, sim, porque não queriam o Lula.

A Hungria tem um primeiro-ministro de extrema direita, o Viktor Orbán. Como o senhor vê isso?
O presidente é de direita, diz que não é antissemita, mas é. Tem um partido que se chama Jobbik, em que os integrantes usam a mesma farda do partido nazista, que imita a farda de Hitler. A Hungria está em pleno fascismo. Esse cara, o Orbán, rouba e dá liberdade à direita. Viu como trataram os refugiados na Hungria? Colocaram arames farpados. Pior do que os russos faziam quando tinha a cortina de ferro.

A Hungria é um dos símbolos desse ressurgimento do totalitarismo?
Os húngaros são um povo que vem dos Urais, parentes de Átila, dos Unos, que avançaram até lá. Quando fui à Hungria com minha filha mais nova, visitei uma sinagoga local, de 1893. Tem uma pedra com inscrições que tratam da expulsão dos judeus da região naquela época. Já havia rejeição. Depois, quando houve a paz entre os austríacos e húngaros, depois das guerras napoleônicas, deram liberdade aos judeus. E os judeus são extremamente competentes. Fizeram de Budapeste uma Paris da Europa Central. Sou convicto que Hitler odiava os judeus porque eles eram fortes concorrentes dos alemães. Os judeus sabem trabalhar. Esse é um dos motivos do antissemitismo.

O senhor faz muitas palestras para contar sua história?
Com minhas palestras, que comecei a fazer em 2009, vejo que mudo a vida das pessoas para melhor. Um diretor de uma escola me disse que seu pior aluno virou o melhor depois da minha palestra. Em outra, um rapaz se levantou quase chorando e perguntou se eu queria ser o avô dele. É demais. Nas minhas palestras, falo o que penso sobre a vingança, que considero uma idiotice. Qualquer coisa que se fizer contra os alemães hoje não faz sentido, porque já temos uma quarta geração depois da Guerra, que nada tem a ver com o que seus avós fizeram. Os alemães pedem perdão até hoje. Quando fui a um museu em Berlim, em outubro, estava calor e tirei minha jaqueta. Alguém viu a marca no meu braço com o número 83892. Os alemães vieram e abriram o elevador e me deram presentes. Agora, em Auschwitz, eles me reverenciaram. O que não aceito são indenizações porque não vendo minha família por dinheiro. Tampouco, por princípio, aceito um tostão por minhas palestras. Prefiro viver minha vidinha de sempre com meu salário.

 

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