PANDEMIA * 2020

O novo gabinete de crise de Bolsonaro

É comandado em conjunto pelos três filhos do presidente. Flávio, Eduardo e Carlos têm participado pessoalmente do dia a dia do governo e aconselham o pai a radicalizar e reagir duramente às críticas. Tentam, assim, obter lucro político com a pandemia na esperança de reverter o isolamento e a queda de popularidade do mandatário

Crédito:  Isac Nóbrega/PR

PALÁCIO DO PLANALTO Videoconferência sobre a Covid-19 com governadores da região Norte: participação ativa de Carlos Bolsonaro (Crédito: Isac Nóbrega/PR)

Já é bastante famosa a sala 315 que funciona no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete do presidente Jair Bolsonaro. Oficialmente se trata de uma Assessoria Especial, nome que não significa absolutamente nada. E nem poderia, pois foi criado justamente para ser algo que ficasse solto no ar. Nesse local opera concretamente, isso sim, o também já conhecido “gabinete do ódio”, que intriga e persegue digitalmente adversários de Bolsonaro, dentro e fora do governo. A novidade é que ele está sendo repaginado na liderança e nas funções: os três filhos, Flávio, Eduardo e Carlos passaram a comandá-lo conjuntamente, e todo o trabalho está voltado para a tentativa de obter lucro político com a desgraça do coronavírus: reverter a queda da popularidade do pai, que perde adeptos cada vez que abre a boca para falar da pademia. É visível que há uma ponta de desespero nesse novo “gabinete de crise”.

Um vídeo, um desastre

Os esforços não estão melhorando em nada o desempenho presidencial junto à população. No Twitter, por exemplo, até a quarta-feira 1, o que se via era o seguinte: um milhão e quatrocentos mil usuários criticaram o presidente enquanto um milhão e duzentas mil pessoas o defenderam nas duas últimas semanas. O que está em pauta, é claro, é a sua insistência em combater o isolamento e a quarentena como método de prevenção, defendendo a tese de que somente os cidadãos vulneráveis devem ficar em casa. Carlos, Eduardo e Flávio, o triunvirato do atual “gabiente de crise”, estão se reunindo frequentemente com o pai, e é esse o motivo que fez surgirrem mais dois nomes para o gabinete no Palácio do Planalto: “gabinete pararelo” e “novo gabinete do ódio”. Ele já vem, é claro, incomodando muitos ministros e assesores diretos.

Os três filhos estão sendo responsabiliados por aquilo que alguns auxiliares mais moderados denominam “radicalismo do presidente”. Além de radicalismo, no entanto, o que se vê é descolamento da realidade. Ambos se traduzem no fornecimento de munição à militância digital por meio de ataques cada vez mais ofensivos à imprensa e aos governos estaduais. O filho Flávio é procurado por Bolsonaro desde o início da pandemia, e foi dele, Flávio, que saiu a ideia de que o pai insistisse, em cada entrevista, em falar do risco de paralisar a economia do Brasil. Flávio o teria aconselhado a usar a palavra “histeria”. Flávio, a rigor, sempre procurou manter uma posição discreta, mas diante dos panelaços ele decidiu ir à linha de frente. Sem titubear e atropelando regras básicas da República participou ativamente, por exemplo, de uma videoconferência do pai com empresários.

Carlos e Eduardo, não é de hoje, assumem que comandam o gabinete, e se nessa questão há um chefe entre os irmãos pode-se dizer que é Carlos. Foram eles dois, conforme se comenta no Palácio do Planalto, os mentores intelectuais do vídeo no qual Bolsonaro alardeou que os laboratórios de química e de farmácia do Exército iriam se empenhar na produção do medicamento hidroxicloroquina, sem que haja a menor comprovação científica de que ele atue de fato contra o coronavíruis. O vídeo foi um desastre total no campo da ciência, até porque o remédio, se tomado indiscriminadamente, gera fortes danos à saude. O fracasso da mensagem presidencial acabou se refletindo na área política, mesmo entre os bolsonaristas. A ideia de se construir um “presidente médico” em nada funcionou. Também de Eduardo e Carlos teriam partido a figura de linguagem “gripezinha” (assim Bolsonaro se refere ao vírus que está ceifando vidas em todo o planeta) e a tola fala que gerou piada nas redes sociais: “pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado (…) não precisaria me preocupar”.

Considerado mentor e lider do novo gabinete, Carlos segue se empenhando na tentativa de recuperar o irrecuperável: a popularidade do pai. Para surpresa de alguns ministros e imitando o irmão Flávio, recentemente ele até participou de uma videoconferência do presidente com governadores das regiões sul e norte. Virou moda ter filho nessas ocasiões. Ainda sobre Carlos recai a insistência em que o presidente radicalize mais em seus pronunciamentos sobre a crise pandêmica, e o que se vê é um Bolsonaro isolado politicamente, recuando em popularidade e fora do mundo real. Na noite da terça-feira 31, em rede nacional, o presidente diminuiu o tom em relação aos governadores. Já na quarta-feira pela manhã voltou ao confronto. Bolsonaro se tornou autofágico, e o novo “gabinete de crise” é que organiza os bastidores. Uma coisa é certa: o tal gabiente e o coronavírus estão deteriorando o presidente que, por si só, já se deteriorou politicamente há muito tempo.