Mauro Ferreira Foto Reprodução Sem lançar um disco de inéditas desde Brasileira da Gema (1996), Beth Carvalho repõe seu bloco na avenida com o CD Nosso Samba Tá na Rua. O álbum representa a superação do grave problema de saúde que prendeu Beth a uma cama por mais de um ano. Nesta entrevista à Gente, a Madrinha do Samba (como é chamada pelos colegas) conceitua o disco, lembra o período mais difícil e celebra as pazes com a Mangueira, que de forma indireta a homenageia no Carnaval de 2012 ao desfilar com enredo sobre os 50 anos do bloco Cacique de Ramos. Por que demorou 15 anos para gravar um disco de músicas inéditas? Foi uma exigência e uma contingência do próprio mercado fonográfico. Eu fazia um LP a cada ano com repertório inédito. Até que veio o CD. Aí as gravadoras começaram a querer que os artistas regravassem seus sucessos nessa nova mídia. Mas o CD se consolidou, veio o DVD, que não se pode gravar sem incluir as músicas mais conhecidas nos shows. Mas eu sempre botei músicas inéditas nos repertórios dos projetos que gravei nesses 15 anos. Eu tinha que seguir a tendência da indústria. O mercado me conduziu, mas sempre quis fazer um disco de inéditas. Agora eu fiz. O CD Nosso Samba Tá na Rua marca seu reencontro com Rildo Hora, que não produzia um disco desde Coração Feliz, de 1984. O que motivou esse reencontro? Eu e Rildo nunca deixamos de ser amigos. A gente se separou porque ele queria seguir uma carreira de maestro, se dedicar a outros trabalhos e a produção dos meus discos tomava muito tempo dele. Eu levava três meses somente para escolher o repertório! Por isso, a gente se separou, mas foi numa boa. Cada qual seguiu seu caminho e eu fui trabalhar com o Ivan Paulo e, depois, com o Renato Corrêa (produtores da maioria dos discos gravados por Beth após 1985). Alguns anos atrás, tendo tomado a decisão de fazer o meu disco com independência para depois negociar a distribuição com uma gravadora, reencontrei o Rildo num show no Centro Cultural Carioca (casa de shows do Rio) e o convidei para produzir o CD. Só que meu problema de saúde atrasou tudo. O disco faz exaltação ao samba, não? Sim, o título Nosso Samba Tá na Rua para mim não tem a ver com a minha volta, mas com a exaltação do samba. Quis uma capa que remetesse às capas do meus discos Pé no Chão (de 1978) e Na Fonte (de 1981), que são discos divisores de água na minha carreira e no samba. O bloco Cacique de Ramos completou 50 anos em 2011. Acredita que é possível acontecer no bloco um movimento como o fim dos anos 70 e início dos 80, quando apareceram Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho? O Cacique está em alta. Mas não dá para repetir aquele momento. Nunca é igual! Aquilo que aconteceu a partir de 1977 é difícil de acontecer de novo. Era toda uma geração de compositores cantando para eles mesmos. Foi quando as escolas de samba deixaram de dar espaço aos compositores. Eu sou do tempo em que a gente ia na quadra de uma escola e ouvia samba inédito. Vi a Leci (Brandão) chegar lá na quadra da Mangueira e cantar um samba novo. Esse espaço acabou. Não existe mais ala de compositores. Não tem samba de quadra, só tem samba-enredo. No Cacique, eles criaram um fundo de quintal para cantar uns para os outros. A sorte deles, e minha também, é que eu cheguei naquele momento. Aqueles músicos e compositores criaram um novo som de samba, mais fácil de ser tocado. É um som que perdura até hoje. Foi uma revolução e é muito difícil que aconteça de novo. Por que incluiu no disco um samba de sua filha, Luana Carvalho, ?Arrasta a Sandália?, gravado em dueto com o Zeca Pagodinho? Não estou fazendo favor algum. O samba é ótimo. Eu tinha chamado o Zeca para cantar comigo o ?Guaracy? (outro samba do disco, de autoria de Zeca com Arlindo Cruz e Sombrinha). Mas aí, no estúdio, ele falou: ?não tem um partido alto no disco, não??. Eu mostrei o ?Arrasta a Sandália? a ele sem dizer que era da Luana. Ele gostou e gravou comigo. Luana vai seguir carreira como sambista? Ela não vai seguir na linha do samba, não. Luana vai fazer em janeiro um show com músicas dela, mas numa linha autoral mais pop. Por que dedicou o disco a Ivone Lara? Eu adoro a Dona Ivone. É uma grande compositora. Como eu digo no texto no disco, são delas os ?laraiás? mais bonitos da música brasileira, eles são como arranjos. Se ela tivesse estudado música, seria maestrina. Quais seus planos para 2012? O projeto de um disco com músicas da América Latina ainda está de pé? Sim, ainda quero gravar esse disco. Pensei em fazê-lo em Cuba e na Venezuela. Mas em 2012 vou fazer o DVD do show do disco Nosso Samba Tá na Rua. Vou continuar com a turnê do show dentro do possível. O seu começo é ligado à Bossa Nova. Qual a importância de João Gilberto para você? O João foi um cara que fez a cabeça de todos nós. Lembro que meu pai trouxe um 78 rotações do João e falou: ?minha filha, escute esse violão?. João é um sambista, né? Ele só canta samba, só que é minimalista. Siga Gente no Twitter!