O negócio é judicializar


Helinho e Roberta foram feitos um para o outro, é o que todos diziam. E no começo, a bem da verdade, funcionou.
Roberta, estilista, trocou todo o guarda-roupa de Helinho. Os amigos eram só elogios.

As roupas velhas tentaram doar para um morador de rua, mas ele não só recusou como ficou ofendido.

Helinho, metido, quis ensinar Roberta a cozinhar. Justo ela que tinha Cordon Bleu, coitado. Ela fingiu que levou a sério.

Feitos um para o outro, todos diziam.

Lorena e Amanda, as filhas, eram testemunha de como o pai e a mãe se complementavam. Tudo parecia ir bem, até que um dia, não foi mais. Quarta-feira passada, mais precisamente.

Helinho entrou em casa, sentou diante da TV desligada e declarou:

– De hoje em diante, vou judicializar tudo por aqui.

Roberta e as meninas estavam jogando Among Us.

Não entenderam que era com elas.

Na verdade, acharam que Helinho — advogado — estava falando com algum cliente ao celular. Helinho insistiu.

– Vocês escutaram? A coisa por aqui vai mudar. A partir de hoje vou judicializar essa família.

As três interromperam o jogo e olharam uma para a outra sem entender.

– Tá maluco? — Roberta perguntou, voltando ao jogo.

Numa casa com três mulheres, todo mundo sabe que o marido não manda nada, mesmo que ele saiba usar a lei a seu favor

– Não. Não estou.

– O que é judicalizar? — perguntou Lorena sem tirar os olhos do celular.

– Não é judicalizar. É judicializar — explicou Amanda.

Ocorre que Helinho foi criado para mandar, sabe como é?

Aquela coisa machista, do pai ser o chefe da família e tal.

Mas numa casa com três mulheres, todo mundo sabe que marido não manda é nada. Ainda mais quando se tratam de mulheres empoderadas como Roberta e Lorena.

Então, de uns tempos para cá a opinião de Helinho não valia nem um tostão. Verdade que, pela felicidade da família, ele aceitava resignado as ordens femininas.

Mas aquilo estava remoendo seu íntimo.

Foi quando, na última quarta voltando para casa escutando o noticiário, Helinho teve uma epifania.



Se o presidente Trump podia judicializar o resultado das eleições americanas, ele poderia muito bem fazer o mesmo em sua casa.

Ainda mais porque era advogado dos bons. Aí sim elas iam aprender quem é que manda.

As três, sem entender e achando que era só mais uma maluquice do Helinho, não contestaram. E ele entendeu que quem cala consente. Naquela noite, Roberta, na cama, lembrou ao marido:

– Helinho, no sábado vê se arruma aquele vazamento na pia da cozinha. Helinho não respondeu.

No dia seguinte, um oficial da justiça apareceu no escritório da mulher e entregou uma notificação segundo a qual, qualquer solicitação de reparo na casa deveria ser informada com 3 semanas de antecedência. Na mesma noite, assim que entrou em casa, Lorena veio correndo com um papel na mão.

– Mãe! Olha isso! Um moço entregou para mim na escola. Eu mostrei pra minha professora e ela disse que o papai não vai mais me pagar mesada! Paguei o maior mico na frente da classe, mãe! Para Amanda, Helinho suspendeu todos os privilégios até segunda ordem. Roberta, com a calma de quem tem a situação sobre controle disse:
– Deixem comigo.

E combinou a estratégia. Naquela noite, Helinho chegou assobiando o hino do Flamengo, para disfarçar a tensão.
Mas as três eram só sorrisos.

Roberta preparou o prato preferido do marido e serviu um vinho que os dois tinham guardado para ocasiões especiais.

Helinho nem notou quando a mulher colocou na bebida um potente sonífero.

Ou melhor, só percebeu no dia seguinte.

Quando levantou para escovar os dentes, aterrorizado viu sua imagem no espelho.

Ao invés dos cabelos castanhos cacheados, Helinho ostentava uma vasta cabeleira loira, penteado com uma enorme franja igualzinha a do Trump.

No sábado, o vazamento estava arrumado.

E ninguém falou mais do assunto.

Judicializar, afinal, é para poucos.


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Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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