Artes Visuais

O museu é a escola; e o acervo, a estrela

MAM-SP festeja 70 anos com mostra pedagógica e inquieta que reflete sobre o desafio de se manter contemporâneo

Crédito: Divulgação

PILARES Interior e detalhe do jardim do Museu de Arte Moderna de São Paulo: a mostra que festeja os 70 anos de fundação busca alinhar a instituição com a atualidade (Crédito: Divulgação)

MAM 70: MAM e MAC USP/ Museu de Arte Moderna de São Paulo/ até 16/12

Na semana em que o Brasil perdeu para sempre o acervo do Museu Nacional, o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) inaugurou mostra comemorativa de 70 anos, colocando em destaque uma seleção de 103 obras representativas de sua coleção de mais 5 mil obras. Fundado em 1948 com as coleções do casal de mecenas Yolanda Penteado e Ciccillo Matarazzo, o MAM-SP teve em 1963 sua coleção integralmente doada à Universidade de São Paulo, dando origem ao Museu de Arte Contemporânea (MAC USP). A relação umbilical entre as duas instituições é, portanto, a força motriz desta curadoria partilhada entre Felipe Chaimovich (MAM SP), Ana Magalhães e Helouise Costa (MAC USP).

“A exposição apresenta os pilares sólidos e relevantes que possibilitaram que, nesses 70 anos, o museu ultrapassasse várias etapas e contribuísse para a constituição de outras instituições”, diz Chaimovich. Apenas três anos após sua formação, o MAM criou a Bienal de São Paulo, que é tema da primeira parte da mostra “MAM 70”. Podem ser vistas nesse segmento inaugural da coleção, obras adquiridas por ocasião das premiações das bienais, como “História do Mar” (1952), tela abstrata do italiano Mattia Moreni exposta na 2º Bienal, que dialogava com a Guernica de Picasso.

“O MAM nasce atento à pesquisa de ponta no mundo”, continua Chaimovich. “Ser moderno implica projetar alguma noção de futuro e ter um acervo moderno que no futuro se mantenha relevante é o grande desafio”. A modernidade do museu se afirma logo em sua mostra inaugural. “Do Figurativismo ao Abstracionismo” rompeu paradigmas e colocou no pedestal obras que se tornariam ícones no Brasil. Dessa mostra estão apresentadas obras de Jean Arp, Alexander Calder e Miró.

Obras de Volpi, Cildo Meirelles, Tunga, Mauro Restiffe, Rosana Paulino e Cao Guimarães foram adquiridas através das premiações dos Panoramas da Arte Brasileira, que consolidou a atenção do museu ao colecionismo de arte brasileira. A fotografia expandida — ou “contaminada” por outras mídias —, eixo curatorial assumido pelo professor Tadeu Chiarelli, é outro módulo da exposição, com obras que vão de Thomas Farkas a Hudinilson Jr e Regina Vater, passando por Waldemar Cordeiro. Na fachada, a obra de Luis Camnitzer “O museu é uma escola” (2009-2018) funciona como um título que guia as diretrizes que movem e moveram as atividades do MAM e do MAC USP.

O desafio de se manter contemporâneo é o ultimo segmento da mostra. Aqui dividem cena peças das exposições “Multimedia”, realizada pelo MAC USP em 1976, e “Ecológica”, no MAM em 2010. “O MAC foi pioneiro em refletir sobre e colecionar obras que naquele momento eram jogadas no lixo”, diz Chaimovich. “Em 1976, Walter Zanini (então diretor do MAC) entendia a arte multimídia como algo que se transformava durante o período da exposição: obras que transcendem o espaço do museu, que vão para além de seu espaço físico e incorporam o tempo”.

Em homenagem ao conceito multimídia de Zanini, Chaimovich encerra a mostra dos 70 anos do MAM com uma obra em transformação, que ultrapassa os limites físicos do museu e aponta para o futuro. “Expediente”, de Paulo Bruscky, idealizada em 1978, mas executada somente em 2005 no MAM, desconstrói a ideia do museu como lugar sagrado, arranjado por mãos invisíveis que nunca são vistas nas salas de exibição. Bruscky mostra que um museu é feito de gente que trabalha todos os dias ao colocar um funcionário exercendo suas funções profissionais no espaço expositivo. Na nova montagem, “Expediente” convida o jardineiro do MAM a guardar ali suas ferramentas de trabalho. “A obra é um compromisso com a ecologia desvinculado do puro preservacionismo, pois pensa as relações de trabalho e a economia. “Ser moderno é assumir riscos”, afirma Chaimovich.

CENAS São Paulo nos anos 1950 em fotos de German Lorca: documentos

Roteiros

Lorca: 70 anos em um instante fotográfico
GERMAN LORCA: MOSAICO DO TEMPO, 70 ANOS DE FOTOGRAFIA Itaú Cultural, SP/ até 4/11

Além do MAM SP, outra “instituição” comemora sete décadas de trabalho. German Lorca é considerado pelo crítico Rubens Fernandes Junior “uma das poucas unanimidades da fotografia brasileira”. Aos 96 anos, o fotógrafo, que foi a personalidade homenageada na SP-Arte/Foto 2018, tem sua trajetória revisitada em 150 imagens reunidas no Itaú Cultural. A exposição expressa a atividade heterogênea de Lorca, desde sua atuação no Foto Cineclube Bandeirante e sua experimentação com a estética modernista até a fotografia comercial.

A exposição cumpre a importante função de homenagear a história de um artista vivo. Revela de que forma o trabalho com geometrias, sombras e solarizações se espraia por várias fases de trabalho — das imagens que tecem uma crônica da vida cotidiana da cidade de São Paulo nos anos 1950, até as referências a estéticas vanguardistas, como em “Le Diable au Corps” (1949) e em “Mondrian” (1960).

A exposição situa Lorca como um pioneiro da fotografia publicitária no país. Trabalhos dos anos 1960 como os anúncios para o Mappin e para a Ford Aero-Willys, com Tonia Carreiro e Maria Della Costa, no entanto, funcionam muito mais como documentos históricos do que como experimentações de linguagem. Seu grande projeto de “geometria das sombras” não contamina o território da publicidade. PA