Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais
AUSTRÁLIA Sheila Aguiar usa máscara só no ônibus ou no Uber: bares, restaurantes e praias abertos em Vitória (Crédito:Divulgação)

A vida fora do Brasil nunca pareceu tão boa. Seja onde for, na Europa, na Ásia ou na América do Norte, o clima de apreensão e medo que acompanha a pandemia está se desvanecendo. Bares estão sendo reabertos, máscaras já não são obrigatórias nas ruas e uma parte expressiva da população recebeu a vacina. Há uma sensação de alivio e de segurança que não se vê por aqui. Brasileiros que estão espalhados pelo mundo sentem que correm menos risco de morte do que se estivessem no Brasil e olham para a situação de seus parentes e amigos no País com preocupação. Muitos deles, embora jovens, estão sendo vacinados e assistindo, empolgados, a reabertura lenta e gradual do comércio e dos teatros e casas de espetáculos. Experiências bem-sucedidas com shows-teste em Barcelona, na Espanha, ou em Liverpool, na Inglaterra, mostraram que a taxa de contágio nas duas cidades despencou após a imunização em massa e os encontros coletivos começam a se tornar mais seguros. Nos países cujos governos seguem a ciência e levam a sério as medidas de controle da pandemia, as restrições contra o coronavírus começam a ser suspensas.

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NOVA ZELANDIA Marina Baptista (à esq.) confraterniza com amigas em restaurante em Auckland: segurança (Crédito:Divulgação)

Que o diga o fotógrafo Fabiano Cerchiari, 51 anos, que chegou, em novembro, na cidade do Porto, em Portugal, com os dois filhos de 8 e 10 anos, e comemora sua iniciativa: mudar de país foi a decisão mais acertada que tomou. “Quando cheguei, Portugal estava em semi-confinamento, mas desde abril a situação vem se normalizando”, diz. “Fui a um churrasco domingo com skatistas e surfistas e eu era o único brasileiro. Não havia ninguém de máscara. Era gente de alto nível econômico que assume que a pandemia já passou”, diz Cerchiari. “Há vários dias não há mortes em Portugal”. Diferentemente do que acontece no Brasil, o fotógrafo não percebe qualquer politização da pandemia ou o fortalecimento de posições negacionistas entre os portugueses. “O que percebo é que existe uma euforia depois do pânico que houve com a alta do contágio em janeiro”, conta.

Morando há um ano nos Estados Unidos, em Orlando (Flórida), onde faz curso de inglês, a estudante Leticia Vasconcelos, de 25 anos, comemora o recebimento das duas doses da vacina da Pfizer e também a abertura dos bares e dos parques temáticos da cidade, que já funcionam com 75% de capacidade. “Por aqui estão sobrando vacinas e você pode escolher a marca do imunizante e onde quer tomá-lo”. Letícia, por exemplo, foi vacinada na biblioteca pública. “Em Orlando não há filas para vacinação, tudo anda rápido, as informações são claras e não há o caos que se vê no Brasil”, afirma. “Infelizmente, enquanto minha avó de 67 anos espera a segunda dose, eu já tomei as duas”. Letícia percebe que a vida realmente está voltando ao normal e que o pesadelo está chegando ao fim. Na Inglaterra, a faxineira Joelma Canivezo, que tem passaporte italiano e mora no país com as três filhas, também sente os efeitos da abertura. Desde abril, as lojas onde ela vive, nas redondezas de Londres, estão abertas e seu neto voltou para a escola, onde faz dois testes de Covid-19 por semana. Joelma tomou a primeira dose da vacina da AstraZeneca no dia 18 de abril e tomará a segunda dose em 4 de julho.

Diego Oliveira mora com a família em Nova Jersey, ao lado de Nova York, nos Estados Unidos, e, até perder o emprego, trabalhava na construção civil, mas agora é motorista de aplicativo. A esposa Gisele de Oliveira fica com os filhos de dois e seis anos em casa. Ela conta que a escola e a creche estão funcionando, mas como o ano letivo acaba em junho, foi dada a possibilidade de “homeschooling”. “Pelo menos 90% dos professores foram vacinados e em setembro vou colocar o menor na creche”, diz. “As pessoas vão em bares e restaurantes e ainda usam máscaras. Mas vejo que as coisas estão voltando ao normal. Os estádios já recebem torcedores e tudo caminha para a abertura completa.”

AGLOMERAÇÃO Show teste em Liverpool, na Inglaterra, reuniu 5 mil pessoas: público sem máscara e baixa taxa de contágio (Crédito:Divulgação)

Para a recepcionista Sheila Aguiar, que mora em Vitória, na Austrália, a vida segue normal. Mas as coisas demoraram para chegar a esse nível. No começo da pandemia, foram doze semanas de lockdown, reabertura, reaparecimento de casos e novo fechamento. No entanto, agora ela sai sem máscara e em seu celular há um sistema de QR Code que ela precisa mostrar quando vai a um bar, balada ou restaurante. Isso facilita na hora do rastreamento. Caso alguém nesses lugares apresente um teste positivo, por exemplo, é possível verificar todos os que tiveram contato com a pessoa contaminada. “Usamos máscara só no transporte público ou no Uber. Bares, restaurantes e praias funcionam normalmente”, diz ela. Sheila trabalha em um prédio comercial onde há um número máximo de pessoas que pode frequentar o ambiente. Talvez o caso mais radical de vida pós-pandemia venha da Nova Zelândia, elogiada mundialmente por seus esforços em controlar o vírus, com um lockdown completo já nos primeiros dias após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado a pandemia. A coordenadora de marketing Marina Baptista diz que bares e restaurantes funcionam normalmente em Auckland desde abril do ano passado. “Sem distanciamento, sem máscara, sem checar a temperatura. Eu nunca chequei minha temperatura para ser honesta”, diz. Lá o governo monitora a gravidade de contágio através de níveis, sendo o nível 4 o mais grave, que exige completo isolamento e saídas apenas em caso de necessidade. As máscaras são exigidas no transporte público, assim como na vizinha Austrália, mas Marina diz que nunca chegou a usar.

“Ainda não fui a restaurantes, mas já voltei a frequentar o McDonald’s e circular sem máscara” Joelma Canivezo, faxineira, trabalha na Inglaterra (Crédito:Divulgação)

Em Liverpool, quase 5 mil pessoas se divertiram, domingo, 2, sem máscara ou distanciamento em um festival de música organizado no Sefton Park, primeiro evento autorizado após o confinamento. O objetivo foi testar medidas de segurança que serão implementadas a partir de 21 de junho. Em Barcelona também houve um show no Palau Sant Jordi, em 27 de março, para cinco mil pessoas que testaram negativo para a Covid-19 antes do evento. Nos 14 dias após o show, foram registrados seis casos positivos. Um dos países que despontam na liderança em vacinação e prevenção da pandemia é Israel. Com mais de 60% de sua população vacinada, o país adotou o chamado “Passaporte Verde”, que deve ser apresentado pela população ao frequentar baladas, festas e restaurantes. O produtor e músico brasileiro Daniel Ring está sempre com o seu passaporte que confirma a dupla vacinação e há semanas já não usa máscara. “Sou músico, diretor da orquestra da Universidade de Tel Aviv e tenho contato com muitas pessoas. Vemos máscaras em pessoas que optaram por não serem vacinadas”, diz. Ele explica que ainda é um pouco confusa a situação em relação àqueles que não foram imunizados por opção própria. Mas, de um modo geral, as coisas estão voltando ao normal.