Internacional

O mundo sem diálogo

A eleição americana denuncia o fim da globalização e o início de uma nova geração de líderes, com credenciais retrógradas

O mundo sem diálogo

Será a China o próximo bastião da globalização mundial? Por mais surpreendente que o questionamento pareça, a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos abriu justamente essa possibilidade. O temor daqui para frente é que ele seja não somente o maior, mas também o primeiro de uma próxima geração de líderes a jogar na lata de lixo da história os preceitos que marcaram o planeta desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Movimentos parecidos já são vistos em outras potências como a França, onde a radical nacionalista Marine Le Pen é favorita para o pleito presidencial do ano que vem. Hoje, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), uma das principais instâncias decisórias internacionais, possui apenas a minoria de seus políticos alinhados com os ideais da globalização. Em 2017, com a posse de Trump e a possível vitória de Le Pen, todos os cinco membros do conselho com poder de veto levarão no peito credenciais nacionalistas. Além de Estados Unidos e França, completam o grupo a líder do Brexit Teresa May (Reino Unido), o autoritário e expansionista Vladimir Putin (Rússia) e o chefe ditatorial Xi Jinping (China). “Por incrível que pareça, o que tem compromisso maior com a globalização é o chinês”, diz Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em São Paulo.

Seja como for, o mandatário da China possui preocupações exclusivamente comerciais, que estão longe de cobrir todo o escopo que se espera de uma verdadeira globalização. A crise dos refugiados é o mais visível dos sintomas que não está na lista de prioridades do colosso asiático. E, daqui para frente, o problema provavelmente não estará na pauta de mais ninguém. Só nos Estados Unidos, onde Trump promete expulsar imigrantes e construir um muro na fronteira com o México, são cerca de 12 milhões de pessoas vivendo sem documentos. Entre moradores legais e ilegais, estima-se que cerca de 14% da população tenham nascido fora do país. É uma massa absolutamente necessária para manter a economia americana funcionando. Na Europa, numa jornada perigosa que já matou pelo menos 4 mil pessoas, dia após dias barcos lotados de africanos e refugiados do Oriente Médio (vindos principalmente de Síria, Iraque e Afeganistão) embocam no Mediterrâneo. Pelo menos 1 milhão já pediram asilo em 2015, dos quais somente 290 mil foram aceitos. Mas o número ainda pode piorar, pois a maior parte da ajuda vem da Alemanha, onde o partido de extrema direita AFD cresce consistentemente nas pesquisas de opinião desde 2015.

Fator econômico

Pode não parecer, mas o protecionismo econômico defendido pelos novos líderes também pode custar vidas. Muitos dos principais acadêmicos do mundo acreditam que a abertura de fronteiras comerciais leva a paz às nações envolvidas. Isso porque as trocas comerciais fazem aumentar o custo de entrar em conflitos com parceiros dos quais se depende economicamente. Não obstante, as compras e vendas globais, que no ano passado estavam no patamar dos US$ 16 trilhões, em 2016 crescerão no ritmo mais lento desde a crise internacional de 2008. Além de bloquear produtos e custar vidas, o fenômeno ainda impede o desenvolvimento. Das 100 maiores empresas dos Estados Unidos, metade foi aberta por imigrantes ou seus filhos. O país se firmou como a maior potência mundial por conseguir atrair e integrar novas ondas de estrangeiros. O próprio Trump é neto de alemães que cruzaram o Atlântico e se estabeleceram em Nova York. Até mesmo o Brasil viu um intenso desenvolvimento e dinamização depois da chegada não só da mão de obra, mas também das ideias de locais como Itália e Japão na virada do século 20. “Se Trump cumprir o que prometeu vai haver um aumento da onda protecionista por um bom tempo”, afirma Rubens Penha Cisny, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV.

O presidente eleito também disse que vai diminuir a importância de blocos chave da organização mundial atual, como o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla em inglês). Deu a entender, até mesmo, que escantearia a ONU, que ele acusa de jamais fazer nada de prático. Uma das maiores apostas dos Estados Unidos hoje, o Acordo Transpacífico, que facilita relações de troca entre doze países, pode nunca sair do papel na administração do empresário. Um dos pilares do chamado Ocidente, a ameaça à aliança militar Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pode oferecer as maiores consequências. A Otan nada mais é do que a promessa de proteção mútua em caso de ataques a qualquer um dos membros. De acordo com o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Carlos Gustavo Poggio Teixeira, caso o presidente russo Vladimir Putin decida invadir pequenos países como a Letônia e a Lituânia e mesmo assim Trump não fizer nada, o movimento pode dar início a uma nova ordem global. “Na prática, será o fim da Otan”, diz.

A globalização é um fenômeno cujo princípio não possui data precisa. Pode-se voltar muitos séculos no passado em busca de sinais de uma integração crescente entre nações. Desde o fim da 2ª Guerra, porém, o processo se intensificou. Nos mais recentes surtos isolacionistas da potência americana, justamente nos anos que antecederam os dois conflitos mundiais, as consequências foram nefastas. Agora, os especialistas não sabem ao certo como lidar com o problema, já que é a própria população quem está escolhendo os caminhos. “Trump e Brexit não acontecem em dois países quaisquer, mas nas duas democracias mais maduras do mundo”, afirma Stuenkel. “Se aconteceu lá pode acontecer em qualquer outro lugar.”

Fotos: Frank Franklin II/AP Photo; Sergei Karpukhin/Pool photo via AP; Charles Platiau / Reuters

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