Brasil

O mundo paralelo da direita

Parler, a Nova Rede Social, atrai a FamÍlia Bolsonaro e seus aliados extremistas com a promessa de liberdade para odiar e destilar preconceitos

Crédito: Reprodução Instagram

“O objetivo da plataforma Parler é libertar as pessoas da política de censura no mundo todo” - John Matze, fundador do Parler (Crédito: Reprodução Instagram)


MIGRAÇÃO Em ação coordenada, a família Bolsonaro aderiu em peso à rede social (Crédito:Dida Sampaio)

Uma ilha de conservadores, uma caixa de ressonância de extremismos, um lugar onde se pode destilar o ódio sem qualquer freio. É esse o espírito que move a rede Parler, que acaba de ganhar a adesão do presidente Jair Bolsonaro e de seus filhos, assim como de vários aliados do governo, entre eles o guru Olavo de Carvalho, o blogueiro Allan dos Santos e a ativista Sara Winter. Os extremistas se reúnem por lá com a esperança de estar acima da lei e poder falar o que vier à cabeça sem serem questionados. É como se fosse um mundo paralelo dos radicais. A plataforma promete liberdade ilimitada para expressar preconceitos e atacar minorias. Apologia ao racismo, incentivo à violência contra o Supremo Tribunal Federal (STF), negação da ciência, questionamento sobre a necessidade de preservação da natureza, ataques virulentos a pensamentos que não sejam de direita e, é claro, apoio irrestrito aos presidentes Bolsonaro e Donald Trump dão o tom das postagens no Parler.

Poderia ser apenas uma coincidência, mas o Parler tem crescido justamente no momento em que o mundo se volta para um controle maior do conteúdo publicado nas redes mais tradicionais, como o Facebook, o Twitter e o Instagram. Recentemente, as maiores empresas do planeta passaram a cobrar medidas éticas de controle dos conteúdos nas mídias sociais. As consequências no Brasil foram imediatas e dezenas de páginas ligadas a propagadores de ódio associados com Bolsonaro foram retiradas do ar. O Parler tem alguns limites: veta pornografia, chantagem, abuso de animais, falsidade ideológica e ameaças de agressão. No entanto, postagens agressivas ao STF são encontradas na rede. “Qualquer rede social está submetida às leis do país onde está. Não é possível esse mundo sem lei que o Parler preconiza”, diz o advogado especialista em crimes digitais Newton Dias. “Mais cedo ou mais tarde eles terão que se adequar”. Enquanto isso não ocorre, uma sucessão de postagens bizarras numa prometida terra sem lei dá o tom ao retrocesso civilizatório.

Sem controle

Criado, em 2018, por John Matze, o Parler promete ser uma rede social que não restringe a liberdade de expressão. Matze é um desenvolvedor de softwares de 27 anos que criou sua plataforma vislumbrando uma rede sem controles. Em entrevista ao blogueiro bolsonarista Allan Santos, terça-feira 14, ele disse que tem o objetivo de “libertar as pessoas da política de censura no mundo todo”. Ele diz que o que pode ser dito nas ruas, pode ser dito no Parler. Mas as liberdades que ele prega estão ligadas à defesa das armas, à possibilidade de expressões racistas e, principalmente, aos ataques à opinião alheia, tudo sem filtro. O sistema Parler é lento, provavelmente, porque ele não estava preparado para um crescimento rápido no número de inscritos. No Brasil, foram feitos 33 mil downloads do aplicativo no mês de junho no Google Store. No mundo, o total de pessoas cadastradas no Parler é de 13 milhões, um número inexpressivo se comparado com o Facebook (2,2 bilhões) ou com o Youtube (1,9 bilhão). O microblog é parecido com o Twitter, mas com postagens de até 1.000 caracteres. Seus recursos são limitados e não permitem que se marquem pessoas ou se registre a localização do usuário.

O deputado Eduardo Bolsonaro foi o primeiro da família a aderir ao Parler. Logo depois, no dia 1º de julho, seus irmãos, o senador Flávio e o vereador Carlos, e seu pai se juntaram à rede. Desde então, a adesão de conservadores brasileiros só aumenta. Mesmo assim, a grande dificuldade na plataforma é conseguir estabelecer um diálogo. Quem entra no Parler quer falar com pessoas de pensamento similar: é a extrema direita falando para a extrema direita. O próprio Matze, já detectou esse problema e anunciou, nos EUA, o pagamento de US$ 20 mil para personalidades da esquerda com mais de 50 mil seguidores no Twitter, a se instalarem na plataforma. A estratégia ainda não prosperou. E pelo jeito não deve prosperar. Espera-se que o submundo direitista e pasmacento que sustenta a plataforma perca o fôlego.

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