O moedor de ética

Segundo o historiador Marco Antonio Villa, de quem tenho a honra de ser colega aqui na ISTOÉ, esta é a mais importante CPI deste século.

Eu, que sou apenas um cronista, arrisco dizer que essa é a mais importante CPI da história do Brasil.

Se as anteriores trataram de questões estruturais, fraudes, corrupção, desvios de função e desgovernos essa é a CPI da morte.
Mortes anunciadas, consequência direta dos atos de todo o governo, não apenas do presidente.

Dezenas de ministros, militares, políticos, assessores, empresas públicas e privadas se transformaram em atores ativos de decisões equivocadas.

Alertado pelo então ministro Mandetta sobre as atitudes profiláticas necessárias para enfrentar a pandemia, o presidente optou por uma posição negacionista por conveniência e não necessariamente por crença.

Optou pela prioridade que escolheu.

E aqui, exatamente aqui, reside o mal original de Bolsonaro.

Ao final da CPI cada brasileiro terá sua última chance de compreender por que 600 mil pessoas morreram na pandemia

Um mal que, imagino, vem de sua formação militar.

Nosso presidente é, intrinsecamente, como todo militar mal formado um hierarquista contumaz.

Maus militares veem a hierarquização como um fim e não como um meio.

E com a limitação mental dos maniqueístas, Bolsonaro divide a vida, o mundo, o governo em castas estanques, inertes.
A pirâmide de prioridades do presidente tem no topo sua família. Logo abaixo estão seus amigos e aliados, seguidos pelos militares, sejam das forças armadas ou polícias. Em seguida vêm seus eleitores, depois todos aqueles que não são petistas.

Finalmente, na base da pirâmide, estão as mulheres, os LGBTIAQ+, os pretos, os pobres, a classe artística, e os comunistas que, para o presidente, é a etiqueta genérica de todos aqueles que o contrariam.

A base dessa pirâmide se constitui numa espécie de magma cujas necessidades devem ser ignoradas.

Uma pirâmide que reflete unicamente a hierarquia de valores éticos do presidente.

Não existe negacionismo. Não existe ideologia. Existe apenas sua pirâmide hierárquica.

Em seu governo, essa pirâmide traz a Economia no topo.

É sobre isso, em última análise, que trata essa CPI: a autópsia da pirâmide de Bolsonaro e suas consequências.

Para isso, um grupo foi fagocitado pela nova ética imposta pelo gabinete do ódio, pelo Ministério paralelo e pelo presidente e sua família.

Quem não concorda, é expelido sumariamente.

Mas compreender e comprovar essa sequência de ações é muito mais complexo do que colecionar provas físicas de corrupção, como nas CPIs anteriores.

O componente de subjetividade do que foi revelado talvez explique porque a população nunca se rebelou, mesmo à custa da morte de milhares de brasileiros.

Além disso, a postura midiática do presidente Omar Azis foi neutralizada pela falta de carisma do relator Renan Calheiros e, assim, a CPI não contaminou a população.

Dia 18, a CPI vai concluir inevitavelmente que não houve um plano deliberado, como na Alemanha nazista para exterminar uma parcela da população.

O que houve foi a contaminação desses valores éticos do presidente em todos os níveis, e até de uma parcela da população, na velocidade da luz, posta em prática pelos amigos do rei, que como consequência, criou o genocídio que assistimos atônitos.
Dia 18 esperamos que esse processo seja didaticamente explicado.

Se assim não for, será porque também a CPI foi digerida por esse novo ethos que governa o País.
De qualquer forma, essa será a última chance que teremos para compreender do que foi capaz esta estrutura de poder a que nos submetemos.

E quem não compreender será visto pela História como conivente.

Simples assim.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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