Comportamento

O misterioso navio alemão

Pesquisadores cearenses acreditam que carga de borracha crua encontrada em praias do Nordeste veio do SS Rio Grande, embarcação afundada no Atlântico Sul durante a Segunda Guerra

Crédito: Reprodução

INIMIGO O SS Rio Grande foi bombardeado entre a cidade de Natal e a Ilha de Ascensão, vindo do Oriente e indo para o Norte: carga de estanho, cobre e cobalto (Crédito: Reprodução)

Uma descoberta de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), que localizaram antigos fardos de borracha em várias praias nordestinas, chamou a atenção para uma história esquecida: o naufrágio do navio alemão SS Rio Grande em 1944, no final da Segunda Guerra Mundial. O nome latino servia apenas para disfarçar o navio diante das frotas aliadas, que durante os conflitos abatiam qualquer embarcação suspeita de pertencer às forças de Adolf Hitler. O SS Rio Grande foi construído em 1939 e transportava cargas como borracha crua embalada e diversos metais: 500 toneladas de estanho, 2.370 de cobre e 311 de cobalto. Quando foi flagrado por embarcações americanas, estava entre a cidade de Natal e a Ilha da Ascensão, vindo do Oriente e indo para o Norte. Tentou fugir, mas em vão. No dia 4 de janeiro afundou no Atlântico Sul devido ao ataque do contratorpedeiro USS Jouett e do cruzador USS Omaha. Uma pessoa morreu e 71 sobreviveram.

TESOURO O oceanógrafo Carlos Teixeira observa fardo de borracha encontrado em praia com a inscrição “Made in French Indochina” (Crédito:Reprodução)

Desde então o navio permanece em uma região extremamente profunda no mar: a 5.700 metros da superfície. O SS Rio Grande é a embarcação em maior profundidade já visitada na história. Para se ter ideia, o Titanic está a pouco mais de 3 mil metros de profundidade. Em 1996, o navio foi encontrado por um mini submarino ROV da empresa inglesa Blue Water Recoveries, comandada pelo cientista marinho e oceanógrafo David Mearns. Na ocasião, ele descobriu que o navio estava partido em dois e o registrou em fotografias. Apesar de escrever livros sobre outros naufrágios e fazer documentários sobre o tema, o SS Rio Grande não recebeu muita atenção.

Na semana passada, no entanto, o assunto veio à tona quando uma equipe do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC, composta pelos professores Carlos Teixeira, especialista em oceanografia física, Luís Ernesto Bezerra, biólogo, e Rivelino Cavalcanti, químico, resolveu desvendar o mistério. Os fardos de borracha já haviam sido avistados em outubro do ano passado, em vários pontos do litoral, do norte da Bahia a São Luís. “Por coincidência, o óleo que foi avistado agora em setembro desse ano, no litoral do Nordeste, estava distribuído na mesma região dos fardos. Por causa disso, começamos a ir atrás de sua origem”, diz Carlos Teixeira. Nessa “caça ao tesouro” científico, os pesquisadores perceberam que há nos objetos de borracha a inscrição “Made in French Indochina”. A partir dessa informação, foi possível concluir que eles foram confeccionados antes de 1954, ano em que a Indochina Francesa conquistou a independência e se desdobrou em outras nações, desaparecendo. Sendo assim, os cientistas concluíram que o produto só pode ter origem em um antigo naufrágio.

Simulações matemáticas

Por meio de uma pesquisa na internet, eles descobriram em um site internacional com dados sobre o SS Rio Grande que ele carregava fardos de borracha com a mesma inscrição. Além disso, Teixeira realizou simulações matemáticas, a partir da velocidade e da direção das correntes marinhas desde o ano de seu naufrágio, e concluiu que é uma hipótese plausível o deslocamento da carga do local do seu afundamento até a costa nordestina. “Depois disso, mandei um email para o David, trocamos muitas informações e concluímos que definitivamente a carga é um fardo da II Guerra Mundial. Há possibilidade de pertencer a outros navios naufragados, e não apenas ao SS Rio Grande”, diz.

A 5,7 mil metros da superfície, o SS Rio Grande é o navio em maior
profundidade já visitado na história. O Titanic está a pouco
mais de 3 mil metros

Há centenas de naufrágios dessa época entre o Brasil e a África. Agora os pesquisadores desejam descobrir por que ela se deslocou do barco, do fundo à superfície do mar e chegou até a costa. “Ou houve um terremoto ou há pessoas mexendo nisso. Hoje existem empresas que procuram materiais valiosos para vender”, diz ele. O objetivo da equipe é produzir um artigo científico sobre o tema para entender melhor o mistério do SS Rio Grande.

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