Brasil

O mestre da informação

O jornalista Ricardo Boechat se converteu em uma unanimidade nacional e deixa um legado às novas gerações

Crédito: Frederic Jean

Todas as manhãs, invariavelmente, em frente a Bandeirantes, antes de iniciar suas participações na rádio, Ricardo Boechat sentava-se no chão, espalhava os jornais do dia e com café à mão lia avidamente as notícias. Era o seu momento pessoal como ardoroso caçador dos fatos. Sua vocação. Seu ofício. (Crédito: Frederic Jean)

Todas as manhãs, invariavelmente, antes de entrar no ar pela rádio BandNews FM, Ricardo Boechat cumpria uma liturgia. Acomodava-se defronte à emissora, próximo ao estacionamento, esparramava os jornais no chão e os devorava avidamente. Começava a exercer ali a sua vocação. O ofício como operário da notícia. Daquele momento único, íntimo e pessoal, Boechat partia para a faina diária fornido das primeiras informações do dia. Mas aquela era apenas uma das etapas do trabalho do jornalista. Antes mesmo de alcançar os microfones, e tocar a emoção do público, seja com suas críticas cortantes, ou mesmo com tiradas irreverentes, Boechat como um exímio caçador de informações dedicava-se à apuração da notícia. O relógio jogava contra, mas acionar sua rede de fontes era para ele primordial. Não foram raras as vezes em que técnicos e companheiros de estúdio seguraram o início do programa matinal para aguardá-lo. Boechat valia cada minuto de espera. Afinal, havia notícias e notícias, ambas de naturezas distintas: a transmitida e comentada por Boechat e a irradiada sem a eloquência e a galhardia dele. Um abismo qualitativo as separava. Foi no afogadilho do caminho para os estúdios que um dia o jornalista comentou com colegas a sua predileção por um clássico do cinema: “O homem que matou o facínora”, direção de John Ford. A obra trata da formação da democracia nos EUA, do nascimento dos colégios eleitorais, da imprensa livre e de uma sociedade regida por leis, não pelas armas. A história se passa no vilarejo de Shinbone, onde o editor de um pequeno jornal ensinava: “quando a lenda se torna fato, publique-se a lenda”. O filme não é um elogio à mentira. Pelo contrário: é tecido com os fios da verdade. Com fina ironia, ele derruba as notícias falsas que ajudaram a eleger e glorificar um senador. Boechat compreendeu o leve cinismo do filme. Guardou para si. Se é que a mentira se torna um fato quando é insistentemente repetida, como dizia Winston Churchill, ela, hoje popularizada como fake news, não pode, jamais e em tempo algum, ganhar eco. Publique-se o fato. Sempre! Divulga-se a verdade. Era esse o mais poderoso antídoto de Boechat contra a má informação: a verdade. E foi assim, assentado em fatos e no jornalismo-verdade, que Boechat pautou sua fulgurante e estrepitosa carreira.

HOMENAGEM Nas redações da Band, aplausos e lágrimas pelo companheiro: agora é trabalhar com a alma dolorida (Crédito:Divulgação)

No dia-a-dia, Boechat seguia à risca a máxima cunhada pelo jornalista americano do século XIX, Finley Peter Dunne. Para ele, o exercício cotidiano do jornalismo consiste sobretudo em “confortar os aflitos e afligir os confortáveis” – ou seja, expor as

GRANDEZA DE ESPÍRITO O sorriso, uma de suas eternas marcas, traduzia alegria e generosidade (Crédito:ANDRE LESSA/ISTOE.)

agruras do homem comum e as trapaças dos poderosos. Por isso, Ricardo Boechat exercia o jornalismo como poucos – e era admirado por muitos. Sempre próximo do pulsar das ruas, a quem elegeu como ente supremo, o jornalista era capaz de traduzir com perfeição a voz difusa do cidadão. Era como se houvesse um Boechat em cada esquina e recanto do País. Rouco de indignação – para não dizer revolta – com as mazelas nacionais. Não por acaso, ouvintes e leitores se sentiam representados por ele. Desde o seu falecimento, na segunda-feira 11, aos 66 anos, em São Paulo, num trágico acidente de helicóptero, é como se estivessem órfãos. Vinha ele da cidade paulista de Campinas onde ministrara uma de suas inumeráveis palestras. O helicóptero apresentou problemas e tentou pousar na rodovia Anhanguera, junto ao Rodoanel. Espatifou-se contra um caminhão. O helicóptero explodiu. E, lamentavelmente, virou ele a notícia. Notícia fúnebre. E o Brasil se enlutou em meio à atmosfera de comoção nacional.

Em um País em que as elites, sobretudo a política, prefere fantasiar a lenda para brincar de verdade, Boechat deixa um legado de jornalismo rigoroso, independente e, acima de tudo, vigilante. Por mais de uma década, o jornalista enriqueceu semanalmente as edições de ISTOÉ com suas duas páginas de notas (estreou em abril de 2008) – na verdade, uma dupla que valia por diversas seções de jornais ou revistas, tal a diversidade de assuntos e temas. E, a cada nota, não importando quantas fossem, sempre havia o sabor da exclusividade, aquilo que na linguagem jornalística convencionou chamar-se de “furo”. Boechat era o furo de reportagem em notas. Desde que pisou na primeira redação, aos dezessete anos, o jovem nascido em Buenos Aires já propugnava pela boa informação. No “Diário de Notícias” onde conheceu o melhor colunista da época, Ibrahim Sued, testemunhou o profissional em minúsculas notas deixar comendo poeira todos os jornalistas da área. A partir da escola Sued, um atento Boechat se aprimorou. Já, então, era inquieto e ansioso por informação rigorosamente checada. Até lista de aprovados em vestibular ele dava em primeira mão após conferir mil vezes nome por nome.


Cioso da saudável apuração sem fim, Boechat ostentava “calo na orelha”, conforme brincavam os colegas. Não à toa, brilhou na ISTOÉ, em “O Globo”, onde começou na “Coluna do Swann”, no “Jornal do Brasil”, em “O Dia”, no SBT e em “O Estado de S. Paulo”. “Ele fará uma falta incomensurável porque essa alma de repórter, com esse jeito corajoso de enfrentar as coisas e ainda conseguir manter o bom humor, são características únicas”, diz João Carlos Saad, presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação. O humor ao qual Saad se refere está cravejado no coração e na mente de todos aqueles que conviveram com Boechat. Ele sabia que notícia deve ser transmitida num misto de razão e emoção e que o espírito cômico jamais deve estar situado na trincheira oposta a do jornalismo. A indignação com que muitas vezes comentava um fato político, a revolta que exibia um Boechat não raro cáustico, muitas vezes colérico, era translúcida, por franca na essência. Em seus comentários, Boechat era duro, porém leal. Mesmo quando dele discordavam, demonstrava discernimento intelectual para conviver com a diferença de pontos de vista. Do outro lado, o leitor e o ouvinte se sentiam personificados. Era como se ele estivesse lá no lugar do jornalista. Com desabrida coragem, chamava as coisas pelo nome, sem recorrer a eufemismos. Seu léxico era o mesmo do brasileiro no bar, no trânsito, nas ruas, becos e esquinas. Brigava muito, mas sem perder de vista a ternura. Dono de uma alma plácida como o azul dos seus olhos, perdeu-se a conta do número de vezes nas quais bronqueava no ar e, logo em seguida, estava a desenhar nuvens, elefantes e estrelas na bancada.

De espírito polimático, Boechat mantinha fértil produção intelectual, na qual transitava com igual desenvoltura e inteligência refinada da crítica de cultura ao comentário político. Apesar de acima da média, o jornalista cultivava a humildade. Anos atrás, circulou o rumor de que ele mantinha uma cama no camarim da Band, tamanha a sua estatura. Puro folclore. Com uma rotina frenética, Ricardo Boechat apenas descansava em um sofá acomodado nos estúdios da emissora no Morumbi. Entre sua casa e a emissora, Boechat locomovia-se a bordo de um carro popular: um Twingo, ano 2001. “Tenho um fetiche pelo Twingo. Acho um despropósito ter um carro enorme, que gaste muito”. Boechat nunca foi de palácios, nem de planaltos. Preferia a planície.

Um dos segredos do seu sucesso era mesmo a simplicidade com que ele chegava à casa das pessoas. Quem nunca soltou uma gostosa gargalhada ao ouvir Boechat, bom sujeito não é. Sua indefectível irreverência era tão marcante que parecia transbordar pelos seus poros. Certa feita, para criticar uma notícia sobre a cura da calvície apresentou-se no ar exibindo uma peruca. Em outra ocasião, quando revistas científicas afirmaram que a tecnologia substituiria a figura humana, colocou um robô para apresentar em seu lugar. Boechat esmerava-se para aproximar o transmissor do receptor da notícia. No ar, ambos se entrelaçavam indissoluvelmente, como se fossem um só. Se a voz do povo é a voz de Deus, o timbre de Boechat carregava algo de etéreo, de divino.

Costumava chamar a sua mulher, Veruska (com quem teve duas filhas, ao todo seis), de “Doce Veruska”. Na verdade, doce era ele. “Dizia-se ateu. Mas nunca vi um ateu ajudar tanto os outros e professar tantos valores cristãos”, atesta ela. “Ele ensinava sem a pretensão de ensinar. Era generoso por natureza”, afirma a apresentadora Milena Machado. Generosidade que manteve mesmo ganhando três prêmios Esso e batendo o recorde de homenagens do prêmio Comunique-se. Eis um exemplo radical de sua solidariedade. Em maio de 2015, a jornalista e crítica de cinema Ieda Marcondes perdeu um dia de trabalho porque seu vôo havia atrasado. Por acaso, no mesmo avião, estava acomodado na primeira fileira Ricardo Boechat. Como a empresa onde trabalhava pedira uma declaração oficial da companhia, sem sucesso, Ieda solicitou ajuda num email transmitido a Boechat. Os dois não se conheciam. Num gesto incomum para alguém do seu tamanho, Boechat dirigiu-se pessoalmente ao local de trabalho da jornalista, conversou com sua chefe e aplainou a situação.

Com seu carisma, conquistou tantos admiradores Brasil afora que foi capaz de receber honrarias raras. Como ter emprestado seu nome a uma orquídea graças a uma homenagem de um fiel leitor e criador da espécie de uso ornamental. No ano passado, em email, o jornalista dividiu com o autor do tributo um momento de alegria desfrutado ao lado da família no Dia dos Pais – o último de Ricardo Boechat. “Quero compartilhar a alegria que vivi neste Dia dos Pais. Elas (minhas filhas pequenas) queriam saber ‘como é ser famoso’ – e fiquei ‘tirando onda’ com a cara das duas ‘me gabando’ do sucesso midiático. Pura gozação do velho repórter, é claro, que elas saboreavam repetindo ‘que mico!’, ‘que mico!’. A certa altura, disse-lhes que era ‘tão famoso’ que tinha virado nome de orquídea!!!”.

O Nobel de Literatura Ivo Andric, integrante do estoicismo, escola do amor fati — o “amor pelo destino”, costumava dizer: “O que pode ser mas nem sempre deve sê-lo, ao final se rende ao que precisa ser”. Se há algum sentido até naquilo que não parece fazer nexo, nesse momento em que o jornalismo profissional está sob ataque – derivado de todos os espectros políticos – num bombardeio sem precedentes na vida nacional, talvez Boechat precisasse se despedir precocemente para cumprir mais uma nobre função: a de reforçar o papel primordial e indispensável da imprensa livre. “Toca o barco” …

Ele teve a quem puxar
A indignação de Boechat diante de injustiças e da desigualdade social foi herdada de sua mãe

“Se todos fossem como ele, o Brasil seria melhor. Ele sempre foi simples, era solidário e sem preconceitos” Mercedes Carrascal, mãe de Boechat (Crédito:TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO)

Basta conversar com a mãe de Ricardo Boechat, a argentina Mercedes Carrascal, 87 anos, para descobrir de onde veio no DNA do filho a garra na luta pela cidadania. E também o seu bom humor. Certa vez viu-se impedida de visitar o marido, preso no Rio de Janeiro pela ditadura militar (integrava o Partido Comunista Brasileiro). Pois ela ficou bordando nas dependências da cadeia, não arredou pé, venceu pela teimosia.

O tempo passou. Já separada e com 41 anos, cursou as faculdades de Assistência Social e Biblioteconomia. A seguir, seu depoimento à Istoé.

“O Ricardo puxou a mim: eu fico indignada diante de uma injustiça.Tenho muito orgulho do homem que foi meu filho, honesto e correto. Ser apresentador e famoso, isso não conta nada. Ele sempre foi simples, se dava com todo mundo, de todas as classes sociais. Era solidário e sem preconceitos. Cuidava das pessoas quando elas precisavam de ajuda. Se todos fossem como ele, o Brasil seria melhor. O Brasil garante muitos direitos, mas só para alguns. A Justiça tem de ser cega, mas não é. Ela tem de ser igualitária, ao pobre, ao rico, às pessoas de qualquer religião e cor. Eu estou vendo cada coisa no Brasil, no fim da minha vida, que dá vontade de bater e sair gritando. Isso tem de mudar. O povo merece respeito”.

Colaboraram André Vargas, Luisa Purchio e Eduardo F. Filho

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