Cultura

O menino-prodígio do suspense

Por que Joël Dicker se tornou um dos autores policiais mais festejados, com tramas intrincadas e reviravoltas que surpreendem em um gênero considerado rígido

Crédito: JOEL SAGET

CONSAGRADO O escritor suíço Joël Dicker, que ganhou o prêmio Goncourt aos 27 anos, praticando um gênero considerado menor: referências ao romance americano (Crédito: JOEL SAGET)

Se o leitor retirar os crimes dos 66 romances de detetive da inglesa Agatha Christie, ainda restaria uma boa história ou a narrativa se desmantelaria? Talvez ela não se sustentasse como literatura, pois a decifração de crimes compõe o núcleo de sua obra. Superar o estágio “enigmático” da história policial e convertê-la em obra de arte respeitável foi o desafio que se impôs o escritor suíço Joël Dicker. Ele se tornou um dos mestres do crime com três romances de suspense que conquistaram milhões de leitores e arrebataram os prêmios mais proeminentes da língua francesa. Ele dá a receita do êxito, que segue a senda contrária à de autores policiais tradicionais como Agatha Christie. “Mesmo que Christie seja uma verdadeira autora de mistérios, eu não me vejo desta maneira”, afirma Dicker à ISTOÉ. “Apesar de escrever histórias de detetives, prefiro pensar que, nos meus livros, se o crime fosse removido, ainda assim restaria uma história.” A ficção criminal contém regras tão fixas que se torna quase impossível lhe impor inovações. Por isso, a meta de Dicker — e da nova geração de escritores do gênero — tem sido provocar espanto, sem ferir a tradição.

Tiros e fofocas

Dicker realiza a façanha como poucos porque mistura mistérios a referências ao alto romance moderno. Nasceu em 1985 em Genebra, onde vive, formou-se em Direito e se casou. Na adolescência, morou em pequenas cidades nos Estados Unidos, cujos detalhes conta tão bem em seus livros. Em 2012, publicou seu primeiro romance: “Os últimos dias dos nossos pais”. Trata-se de um romance histórico que transcorre na Segunda Guerra Mundial e se baseia em eventos reais. É um enredo e um local diferentes daqueles dos romances que publicaria depois.

“Acabei encontrando inspiração nas cidades que conheci na Costa Leste dos EUA”, diz. “Eu devo admitir que cidadezinhas americanas me sugerem o palco ideal para um crime. Mais que as cidades grandes, as cidades menores guardam muitos segredos, relacionamentos dúbios, ciúmes e mexericos. O que faço é menos um maneirismo que um recurso. As cidades nas minhas histórias são também personagens.” Ele afirma que seria complicado ambientar enredos em Genebra. “É tudo muito perto para mim! Mas talvez em outras regiões linguísticas da Suíça, um país onde você dirige por 300 quilômetros e se depara com outra língua e cultura.”

Dicker tinha 27 anos em 2012 quando ganhou o prêmio Goncourt e o Grand Prix du Roman da Academia Francesa com “A verdade sobre o caso Harry Quebert”. O romance gira em torno de um assassinato que ocorreu em New Hampshire 30 anos antes dos eventos que reúnem dois escritores amigos, ambos suspeitos de plágio. O livro bateu o best-seller “Inferno”, de Dan Brown nas listas de mais vendidos. Mas o que chamou a atenção da Academia Francesa e da crítica foi o subtexto culto do enredo, com ecos da novela “A marca humana”, de Philip Roth. Ele seguiu o esquema em “O Livro dos Baltimore”, lançado em 1985. Superficialmente, trata-se da maldição que aterroriza um clã e intriga um de seus membros, o escritor Marcus Goldman, narrador de “Harry Quebert”. No fundo, porém, Dicker recria a busca de Simon Levov pela redenção familiar, do romance “Pastoral americana”, de Philip Roth.

Seu novo romance, “O Desaparecimento de Stephanie Mailer”, lançado em 2018 e agora no Brasil pela editora Intrínseca, propõe novamente uma decifração rasa e outra sub-reptícia. Ele envolve uma série de crimes violentos a serem resolvidos como citações e evocações de histórias não-policiais. Em julho de 1994, na cidade litorânea de Orphea, uma chacina perturba a estreia do festival de teatro municipal: o prefeito Joseph Gordon, a mulher e o filho são abatidos a tiros, assim como Meghan Padalin, balconista da livraria, que corria ali perto.

Pistas reais

O crime permanece insolúvel e só vinte anos depois a jornalista Stephanie Mailer tenta solucioná-lo. O antigo delegado, Kirk Harvey, torna-se diretor de teatro. Harvey promete que a montagem da peça “Noite negra” revelará o assassino. Nesse meio tempo, crimes são cometidos. A missão dos policiais Jesse Rosenberg e Anna Kanner é descobrir e encontrar quem matou. Cada um deles escreve sua versão do enigma. Joël Dicker propõe ao leitor a tarefa árdua de adivinhar o criminoso, pois tem de lidar com pistas embaralhadas e reviravoltas impensáveis. Enfrentará enigmas ainda maiores para desvendar de que fontes literárias Dicker extraiu a estrutura do seu romance. Fornece uma pista: “Mais do que Agatha Christie, gosto de Romain Gary e Marguerite Yourcenar e Jack London. Compartilho com London o amor pelos animais.” Ele não menciona Philip Roth, mas parece ter lido o romance “The Humbling”, sobre um homem de teatro que, como o ex-delegado Kirk Harvey, descobre ter perdido o talento. Mas, quando se trata de revelar o seu método de escritura, Dicker não dá o braço a torcer. “As histórias são fruto da minha imaginação”, afirma. Desde as primeiras páginas, o leitor logo deduz que não se trata só de fantasia e mistério.