Internacional

O massacre dos inocentes

Executado com o grau máximo de crueldade, o pior atentado em mais de uma década na Inglaterra vitima crianças e adolescentes — e revela que a nova face do terror pertence a jovens que adotam o radicalismo por vingança

Crédito: Divulgação

O sorriso radiante de Saffie Rose Roussos, de apenas oito anos, tinha um motivo: pela primeira vez, ela assistira ao show da cantora pop americana Ariana Grande, em Manchester, na Inglaterra. Como outras garotas de sua idade, Saffie estava acompanhada da mãe, Lisa, e da irmã, Ashlee. O entusiasmo da menina que tinha a vida toda pela frente foi brutalmente interrompido às 22h30 da segunda-feira 22.

Duas explosões causaram a morte de 22 pessoas, a maioria crianças e adolescentes. Outras 64 ficaram feridas. Considerado um atentado terrorista pela polícia britânica, foi o mais violento no país desde julho de 2005, quando explosivos detonados em três estações de metrô de Londres mataram 56 pessoas e deixaram mais de 700 feridos.

VÍTIMAS A estudante Georgina Callander, 18 anos, que postou foto com a cantora Ariana Grande (à dir.), e Saffie Rousso, 8: ambas esperavam com ansiedade para assistir ao show
VÍTIMAS A estudante Georgina Callander, 18 anos, que postou foto com a cantora Ariana Grande (à dir.), e Saffie Rousso, 8: ambas esperavam com ansiedade para assistir ao show (Crédito:Reprodução)

Embora com menos vítimas, o ataque em Manchester levou o terror ao grau máximo de crueldade ao mirar um público específico. “Eles escolhem esse alvo para mostrar que nem mesmo crianças inocentes serão poupadas da dor”, diz Héctor Luis Saint-Pierre, diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp e membro do Grupo de Estudo de Defesa de Segurança Internacional (Gedes).

O rosto de Saffie, lembrado por professores como o de uma menina cheia de vida, havia sido perfurado por fragmentos de pregos que explodiram com a bomba.

Em instantes, a alegria do público que lotava a Arena Manchester deu lugar a gritos de desespero e correria. Onde antes havia bexigas cor-de-rosa, pairou uma atmosfera de tensão. A música foi substituída pelas sirenes dos carros de polícia. Pais recorreram às redes sociais para localizar os filhos desaparecidos. Táxis ofereciam corridas gratuitas para socorrer adolescentes que caminhavam com dificuldade após terem sido atingidos por estilhaços. Horas após o tumulto, a mãe e a irmã da garota foram encontradas em diferentes hospitais com ferimentos por todo o corpo.

AUTORIA Nascido em Manchester, Salman Abedi, 22 anos, apontado pela polícia britânica como o responsável pelo ataque. Oito suspeitos de envolvimento foram detidos
AUTORIA Nascido em Manchester, Salman Abedi, 22 anos, apontado pela polícia britânica como o responsável pelo ataque. Oito suspeitos de envolvimento foram detidos (Crédito:Divulgação)

Por trás de ataques assim há um objetivo macabro: instaurar o medo entre os civis para que países da Europa desistam da política intervencionista que adotam ao lado dos Estados Unidos em países como a Síria.

“A mensagem que eles tentam passar é clara: da mesma forma que vocês matam as nossas crianças, nós matamos as suas”, diz Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC). “Essa ação marca um retorno planejado às táticas de suicídio, visando um local com alvo vulnerável, e foi orquestrada para causar o máximo dano”, complementa Hamed El-Said, especialista em terrorismo da Universidade de Manchester.

Autoridades inglesas atribuíram o ataque-suicida ao britânico de origem líbia Salman Ramadan Abedi, 22 anos, estudante da Universidade de Salford e do Manchester College. Segundo pessoas próximas, ele tinha uma relação problemática com os familiares. Em 2011, se tornou mais religioso, com comportamentos extremistas, e cortou relações com muitos colegas de classe.

O perfil chama a atenção por fazer parte de um grupo de jovens, filhos ou netos de imigrantes do Oriente Médio, que vêm sendo facilmente cooptados pelo Estado Islâmico, grupo radical que um dia depois do ataque reivindicou sua autoria. “São pessoas que nasceram na Europa e por meio de uma doutrinação pela internet absorvem o sentimento de vingança disseminado pelo EI”, afirma Nasser.

WAHABISMO

De acordo com Fernando Brancoli, especialista em Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indivíduos como Abedi desenvolvem um sentimento de não pertencimento à sociedade em que vivem. “São jovens recém-convertidos ao Islã, que em algum momento adotam práticas radicais”, afirma. Pessoas que cometem atos terroristas, segundo especialistas, pertencem ao wahabismo, uma vertente religiosa do Islã na Arábia Saudita, com viés conservador radical. “Eles buscam a vingança por algo que não vivenciaram”, afirma Brancoli.

As forças de segurança estão convencidas de que Abedi agiu em grupo. Há pelo menos oito suspeitos. Ismael, o irmão mais velho, foi detido no sul de Manchester. O pai, Ramadan, que trabalhou no setor de segurança em Londres, estava em Trípoli, na Líbia, onde foi preso junto com o filho mais novo, Hashen, de 20 anos, por suspeita de ligação com o Estado Islâmico.

SOLIDARIEDADE A praça Saint Ann, em Manchester, que atraiu centenas de pessoas com mensagens, cartazes e flores em homenagem às vítimas do ataque.
SOLIDARIEDADE A praça Saint Ann, em Manchester, que atraiu centenas de pessoas com mensagens, cartazes e flores em homenagem às vítimas do ataque. (Crédito:Jon Super)

O objetivo maior do ataque é mostrar que, apesar de ter perdido forças na Síria e no Iraque, o Estado Islâmico ainda tem fôlego suficiente para orquestrar um ato de extrema violência em uma das nações consideradas mais seguras do mundo. “Eles querem se projetar como uma ameaça iminente para a Europa”, diz Saint-Pierre, do Gedes. Ao que parece, conseguiram. A morte de crianças e adolescentes deixou toda a população em estado de choque. Como reação imediata, a primeira-ministra britânica Theresa May elevou o grau de terrorismo do país de “severo” para “crítico”, o mais alto da escala. Na quinta-feira 25, a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, visitou sobreviventes que permaneciam internadas.

SOLIDARIEDADE Na saída do show (acima), a euforia deu lugar ao terror após uma dupla explosão que deixou dezenas de mortos e feridos
SOLIDARIEDADE Na saída do show (acima), a euforia deu lugar ao terror após uma dupla explosão que deixou dezenas de mortos e feridos (Crédito:Joel Goodman)

Terror na Inglaterra
O atentado é o mais grave desde 2005, quando 52 pessoas foram mortas e 784 ficaram feridas num ataque suicida ao sistema de transportes de Londres

O ataque
Ocorreu por volta das 22h30 (18h30 de Brasília) na saída do show da cantora americana Ariana Grande na Arena Manchester

Vítimas
22 pessoas morreram e 64 ficaram feridas. A explosão foi causada, segundo investigações, por uma bomba que, ao ser detonada, lançou pregos e estilhaços

Suspeitos
8 homens foram detidos pela polícia britânica, entre eles o irmão de Salam Abedi, responsável pelo ataque

Autoria
O Estado Islâmico publicou mensagem reivindicando a autoria do atentado, mas ainda não há confirmações que sustentem a participação do grupo

Segurança
A primeira ministra Theresa May colocou um reforço de mil soldados nas ruas do Reino Unido e elevou o nível de alerta de terrorismo para “crítico”