Comportamento

O massacre de Suzano

Dois jovens matam oito pessoas e ferem onze em um ataque suicida contra uma escola pública e uma locadora. Foi o nono atentado do gênero desde 2002 no Brasil. Este fenômeno precisa ser entendido e sua resposta está nas profundezas da internet

Crédito: Divulgação

REDE SOCIAL Guilherme postou dezenas de imagens antes de atacar. Em algumas estava armado e com a máscara que usou (Crédito: Divulgação)

Eu falei: ‘Corre!’ Ele ficou parado. Tomou dois tiros e caiu. Peguei meu irmão e corri”. Assim um dos sobreviventes do ataque na Escola Estadual Raul Brasil, na cidade paulista de Suzano, descreveu como o colega Claiton Antônio Ribeiro, de 17 anos, foi assassinado na manhã de quarta-feira 13, na hora do recreio. Ele foi uma das oito vítimas fatais de Guilherme Taucci Monteiro, de 17 anos, e Luiz Henrique de Castro, de 25 anos. Tudo começou pouco antes, quando balearam Jorge Antônio Moraes, tio de Guilherme, antes de fugirem com um carro de sua locadora. Acuados na escola com a chegada da polícia, cometeram suicídio. Onze pessoas ficaram feridas — dez estão mortas. 

De início, estudantes, professores e vizinhos acharam que eram apenas bombinhas juninas fora de época. Em instantes, perceberam que estavam em perigo diante dos rapazes, que invadiram o local com a intenção de matar o maior número de pessoas possível. Guilherme atirava com um revólver em quem passasse pela frente, enquanto Luiz Henrique alternava golpes com uma machadinha e lançava dardos com uma besta. Na mochila, ele carregava coquetéis molotov – que não foram usados. O ataque demorou cerca de 20 minutos.

Fóruns digitais obscuros fomentam um caldo que alimenta o rancor e a rejeição de garotos e jovens contra colegas e figuras de autoridade

Além do choque e da consternação, houve questionamentos imediatos por parte de autoridades e comentaristas sobre a segurança nas escolas, a proposta de flexibilização do porte de armas e os videogames violentos. Só que esses não são os pontos centrais. A escola fica próxima de um quartel da polícia. Nos horários de entrada e saída, viaturas fazem rondas, já que filhos de PMs estudam ali. A arma usada era de calibre permitido para civis. E milhões de brasileiros matam monstros, nazistas e zumbis em jogos eletrônicos sem virar homicidas.

DESESPERO Bombeiros transportam feridos no ataque na escola Raul Brasil (Crédito:Divulgação)

Para auxiliar os parentes dos estudantes e das funcionárias mortas, o governador João Doria determinou, na quinta-feira 14, o pagamento de uma indenização de R$ 100 mil. O que não ajudou foi a polícia classificar inicialmente o ataque como aleatório. A raiz desse crime — assim como outros similares ocorridos no Brasil e exterior — está na internet, onde fóruns obscuros engrossam um caldo de ódio que se vale dos sentimentos de rancor e rejeição de garotos e jovens, fomentando neles reações de vingança, racismo e misoginia contra colegas e figuras de autoridade. Luiz Henrique tinha amigos, trabalhava com jardinagem e levava uma rotina insuspeita. Já Guilherme tinha problemas familiares e posturas de extrema direita. Em comum, a amizade e o jeito calado de ser de ambos.

Guilherme e Luiz Henrique haviam sido alunos da escola Raul Brasil. Com problemas de relacionamento com os colegas, Guilherme largou os estudos há dois anos, mas informou que pretendia se rematricular. Foi assim que conseguiu chegar ao saguão de entrada, onde baleou a coordenadora Marilena Ferreira Umezu, a funcionária Eliana Regina de Oliveira Xavier e uma aluna, antes de ir para os corredores usando uma máscara de caveira atrás de novas vítimas. Antes de segui-lo, seu cúmplice golpeou as mulheres com a machadinha. Naquele momento, cerca de 400 alunos do ensino médio estavam no local. Um grupo foi encurralado no pátio. Os que escaparam, aproveitaram o momento em que Guilherme foi recarregar a arma. Além dos que pularam os muros ou conseguiram passar pelos portões, alguns encontraram refúgio na casa da advogada Juliana Romera, que mora na rua atrás da escola. Ela só trancou o portão ao ver um dos criminosos sair por alguns instantes.

Estudantes choram pela morte de seus parentes e colegas: o trauma de um assassinato em série (Crédito:Divulgação)

Enquanto isso, cerca de trinta jovens permaneceram escondidos deitados na cantina, onde a merendeira Silmara Cristina de Moraes montou uma barricada com geladeira e freezer. Outro grupo se trancou no Centro de Línguas com uma professora. Um aluno, José Vitor Ramos Lemos, estava sentado quando foi atingido por Luiz Henrique. A machadinha ficou cravada em seu braço. Ele foi caminhando até um hospital próximo, onde foi operado. Mesmo usando um só revólver, a quantidade de vítimas foi alta graças ao uso de jet loaders, que permitem o recarregamento rápido. A política encontrou pelo menos quatro desses dispositivos no chão. A arma usada era um calibre 38 com a numeração raspada.

 

Incitação ao Ódio

As razões para o ataque não estão claras. Seria mais fácil acreditar que se tratou de um dia fúria de mentes atormentadas, mas houve premeditação e incitação ao ódio em comunidades de internet. Uma busca por perfis de redes sociais e comunidades virtuais relevou que Guilherme e Luiz Henrique pediram dicas no fórum Dogolachan, onde a prática de crimes violentos e violações são comuns. O fórum foi criado pela hacker Marcelo Valle Silveira Mello, o primeiro brasileiro condenado por racismo na internet.

Eles buscaram informações sobre como fazer o ataque e obter armas. Luiz Henrique postou um agradecimento. “Partiremos como heróis”, escreveu, agradecendo a alguém que considera mentor. “Depois estaremos diante de Deus com nossas 7 virgens”, postou. Após o atentado, alguns usuários do fórum lamentaram que o número de vítimas não superou o da escola de Realengo, no Rio. O ataque em Suzano foi o nono em escolas brasileiras desde 2002 e só perdeu em vítimas para o de Realengo, em 2011, quando doze crianças foram mortas e treze ficaram feridas. O autor, Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, ex-aluno, deixou uma carta com informações desconexas. Baleado pela polícia, cometeu suicídio. Seu modo de agir foi parecido com o da dupla de Suzano.

Colaborou Fernando Lavieri

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