Internacional

O mar por testemunha

O submarino argentino ARA San Juan desaparece no oceano com 44 pessoas a bordo, causando intensa comoção em todo o mundo

Crédito: AFP photo / Argentine Navy

PROCURA As equipes de busca não haviam achado qualquer sinal do navio (Crédito: AFP photo / Argentine Navy)

Numa repetição macabra do drama que há 17 anos vitimou 118 tripulantes do submarino nuclear russo Kursk, condenados à morte no fundo do mar, 44 marinheiros argentinos da embarcação ARA (Armada da República Argentina) San Juan se perderam nas proximidades da costa da Patagônia e viram seu prazo fatal se esgotar por falta de oxigênio, comida e itens básicos, sem chances de localização em um mar que chega a uma profundidade de 200 metros.

O ambiente dentro do submarino é claustrofóbico. O espaço é exíguo. As ferragens e equipamentos não deixam lugar para itens de conforto. Navegar nessas embarcações requer um preparo físico e psicológico acima da média. Mas a sensação de ser condenado a morte ali tende a ser um desespero sem fim. O que salta aos olhos em casos assim é como aparelhos desse porte, com o alto grau de tecnologia e dentro das atuais condições de mapeamento possível pelas bases terrestres, possam simplesmente se perder em alto mar.

Condições adversas

Quatorze países se envolveram na busca. A Inglaterra, inclusive, que chegou a entrar em guerra contra a Argentina há algumas décadas pela disputa do território das Malvinas. E nem assim, com tamanho aparato de nações envolvidas, a busca foi bem-sucedida. Até a sexta-feira 24, as forças envolvidas no resgate não tinham localizado a embarcação.

O San Juan saiu de Ushuaia, no sul da Argentina, na segunda-feira 13, e seguia em direção à base naval de Mar del Plata, onde deveria chegar na segunda 20. A última comunicação ocorreu na quarta-feira 15. Ele subiu à superfície, relatando problemas. Depois, sumiu. As buscas começaram em seguida, mas diversos sinais falsos foram captados. Na quinta 23, a Marinha argentina confirmou que um som de explosão foi registrado logo após a última comunicação. A declaração minou as esperanças em resgatar os tripulantes com vida. Foi um golpe duro para os familiares, que já reclamavam da falta de transparência do governo argentino. Até o momento, eles têm recebido o apoio de pessoas do mundo inteiro – incluindo os 33 mineiros chilenos que ficaram presos durante 69 dias na mina de Copiapó, em 2010.

 

TECNOLOGIA A embarcação não era detectada por outros navios. No destaque, Eliana Krawczyk, primeira mulher oficial de submarino na Argentina (Crédito:AFP photo / Argentine Navy)

A Marinha afirmou que “não descarta nada” e que continuará as buscas. As dificuldades, no entanto, são muitas. Os submarinos são projetados para evitar sua detecção. Fabricado pela Thyssen Nordseewerke, empresa alemã, e colocado em operação em 1985, o San Juan logo participou de um exercício militar e passou por uma frota americana sem ser detectado, mostrando sua eficácia para operações secretas. Agora, as equipes de resgate ainda tiveram outros problemas. As condições climáticas prejudicaram o trabalho. Além disso, se o San Juan estivesse sem sua capacidade de propulsão, ele estava à deriva no fundo do mar, sujeito às ondas. Por fim, a única maneira de os tripulantes pedirem socorro seria batendo no casco. Sons facilmente perdidos em meio a todo o barulho da vida marinha.

Entre os 44 tripulantes a bordo do San Juan estava Eliana Krawczyk, 35 anos, primeira mulher a ocupar um cargo de oficial em um submarino na Argentina. Vinda de uma província distante do mar, entrou na marinha em 2004 e queria se tornar comandante. Entre os homens sob o comando do capitão Pedro Martín Fernández estava também Hernán Rodríguez, engenheiro que trabalhava havia onze anos no San Juan.

As histórias dos oficias argentinos fazem lembrar de outra tragédia, a que envolveu o submarino russo Kursk. Durante um exercício naval, uma explosão afundou a embarcação. Após horas de busca ele foi localizado, mas as equipes de resgate demoraram dias para conseguir entrar no submarino. O mundo acompanhou os esforços, mas todos os 118 tripulantes haviam morrido. Assim como aconteceu com o San Juan, as autoridades russas demoraram para dar respostas satisfatórias às famílias.