Ediçao Da Semana

Nº 2742 - 12/08/22 Leia mais

Sob uma chuva fria de outono, saí às pressas do carro, atravessando a rua, sem qualquer chance de contornar melhor esta chuva miudinha que aqui no Brasil chamam de garoa.

Pulando sobre o riacho gentil entre a rua e a calçada, senti uma pequena dor, apenas sentimental, por estar longe da minha amada primavera europeia, mas logo soube que por lá o clima também não vai de feição a veraneios e descansei meu coração.

Iria encontrar o Pierre André Ruprecht, presidente da SP Leituras, que sabe tudo sobre bibliotecas e sente alegria em juntar pessoas de díspares [diferentes, desiguais] estratos sociais à volta das mesmas coisas; sejam essas edifícios improvisados, torres inúteis mas bonitas, ou simplesmente ideias.

Beleza! Te envio o endereço e nos vemos por lá! Um abraço e ótimo domingo! E o domingo passou-se trabalhando nos 200 livros que agora me ocupam os finais de semana, vendo o sol —que agora desapareceu de novo — escorrer na sombra das horas a partir da janela da minha sala, no meio dos prédios altos, aqui na cidade grande, ao sul.

Tenho um pensamento. O Brasil é grande demais para que possas dizer que já lá foste. Carlos Drummond de Andrade no poema “Hino nacional”, do livro Brejos das Almas — escrito em 1934, no rescaldo da Guerra Paulista — escreve que “Nenhum Brasil existe”; e tem razão! Muitos Brasis existem. Só que nenhum se chama assim.

Mas este Brasil paulistano, diferente de todos os outros por onde viajo – e são todos diferentes — encanta-me mais, e é nele que me sinto em casa. É aqui que melhor consigo achar gente maravilhosa – no sopé dos prédios, no acarajé das gráficas, nas peles morenas, nas cozinhas argentinas e mesmo na gestão quieta de multinacionais dedicadas à mudança, mas onde os seus gestores apenas desejam que nada mude.

Uma hora — bem gasta — em São Paulo equivale a uma semana de Nova Iorque e a um mês inteiro em Lisboa, mas às vezes é muito mais pequena que um segundo na minha casa em Coimbra. Mas só às vezes.

Volto a Drummond de Andrade e me lembro como ele acrescentou uma inquietação ao poema Hino — “Acaso existirão os brasileiros?”

A resposta me chegou, clara, como se a luz de Lisboa se refletisse da esplanada argentina das carnes macias (um bocadinho fria, mas só um pedacinho e por causa da garoa) no rosto iluminado do meu anfitrião suíço que cita filósofos alemães e tem por paixão mudar o mundo.

Nesse momento em que cheguei, como por instinto divino, ele se voltou e viu-me. Me acenou olá. E o universo se reconstruiu de novo com ideal e esperança; e o Pierre André sorriu.