Internacional

O imperador do sol nascente

Pela primeira vez em 200 anos, os japoneses assistem à abdicação de um imperador - sai Akihito, senta-se ao trono seu filho, Naruhito, e o país entra na chamada Era Reiwa, que indica paz e harmonia na sociedade

Crédito: HANDOUT

RITUAL Akihito, ao subir ao trono, em 1989: seu traje representa a glória e a solidez do império japonês (Crédito: HANDOUT)

NOVA ERA Akihito se dirige à cerimônia de abdicação do trono com as vestes cerimoniais (Crédito:HANDOUT)

A imagem acima mostra o imperador japonês Akihito em janeiro de 1989, dia em que ascendeu ao trono, logo depois da morte de seu pai, Hirohito. A roupa é quase idêntica a que vestiu Naruhito, filho e sucessor de Akihito, na cerimônia que o converteu em soberano na semana passada. Também serviu de vestimenta para todos os monarcas que o antecederam. Trata-se de um quimono de gala do estilo “sokutai”, na cor marrom dourado, que se refere ao sol. Apenas o imperador pode usá-lo. O traje é decorado com a fênix chinesa, símbolo da paz que se espera que vigore depois da posse. A mão direita segura um cetro conhecido como “shaku” – acessório cuja solidez demonstra a atenção e o foco da realeza. E na sua cabeça há um chapéu de 60 centímetros, que aponta para o alto e significa a maior glória do monarca. A sociedade japonesa é altamente ritualística e cerimoniosa. E a monarquia, uma de suas instituições inabaláveis. Embora, desde Hirohito, os imperadores tenham perdido o caráter de divindade e o poder político, eles ainda são o símbolo máximo do Estado e da unificação do país. Akihito, pacifista convicto que abdicou do cargo na terça-feira 30, depois de três décadas no poder, foi responsável pela humanização do trono do Crisântemo, flor que simboliza a família real. Espera-se que Naruhito, 59 anos, siga a trilha aberta pelo pai e seja um imperador próximo do povo.

Para honrá-lo, Naruhito, 126º imperador japonês, terá que suar o venerável quimono. De alguma forma, Akihito dessacralizou o cargo e reanimou a instituição. Foi um monarca bastante popular e querido, que viajou muito pelo país e pelo mundo e quebrou algumas tradições imperiais. Diante das grandes tragédias que aconteceram no Japão durante seu reinado, soube demonstrar empatia pelas vítimas e apoiar a recuperação do país com disposição e emoção. No seu trono houve paz, mas também paralisia econômica e desastres naturais, como o terremoto de Kobe, em 1995, e o acidente nuclear de Fukushima, em 2011. Em Fukushima, consolou as pessoas desabrigadas e se ajoelhou diante delas, em uma evidente demonstração de compaixão. Também apertava a mão dos súditos para cumprimentá-los, algo que nenhum imperador anterior ousou fazer.

POPULARIDADE Akihito e Michiko conquistaram seus súditos com simplicidade e empatia (Crédito:Yoichi Hayashi)

Para seu pai, Hirohito, era algo impensável. O povo que deveria se ajoelhar diante dele. Prestar-lhe reverência. Embora os mais conservadores não tenham gostado da atitude de Akihito, a maioria da população se comoveu com a demonstração de humanidade. Sua mulher Michiko Shoda, primeira plebeia a se tornar imperatriz, também é adorada pela população, considerada uma referência de elegância e cultura.

Por isso, a renúncia de Akihito não foi simples – nada o é no Japão. A abdicação, a primeira nos últimos 200 anos do império, que tem 2,6 mil anos, só foi possível por causa de uma mudança na Lei da Casa Imperial para permitir a saída do monarca antes da morte. A mudança da lei, além de ser um reconhecimento de que Akihito não está bem para exercer o cargo, representa um indicador de prestígio. Era incerto que o Parlamento abrisse uma exceção para a renúncia. Mas foi o que acabou ocorrendo. Akihito pediu o direito de abdicar há um ano e meio devido a problemas de saúde – ele tem 85 anos e enfrenta doenças no coração. Passou por uma cirurgia cardíaca em 2012 e fez um tratamento de câncer na próstata. Alegou que não sentia mais condições de se manter no trono e de cumprir seus deveres da melhor forma. Assim foi feito.

Apesar de, oficialmente, os imperadores terem perdido o caráter de divindade, não se pode dizer que a aura divina do monarca japonês tenha desaparecido na prática. As velhas gerações ainda cultuam a imagem do imperador e exibem fotos dele em suas casas. Os mais jovens demonstram respeito. A troca no comando do Estado, por exemplo, envolve diversas cerimônias protocolares e motiva dez dias de feriado, com fechamento de creches, repartições públicas, bancos e empresas. Numa sociedade que exalta o valor do trabalho isso é uma prova de que o deus do sol Amaterasu continua animando o império. Cada imperador inaugura uma nova era, o que aconteceu quarta, 1º de maio. Os nomes das eras refletem o ideal da nação e passam por um rigoroso processo de escolha. Akihito esteve à frente da Era Heisei ou “culminação da paz” e cumpriu os seus desígnios. Seu filho Naruhito inaugura agora a chamada Era Reiwa, ou “harmonia bela”. Por conta disso, o calendário escolar sofre modificações, assim como os documentos oficiais. Para que a liturgia se cumpra, novas moedas também precisam ser cunhadas.

Rendição Humilhante

Hirohito, pai de Akihito e avô de Naruhito, foi o imperador da era Showa (paz e harmonia), a mais longeva da história da monarquia japonesa. O reinado durou 63 anos, entre 1926 e 1989, e indicava um período de prosperidade, mas coincidiu com longos anos de conflitos e guerras, em que o Japão vivia sob uma feroz ditadura militar e estava tomado por um sentimento expansionista. Hirohito foi um imperador belicoso, que apoiou as ofensivas japonesas na Segunda Guerra Mundial. Cumpria a função de chefe de Estado e queria que o império se fortalecesse. No final da guerra, protagonizou uma rendição humilhante para os americanos, que derrubou os brios da nação. Os americanos pouparam sua vida depois da capitulação. Era mais interessante manter o poder simbólico e unificador do monarca do que destruir o sistema político e abrir espaço para o avanço dos comunistas. Em compensação, o fizeram abrir mão da sua divindade e impuseram uma nova Constituição, em 1947, em que o papel do imperador estava definido como sendo “um símbolo do Estado”.

À frente da nova era que se inicia, Naruhito dá sinais de ter um temperamento ameno. Especialista em história medieval japonesa, com forte interesse em transportes aquáticos, ele é um amante da música clássica e gosta de esportes ao ar livre. Assim como Michiko, a nova imperatriz, Masako Owada, também é uma plebeia. Ex-diplomata, estudou em Harvard e Oxford. Naruhito diz que quer aprender com seus antecessores para perpetuar a monarquia japonesa, cuja sobrevivência está ligada ao fato de os monarcas terem perdido poder e se transformado em figuras simbólicas. Por causa disso, não há tanta necessidade de se livrar deles. Diferentemente dos imperadores do passado, porém, para os novos monarcas se tornou fundamental conquistar a simpatia e o carinho do povo para buscar legitimidade. Como se vê, Naruhito tem um importante desafio pela frente.

No tempo dos faraós

Jose Ignacio Soto

Os faraós eram figuras inalcançáveis e enigmáticas, como foram os imperadores japoneses até o reinado de Hirohito. A palavra faraó vem do hebraico e significa “casa elevada”. Eles eram os monarcas do Egito antigo e acumulavam as máximas funções jurídicas, militares e religiosas. Eram líderes supremos. Como os imperadores japoneses do passado, considerados descendentes diretos do deus do sol Amaterasu, os governantes do Egito descendiam do seu próprio deus do sol, Hórus. Segundo a lenda, Hórus governou o Egito e a partir dele se sucedeu uma linhagem suprema cujo sangue continha traços de divindade que tornavam os governantes sagrados. Segundo a tradição, o primeiro faraó do Egito Antigo foi Menes, por volta de 3100 a.C. O último foi Ptolemeu XV, filho de César e de Cleópatra VII, que governou até 30 a.C.