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Entrevista

Thalita Rebouças - escritora

O humor nos faz pensar sem nos darmos conta

Rodrigo Lopes

O humor nos faz pensar sem nos darmos conta

Paula Diniz
Edição 10/08/2018 - nº 2538

Em uma nação onde uma em cada três pessoas jamais comprou um livro, a obra da escritora carioca Thalita Rebouças, de 43 anos, é uma notável exceção. Com 22 livros publicados, todos voltados ao público adolescente, ela já conta com mais de 2,2 milhões de exemplares vendidos. Mais que figurar entre as principais “best-sellers” do Brasil, Thalita é um fenômeno de vendas também no exterior: seus livros foram traduzidos para mais de 20 países e são sucesso absoluto em Portugal. Consagrada, a escritora decidiu diversificar a carreira compondo músicas para novelas e filmes, assinando roteiros para peças de teatro e histórias em quadrinhos, e participando do programa The Voice Kids, da rede Globo. “Poliana hiperativa”, como se autodefine, Thalita tem um trevo de quatro folhas tatuado no pé direito: ela acredita que parte do que conquistou se deve à sorte. Na entrevista a seguir, concedida na véspera de participar da Bienal do Livro, em São Paulo, ela falou de suas influências, de seu público e antecipou novos projetos.

O que veio apresentar na Bienal desse ano em São Paulo?

Apenas o corpinho. O meu novo livro, “Confissões de uma garota popular, linda e (secretamente) infeliz”, só chega nas livrarias em novembro. Não tenho livro novo desde “Confissões de um garoto tímido, nerd e (ligeiramente) apaixonado”, de maio de 2017. Vim autografar os 22 já lançados.

Do que trata o novo livro?

É o caso de uma garota que faz bullying. Quero mostrar porque alguém maltrata os outros. De onde vem essa crueldade? Mergulhar nesse universo está sendo doloroso e prazeroso para mim, além do desafio de contar essa história com humor.

Antes de ser uma autora de sucesso, você trabalhou como jornalista…

Escrevi sobre economia, arquitetura e urbanismo, trabalhei em diversos jornais e revistas. Rodei um pouco até ter coragem de largar tudo e só escrever os meus livros. Aí larguei tudo…

Quando foi isso?

Foi em 2003, mas na verdade, antes disso, eu já havia lançado “Traição entre amigas”, em 2000. E foi dando certo, mesmo em uma editora pequena, só vendendo em feiras. Pensei que se eu investisse, poderia viver só do meu sonho de escrever.

A qual obra atribui seu maior sucesso?

Quando escrevi “Traição entre amigas”, vi que tinha potencial. Mas o grande sucesso veio com o terceiro livro, “Fala sério, mãe” (adaptado para o cinema e lançado em dezembro de 2017). Isso foi em 2004.

Qual o segredo de vender tanto para o público adolescente em um País onde se lê tão pouco?

O humor sempre me instigou, não sei escrever sem ele. O humor faz a gente pensar sem se dar conta de que está pensando. Quando rimos podemos mudar de ideia sem perceber. Fica leve. Mas o principal segredo é o fato de eu tratar o adolescente de igual para igual, com respeito, e não como criança – erro que os adultos cometem, e muito. Não faço social, não passo a mão na cabeça, não sou a tiazona chata, nem a tiazona legal. Não digo o que é certo e errado. Como não tenho filhos, não coloco nas entrelinhas um toque de mãe. E é muito bom ver que ao longo do tempo eles mudam de ideia, evoluem e passam a gostar de leitura.

Por que escreve para adolescentes?

Foram eles que me escolheram. Eu não queria, mas quem gostou do meu primeiro livro, destinado a pessoas de 18 a 25 anos, foi a galera de 11 a 13. Eles me escreviam dizendo “Caraca, obrigado por escrever pra gente, por entender a gente…” E eu pensava: “Ei, eu não entendo vocês, eu não escrevo pra vocês…” Ali descobri que adolescentes e pré-adolescentes estavam muito carentes de se reconhecer nas páginas dos livros. Me dei conta de que era para esse público que eu queria escrever.

Como está o mercado editorial para o público jovem?

Quando comecei quase não havia opções. Tinha muito dos nossos ídolos, Pedro Bandeira, Ana Maria Machado, Lígia Bojunga, Ruth Rocha, que sempre estiveram aí. Mas faltavam autores da minha geração ou mais novos. Hoje tem bastante. Vi o mercado infanto-juvenil virar o segundo mais vendido depois de autoajuda.

Adultos também leem seus livros?

Sim. Muitos leem e acabam se surpreendendo. Recebi e-mail de um homem de 28 anos contando como “Confissões de um garoto” mexeu com ele: “Comprei porque vou com a sua cara e me peguei sem conseguir dormir, lendo um livro de um garoto de 16 anos. Esse livro não é para adolescente.” Adoro escrever para quem gosta de rir e pensar. Para isso não tem idade. Fora do Brasil as pessoas não associam meus livros ao público adolescente.

Então vale a pena escrever no Brasil?

Se eu disser que não vale, vou estar mentindo. Sou a pessoa mais feliz do mundo. Trabalhar com a imaginação é a vida dos meus sonhos, e, além disso, as pessoas me leem! Muitos fatores me ajudaram, inclusive a sorte. Tenho um trevinho tatuado no meu pé direito. Viver de livro nesse país é uma bênção.

Que livros te marcaram na adolescência?

“Feliz Ano Velho”, do Marcelo Rubens Paiva, me reaproximou dos livros na pré-adolescência. Um professor mandou ler. Li, me apaixonei e já disse pessoalmente ao Marcelo o quanto significou para mim. Desde cedo gostei das crônicas do João Ubaldo, Luiz Fernando Veríssimo e Fernando Sabino. Meus pais e minha avó me davam crônicas deles.

Como você vê o brasileiro adolescente atualmente?

São iguais aos de todos os lugares onde estive. Muda muito pouco. Me surpreendi com o sucesso que o “Fala sério, mãe” fez em Portugal, um país bem mais conservador. Visitei escolas e vi as mesmas questões, as mesmas insatisfações, a mesma intensidade, o mesmo drama. Adolescente é adolescente em qualquer lugar e época. O que muda é que hoje, com a internet, eles têm o mundo nas mãos.

Nos últimos meses foram divulgados vários casos de suicídio entre adolescentes no Brasil. O que você pode dizer sobre esse problema, que parece global?

O sucesso de “Thirteen Reasons Why” (série de ficção em que uma garota aponta treze razões que a levaram a cometer suicídio) no mundo inteiro já foi um sinal de alerta. Quem reclama comigo costuma dizer que foi falar com o pai e ele não deu atenção, foi falar com a mãe e ela mandou fazer alguma coisa. Nós, adultos, tendemos a achar que, por serem exagerados e intensos, eles estão só fazendo drama. A única coisa que eu posso dizer é: não ignore o adolescente. A solução é diálogo.

A discussão sobre a descriminalização do aborto chegou ao Supremo Tribunal Federal. Qual a sua posição?

É um tema que precisa ser tratado sempre. Existem diversos métodos contraceptivos e ninguém aborta feliz da vida. Ninguém. Todos precisam saber quão sofrido é para uma mulher fazer um aborto. O que é errado é morrer em mesa de açougueiro. Abortos são feitos há muito tempo. As mais prejudicadas são as que não têm condições de pagar uma boa clínica, recorrem a métodos arriscados e lugares sem estrutura e acabam morrendo. O que for feito para rever e melhorar essa condição tem todo o meu apoio.

Você conserva uma dose de juvenilidade?

Sou muito moleca. Claro que quando tenho que pagar contas, sou uma mulher. Mas quando estou com meu público, viro a menina que sou quando estou escrevendo. Brinco que quando escrevo, sou uma menina de 14 anos.

Para atingir os jovens precisa ter um lado Peter Pan?

Não. Fui saber quem era a Dua Lipa (cantora, compositora e modelo inglesa de origem albanesa) outro dia. Não ouço músicas nem assisto a filmes de adolescentes, a não ser por trabalho. O segredo de escrever para os adolescentes é tratá-los com respeito e não dar lição de moral.

Como estão as vendas nos outros países onde seus livros foram traduzidos?

Bem, principalmente em Portugal. Lá tenho 10 livros traduzidos e o “Fala sério, mãe” está em sua quarta edição. Publico em mais de 20 países. Na América do Sul e América Central são quatro livros traduzidos. Agora quero publicar em mais países da Europa.

Você acompanha as traduções?

Sim. Aprendi Espanhol para acompanhar.

Como ingressou no meio musical?

Música é uma boa maneira de contar histórias. Namoro um músico que é produtor musical e publicitário, Daniel Lopes, meu principal parceiro na música. Fizemos o clipe do filme “Fala sério, mãe”, que estreou em dezembro de 2017, dirigido pelo Pedro Vasconcelos. A música é cantada pelas atrizes Larissa Manoela e Ingrid Guimarães e resume filme. Também criei todas as músicas da minha peça “Fala sério, gente”, produzida pela Cláudia Raia e pelo Daniel, além da trilha sonora de “As Aventuras de Poliana”, novela do SBT, também com o Daniel. E tenho outras parcerias em vista para projetos futuros.

Como consegue trabalhar em tantos meios: literatura, músicas para novelas e filmes, roteiros para peças de teatro, quadrinhos e o “The Voice Kids”?

Sou hiperativa. Gosto de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Mas com exceção do The Voice Kids, onde sou apresentadora, tudo o que faço está relacionado à criatividade e escrita.

Você tem outros projetos?

A peça “Fala sério, gente”, baseada em meu livro e dirigida por Claudia Raia, deve estrear no fim do ano no Rio de Janeiro e seguir turnê nacional em 2019. Em outubro estréia o filme “Tudo por um pop star”, meu primeiro roteiro assinado, adaptado do meu livro. O clipe do filme estará em breve na internet. O livro “Confissões de uma garota popular, linda e (secretamente) infeliz” será lançado em novembro. Em janeiro vamos rodar o filme “Ela disse, ele disse”, com roteiro e música meus, ainda sem previsão de lançamento. E minha terceira temporada no “The Voice Kids” vai ao ar em janeiro.

 


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