Edição nº2555 07/12 Ver edições anteriores

Entrevista

Vanessa Neumann

O Hezbollah pode dominar o PCC

Marco Ankosqui

O Hezbollah pode dominar o PCC

Por André Vargas
Edição 07/12/2018 - nº 2555

Nascida na Venezuela e criada nos Estados Unidos, Vanessa Neumann, consultora de risco especializada em comércio ilícito, analisa e aponta soluções contra um dos males mais insidiosos da economia global: a conexão entre contrabandistas de produtos falsificados e grupos terroristas. Neumann esteve no Brasil para lançar seu livro “Lucros de Sangue”, da editora Matrix, em que mostra como o cidadão comum financia atentados e guerras civis ao consumir drogas e comprar bens de procedência duvidosa. A edição brasileira de seu livro conta com um capítulo dedicado às operações ilegais na Tríplice Fronteira, onde o grupo terrorista Hezbollah age sem ser incomodado. O comércio ilegal na região soma até US$ 43 bilhões ao ano, afirma Neumann. Em um hotel na Avenida Paulista, a menos de uma quadra da banca de vendedor de produtos falsificados mais próxima, ela falou sobre as conexões entre as ditaduras da Venezuela e da Síria e a negligência brasileira diante do crescimento da facção criminosa PCC.

A senhora afirma que cigarros contrabandeados e produtos falsificados ajudam a financiar o terrorismo. Como chegou a essa conclusão?

Os grupos terroristas se especializaram em contrabando e tráfico de drogas. Tenho estudado o Hezbollah [grupo xiita libanês] na América Latina e suas relações com as Farc [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia] e os chavistas. Viajei ao Líbano para entender como funcionam seus mecanismos de financiamento e suas ligações com a Venezuela. Também me deparei com operações em outras partes da América Latina. Outro assunto que acompanho é o contrabando de cigarros, que também tem a participação do Hezbollah na Zona de Maicao, entre Colômbia e Venezuela, e na Tríplice Fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai.

De que maneira o cigarro financia o terrorismo?

As primeiras rotas de contrabando surgiram no Oeste da África. Uma vez aberto o caminho, também passam por ali seres humanos, armas e drogas. É um dinâmica que se repete e tem a ver com a logística que acaba por financiar o terrorismo. Na Tríplice Fronteira há forte presença do Hezbollah, que contrabandeia cigarros graças a Horacio Cartes [ex-presidente paraguaio e magnata do tabaco investigado por lavagem de dinheiro]. A atividade lhes dá uma fonte de financiamento operada com competência. Daí, quando se deseja movimentar produtos ilegais, há gente que possui casas de câmbio, esquemas de lavagem de dinheiro e transporte não só até o porto de Santos, mas até a África, o Oriente Médio e a Espanha. As agências de segurança apontam que eles atuam como uma empresa internacional de entregas expressas, como Fedex e UPS.

O combate ao terrorismo foi a inspiração para o seu livro, “Lucros de Sangue”?

O cidadão comum não se dá conta do sangue que está derramando a financiar o terrorismo. O dinheiro do contrabando é usado para a compra desde armas para defender o ditador Bashar Assad, na Síria, até promover ações em outras parte do mundo por meio de um sistema corrupto que envolve as polícias, os políticos e as aduanas.

Qual o papel da China e dos países do Oriente Médio na rede mundial de produtos falsificados?

A China é o grande produtor de produtos falsificados. Vimos no Aeroporto Internacional Guaraní, em Assunção, que a cada semana chegam dois aviões, um da China e outro de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, trazendo itens que não passam por nenhum controle. O que chega logo é distribuído para as lojas de Ciudad del Este. Tanto que lá os letreiros das lojas estão em árabe e chinês, além de espanhol. Ali funciona um miniestado para o crime organizado de todas as partes do mundo. Os chineses trazem os produtos e levam o dinheiro. Já de Dubai não sei o que trazem os aviões. Acredita-se que seja ouro ou dinheiro, de acordo com sua experiência no Oriente Médio. Perto de Dubai está a Zona de Livre Comércio de Jebel Ali, onde traficantes e grupos terroristas financiados por entidades da Árabia Saudita e do Irã atuam, enviando recursos e produtos para a América do Sul. A lavagem de dinheiro na Tríplice Fronteira é como uma árvore com ramificações que servem para diferentes grupos. E a China, que tem uma porção importante de sua economia voltada para o tráfico de produtos, se aproveita desse ambiente. O que preocupa é que esse sistema na Tríplice Fronteira é muito estável, funcionando perfeitamente.

Qual o tamanho do comércio ilegal e de drogas na fronteira com o Brasil?

O tamanho do comércio de drogas não é conhecido. Os números mais recentes do comércio ilegal apontam para 35 bilhões de dólares. Alguns analistas falam em 43 bilhões. Ou seja, é um dinheiro que os governos e a iniciativa privada dos três países nunca viram.

Além do Hezbbollah, a Al Qaeda e o Estado Islâmico também atuam no Brasil?

É sabido desde os anos 1990 que a Al Qaeda se beneficiava do tráfico de drogas e de tabaco. Naquela época eles estavam mais ativos. Não vejo por que mudariam.

A negligência dos governos brasileiros permitiu o crescimento do PCC?

Seguramente. O PCC está cada vez mais infiltrado no Paraguai, onde mantém uma relação com o Hezbollah. Sei que o Brasil não o considera um grupo terrorista, mas tenho razões para defender o contrário. Os comandantes do Oriente Médio com quem eu conversei são terroristas. E o império criminal que eles integram é uma ameaça. Hoje eles apoiam o PCC, que começou como uma quadrilha de prisão e se tornou uma insurgência criminal. E se alguém sabe fazer uma insurgência é o Hezbollah. Seus integrantes ocupam territórios, obtêm armas e dinheiro em troca de cocaína. Os brasileiros até pensam que se tornaram poderosos, mas o Hezbollah pode dominar o PCC. Bastaria querer.

O relacionamento com o Hezbollah não coloca facções criminosas brasileiras, como o Comando Vermelho e o PCC, em evidência diante de órgãos internacionais?

O DEA [departamento de drogas], o FBI [polícia federal] e a CIA [serviço de espionagem] dos Estados Unidos têm mais com o que se preocupar, contanto que não exploda uma bomba ali. Porém, é preciso entender que muito do financiamento dos atentados vem de lá, onde há convergências. O irônico desses grupos é que apelam ao contrabando e ao tráfico para financiar suas operações, porém, quando os lucros chegam, há uma troca, com as armas sendo usadas para manter os negócios. A convergência vem por dois pontos. As sanções contra os apoiadores ficaram mais eficientes, tornando necessário criar negócios próprios. Outro ponto é a presença de facilitadores, que lavam dinheiro, possuem logística de transporte e bons advogados, fornecendo documentos e proteção. Se o celular de um facilitador for apreendido, veremos que os contatos com terroristas ultrapassam suas conexões com criminosos comuns.

O Brasil é um possível alvo ou apenas um local de refúgio e obtenção de recursos?

Não haveria perigo de um atentado, pois seria catastrófico para os negócios. Todavia, no futuro, com tanta corrupção, ilicitudes e dinheiro envolvidos, alguma ameaça poderia provocar uma reação. Nunca poderemos dizer que estamos seguros.

Debelar esses grupos só seria possível com cooperação internacional?

No relatório da Asymmetrica, minha empresa de consultoria, intitulado “Hidra Dourada”, alertamos que falta troca de informações entre as nações. Na Tríplice Fronteira, um criminoso tem três países para onde correr. Diante das ameaças transnacionais, é preciso colaboração, como a criação de um centro de inteligência que reunisse as polícias nacionais.

Quais são as ações do governo americano para conter os grupos terroristas na América do Sul?

Foi aprovada uma lei, o novo Hezbollah International Financing Act, o HIFA. O primeiro é de 2015 e permite sancionar quem financie o grupo. A novidade é que um dos artigos inclui tráfico de cigarros.

A desmobilização das Farc prejudicará o tráfico e trará paz à Colômbia e para a região?

O problema é que as pessoas não param de cheirar cocaína. Enquanto houver demanda haverá fornecedores. Antes da Colômbia, a cocaína vinha do Peru e da Bolívia. Sem contar que as Farc ganham dinheiro com sequestro e extorsão.

A senhora acredita que a Venezuela deve ser classificada como um país financiador do terrorismo?

Há provas de que o apoio ao terrorismo é uma política de Estado na Venezuela. Eles financiam diretamente grupos, forneceram milhares de passaportes, montaram negócios para empresas que sofreram sanções econômicas. Investigações apontam relações antigas com Saddam Hussein, do Iraque, e Gamal Abdel Nasser, do Egito. O projeto Pan-Árabe tem relações diretas com os bolivarianos da Venezuela. Não se trata só de dinheiro. Há laços de sangue com os drusos do Líbano e da Síria. As Farc também financiavam os sírios. Isso foi descoberto após a apreensão do computador do líder Raúl Reyes, morto em 2008. Também foi descoberto que Hugo Chávez destinava 300 milhões de dólares por ano às Farc para desestabilizar o governo colombiano. Ele sonhava com a Grande Colômbia unindo os países. Na fronteira, os militares venezuelanos se criminalizaram ao conviver com as Farc. No Arco Minero, o Exército de Libertação Nacional colombiano, o ELN, atua como força de controle territorial. Hoje é aliado do governo, amanhã, vai saber.

Isso quer dizer que os governos do PT apoiaram o terrorismo ao fechar os olhos para as ações de Hugo Chávez e Nicolás Maduro?

Creio que o governo brasileiro não entendeu ou não levou a sério o projeto bolivariano. Foram ingênuos e cometeram um grave erro. Em ambos os países a narrativa da justiça social e do socialismo tinha razões históricas, o que deu a desculpa para o aumento da interferência dos governos, que capacitaram verdadeiras cleptocracias. Uma investigação séria na Venezuela faria a Lava Jato parecer pequena. A estimativa é que sob Chávez e Maduro foram roubados até 400 bilhões de dólares. É muito mais do que o país necessita do Fundo Monetário Internacional para ser reconstruído. Para piorar, hoje a crise venezuelana é uma ameaça aos vizinhos.

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