Brasil

O guru manda bala

Como o filósofo Olavo de Carvalho ascendeu no bolsonarismo, a ponto de, em meio a xingamentos nas redes sociais, exercer tamanha influência sobre o governo

Crédito: Vivi Zanatta/Folhapress

TIROS A ESMO Da Virgínia (EUA) onde mora, Olavo de Carvalho “atira” em todo mundo, até mesmo nos apadrinhados (Crédito: Vivi Zanatta/Folhapress)

O presidente Jair Bolsonaro e o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho não são de frequentar a casa um do outro. Nunca sequer almoçaram juntos ou tomaram um cafezinho, prática comum entre os políticos de Brasília. Os dois jamais se viram pessoalmente e nem celebraram o clássico aperto de mãos. Bolsonaro e Olavo só se falam por telefone ou através de mensagens, já que o ideólogo permanece em seu período sabático em Richmond, no estado de Virgínia (EUA). O que uniu esses dois mundos aparentemente tão distintos – já que um tem as raízes no militarismo enquanto o outro é dado a digressões intelectuais – foi a causa em que ambos militam: o combate incessante à esquerda. A relação se intensificou durante as eleições. A aproximação de Olavo fez com que Bolsonaro conquistasse o voto dos milhares de seguidores do filósofo.

Inicialmente, o papel do escritor no governo limitava-se aos bastidores. Sem muito alarde, ele indicou nomes para o primeiro escalão. Nos últimos tempos, passou a dar conselhos ao presidente e a integrantes do governo sobre qual direção levar o País. Embora rejeite a pecha de guru e se autodenomine apenas um mero “observador científico” da realidade, Olavo encarna uma espécie de “feiticeiro” do bolsonarismo, tal qual o Rasputin que pautou o comportamento dos czares russos, tamanha a influência que exerce sobre o governo. Lembra também, guardadas as proporções, a ascensão do general Golbery do Couto e Silva sobre o presidente Ernesto Geisel, mas com uma diferença abissal entre os dois: o lendário chefe de gabinete do presidente militar foi fundamental para que o nome de Geisel entrasse para história, sendo dele o pontapé inicial para a transição à democracia. Olavo, por sua vez, age perigosamente no fio da navalha e parece querer levar o presidente ao isolamento político.

“O Velez se vendeu ou se deu?  Não tenho a menor idéia”  Olavo de Carvalho, filósofo, sobre o ministro da Educação

“O que acontece, agora, com o ministro da Educação, Ricardo Vélez, está destinado a todos aqueles que ainda pagam pedágio intelectual, moral e ideológico a Olavo de Carvalho: são uns gênios. Depois, se tornam bodes-expiatórios”. A frase é do escritor conservador Martim Vasques, um dos inúmeros alvos, nos últimos dias, do ideólogo da direita bolsonarista, quando ele em desabalada carreira se ocupou de acionar sua metralhadora giratória contra desafetos, inimigos e até mesmo integrantes do governo Bolsonaro os quais ele apadrinhou. Se Olavo não tem método para ensinar, reconhecem até mesmo seus alunos, o mesmo não se pode dizer do procedimento na hora de agir. Contraditório na essência, como quem veio para confundir, mas firme em seus propósitos, Olavo dispara contra quem se opõe a ele e ao governo que ajudou a eleger. Preferencialmente, perpetra ataques diários contra a mídia, o ensino nas universidades e tudo o que deriva do pensamento de esquerda, da política partidária à agenda cultural. Cria inimigos imaginários – em geral “todos comunistas”. As diatribes do astrólogo passariam despercebidas como chuvisco de verão não fosse ele uma pessoa que exercesse tanto fascínio sobre o governo e sobre a figura do próprio presidente da República, que gasta tempo e energia para, em geral, reverberar suas sandices e, não raro, arbitrar em favor do séquito do guru.

Crise no MEC

Além de frequente interlocutor de um dos filhos do presidente, Eduardo Bolsonaro, e alguém que faz igualmente a cabeça do “01” e do “02”, Olavo chancelou a indicação de integrantes no mais alto escalão governamental. Entre eles Filipe G. Martins, assessor do presidente para assuntos internacionais e mais notadamente os ministros Eduardo Araújo, de Relações Exteriores e Ricardo Vélez, contra o qual Olavo lançou petardos nos últimos dias. No início da semana, para surpresa geral, Olavo vociferou contra a presença dos próprios alunos no Ministério da Educação, a quem pediu que entregassem os cargos. Puro teatro. Na realidade, Olavo estava enfurecido por saber que alguns de seus apóstolos haviam perdido posições na escala hierárquica do MEC. “O Velez se vendeu ou se deu? Não tenho a menor ideia”, chegou a escrever. O recado surtiu efeito. Na terça-feira 12, a mando de Bolsonaro, Vélez teve de demitir três militares que se opunham aos olavistas no ministério. Entre eles o coronel da Aeronáutica Ricardo Roquetti, a quem Olavo e cia acusavam de servir de obstáculo ao processo conhecido como “Lava Jato da Educação” – uma auditoria em contratos antigos da pasta anunciada por Vélez. O desfecho do episódio, em que bovinamente o ministro parece ter agido em sintonia com os desígnios do astrólogo, escancara como a gestão de Bolsonaro nutre uma relação de vassalagem com o autoproclamado filósofo da Virgínia. Em meio à crise, o número dois do ministério foi demitido. Já o número dois do País é indemissível. Ainda bem, porque Olavo parece dispor de carta branca para atacar como um pitbull feroz até mesmo o vice-presidente a República. No fim de janeiro, classificou o general de “vergonha para as Forças Armadas”.

“Quanto mais a esquerda mente contra o Bolsonaro e seu governo, mais o Mourão abana o rabinho para ela”, tuitou. “O Mourão é obviamente um inimigo do presidente e de seus eleitores”, acrescentou. “O Olavo de Carvalho agora acha que sou comunista. Paciência…”, reagiu Mourão com bom humor. Na verdade, há tempos o mestre dos magos do bolsonarismo vem direcionando seus rifles lá da Virgínia para a cabeça de Mourão. Mas, como o vice ficará mesmo onde está, o ideólogo assestou suas baterias para outros alvos. Como o embaixador Paulo Roberto de Almeida. O diplomata havia chamado Olavo de “debiloide” e acabou por experimentar o mesmo infortúnio de Roquetti: foi exonerado do Itamaraty.

MORDE E ASSOPRA Responsável por sua indicação, Olavo quase derrubou o ministro Vélez Rodriguez (ao centro) (Crédito:Pedro Ladeira/Folhapress)

Palavrões

Olavo tempera os argumentos com palavrões dos mais diversos. Mas demonstra proverbial predileção pela palavra que descreve a extremidade do aparelho excretor. “Atenção, ô chefe da fôia: Ideólogo é o cu da sua mãe”, reagiu ele a uma reportagem da Folha de S.Paulo. Recentemente, no Facebook, ao lado de uma imagem de um animal abatido, Olavo sapecou: “Fui buscar hoje a minha Henry Big Boy (rifle) cal. 45-70. Pau no cu dos ursos”. A maneira repetitiva com que ele pronuncia incessantemente o substantivo parece mesmo uma obsessão. “Em breve só restarão duas religiões no mundo: maconha e cu”.

Na semana passada, em meio ao surto da contenda no MEC, não poderia faltar a palavra mágica. “Não quero derrubar ministro nenhum. Apenas apresentei pessoas, sem a menor pretensão de influenciá-las. O ministério é do Vélez. Que o enfie no cu”.

Mas de onde emana esse magnetismo que o filósofo usa para inebriar o clã Bolsonaro? Olavo é basicamente catalisador de críticas à esquerda. O astrólogo perambulava entre um ou outro artigo na imprensa até seu nome ganhar força em 2009, com a criação do COF – Curso Online de Filosofia, classificado pelo escritor Martim Vasques de “teia hierárquica”, cuja meta seria influenciar espiritualmente os eventos políticos de uma nação, igual a uma casta. “E agora passa a ter o senso de missão de que é uma espécie de corpus mysticum, no qual cada participante será análogo a um fiel que pode finalmente perceber a realidade em toda a sua nudez”. E quem seria o intermediário de tudo isso? Olavo de Carvalho. Inspirado em Sócrates, ele afirma logo no início do curso que, “mesmo quando o aluno supera o mestre, ele sabe de onde veio e a quem tudo deve”, e, ao tentar “cortar o cordão umbilical”, na hora de “confrontá-lo”, é igual ao “adolescente” que não superou os desafios desta idade e “depois tenta lançá-los no lugar errado”, escreveu Vasques em alentado ensaio.

BOM HUMOR Sob o ataque constante de Olavo, o vice Mourão usa a serenidade e a descontração como defesa (Crédito:NELSON ALMEIDA)

Aclamado por personalidades da TV, como o apresentador Danilo Gentili, o filósofo atraiu a atenção e admiração de políticos ligados a Bolsonaro. Quem apresentou as ideias de Olavo para o então pré-candidato à Presidência da República foi a deputada Bia Kicis (PSL-DF). A deputada é hoje a principal interlocutora de Olavo com o presidente. A parlamentar é oriunda do Ministério Público do Distrito Federal e leitora assídua dos livros do guru. “Antigamente, as pessoas tinham vergonha de dizerem que eram de direita. Ele despertou gerações”, ressalta ela com brilho nos olhos.

Em 2017, Olavo declarou que votaria em Bolsonaro por ser o único candidato “desvinculado do capital internacional”. Decidiu, então, moldar sua linguagem para um tom mais popular e ampliar o espectro do bolsonarismo. Uma vez tendo ajudado a eleger Bolsonaro presidente, o filósofo, pelo visto, abriu mão do papel de um simples “observador científico” e passou a “agente político”. Olavo sabe do poder de influência que possui sobre seus seguidores e do uso dela para desconstruir a imagem de eventuais desafetos. Num post no Twitter de 20 de fevereiro, ele fez uma ameaça clara às possíveis dissidências: “Todos que subiram ao poder na esteira do Bolsonaro aprendam enquanto é tempo: fiquem do lado dele ou serão odiados pelo povo tanto quanto o são os comunopetistas”. Hoje, o tom é favorável a Bolsonaro. Permanecerá até o fim do mandato? Por mais que ideais em comum os unam, há uma diferença óbvia: Bolsonaro tem a responsabilidade moral e política de governar um País. Olavo de Carvalho nem parece saber o que é responsabilidade.