Ediçao Da Semana

Nº 2741 - 05/08/22 Leia mais

Como vou rir da dor de te perder
Sem você
Pra me ensinar a rir dessa dor?”
(Antonio Carlos Prado)

GORDO querido, quando soube do teu falecimento, a primeira imagem que me visitou a memória, e demorou-se nessa visita, não foi você apresentando, tardão da noite ou já na madrugada (noite e madrugada que você tanto amava porque se sentia mais criativo), os sensacionais programas na televisão.

GORDO, a primeira imagem que me veio à cabeça, e que tão bem me fez, foi você no final da minha infância, como “Gordon”.

“GORDON”, em um genial programa humorístico, no qual você fazia o personagem de mordomo com esse nome. O programa chamava-se Família Trapo. Eu, uma criança ensimesmada, tendo livros e silêncio como amigos, ficava esperando o dia e horário do programa que me fazia alegre – você era o meu amigo gordo.

Nesse momento em que escrevo, o Google está sendo a minha memória, e espero que ela não falhe. Se falhar, me desculpem.

Você era o engraçadíssimo mordomo, e tinha Ronald Golias, Renata Fronzi, Otello Zeloni, Ricardo Corte Real (na época criança ou adolescente?) e Cidinha Campos.

Programa para mim inesquecível: Pelé como convidado especial, e vocês, fazendo de conta que não o reconheciam conforme mandava o roteiro, tentavam ensiná-lo a cobrar pênalti com “paradinha” — o Pelé que hoje, quando você partiu para o sorriso eterno, disse que “gostaria de ter sido Jô Soares”.
O tempo voou, e na minha juventude estive pessoalmente com você, e falamos da Família Trapo. Sempre agradeci, agradeço novamente, agradecerei eternamente.

Foi nessa ocasião que você me disse que gostava de ser chamado de GORDO. GORDO! Gordinho, não!
“Não existe gordinho, existe gordo”. Vi e Ouvi, depois, você repetir isso em entrevista a uma rádio. Acho, também, que vi e ouvi na televisão. Agora o meu Google pessoal está em dúvida…

GORDO querido, o que fazer com a saudade que já estou sentindo de você, sem você para me ensinar a rir dessa saudade? Rir de tudo era a fórmula da juvenilidade preservada, intacta até agora, aos 84 anos. Nesse momento você já está rindo de alguma coisa em outra dimensão.

GORDO humano, GORDO carinhoso, GORDO com um entendimento da alma humana “amplo e largo” (furto a expressão “amplo e largo” de Vinicius de Moraes). GORDO que declarou publicamente ter perdoado o homem que assassinou a sua mãe. GORDO, especial. GORDO de gala.

GORDO que, como todos nós, carregava rugas advindas com o tempo, mas nenhuma ruga de rancor.
Agora vou à lista de personagens feitos por você, que, para mim, são os melhores (sem a menor preocupação cronológica). Faça esses personagens aí no céu que a turma vai rir muito.

Não gosto de futebol, mas adorava o Zé da Galera dizendo pelo “orelhão” (não havia ainda celular): “Bota ponta, Telê, bota ponta!”. E a Vovó Naná. E o Capitão Gay. E o Operário. E o Reizinho. E o Gordon, você com cara de recém-entrado na juventude.

Por favor, manda uma luz para mim: como vou rir da dor de te perder?

E rir sempre, não se levar a sério, é o segredo de viver bem. Foi você, José Eugênio Soares, quem me ensinou isso.

Vi você mais um vez, em 2019, na entrega do tradicional Prêmio Brasileiros do Ano, da Editora Três. Você o recebeu como Personalidade do Ano na área da Cultura. Fez-me muito bem.

José Eugênio Soares, humorista, escritor, dramaturgo, diretor, ator, artista plástico. E GORDO. Adeus.