Edição nº2581 13/06 Ver edições anteriores

O golpe do general

A mulher do general Barreto, dona Rosinha, andava preocupada com o marido. É que o general, um doce de pessoa, havia mudado demais. Dormia mal e acordava pior, abatido, desanimado, sem a antiga disciplina da caserna.

Não era de hoje. Já iam uns bons três anos que ele vinha murchando. Tanto que não foi só a mulher quem notou. O bairro inteiro percebeu. Todos sentiam falta das gentilezas e do jeito educado do general Barreto.

– Olha aí o Barreto! É general, mas é não é do mal! — Ricardo Altério, diretor de teatro, sempre gritava quando cruzava com o amigo na praia.

O general acordava às 4h30 e saía do prédio na Redentor para andar no calçadão e jogar um carteado no Posto 6. De lá, ia para o Clube Militar, onde religiosamente nadava mil metros.

Tudo coisa do passado. Hoje em dia ele mal sai de casa.

Acorda depois do programa da Fátima Bernardes, troca de pijama e passa o dia assistindo notícias, apático. No máximo um ou outro murmúrio inaudível.

Seu Osório, porteiro do edifício há quase 40 anos, conheceu o general ainda capitão.

– Nossa, mudou muito. Da água pro vinho. É outra pessoa desde o golpe.

– É verdade — completou dona Rosinha — Ele começou a ficar assim na época do golpe e, de lá para cá, só piorou.

Os dois, é claro, não se referem ao golpe de 64, quando Barreto tinha pouco mais de vinte anos e não passava de um aspirante.

O golpe que mudou a vida do general foi, na verdade, o que tirou a ex-presidente Dilma do cargo.

E ai de quem disser que foi impeachment.

Isso sim faz o general perder a linha, mesmo deprimido.

– Impeachment é o cacete, sua ignorante! Foi golpe, isso sim! – gritou um dia para uma senhora que voltava do supermercado.

É que o general Barreto é petista.

Daqueles de usar estrelinha vermelha na parte de dentro da farda.

Petista que tem fronha com foto do Lula.

– Foi uma brincadeira dos meninos lá do quartel, mas eu uso. O que é que tem? Ainda mais agora, nesses tempos bicudos.

Dona Rosinha não acha estranho o marido ser general e petista.

– A gente se conheceu num show do Taiguara — explica.

No fundo, dona Rosinha acha que não aceitaram que o marido fosse adido militar na Venezuela por causa dessa mania de PT.

Mas, afinal, quem quer morar na Venezuela? Um lugar que não tem nem papel higiênico?

Enfim.

Daí Dilma caiu, Temer-golpista assumiu e o general Barreto foi ficando cada vez mais acabrunhado.

Quando o novo presidente anunciou sua candidatura, Barreto pegou uma virose.

– Somatizou. Dou certeza — garantiu dona Rosinha. — Nem homeopatia deu jeito.

Durante a campanha, o general fez de tudo para tirar votos do ex-colega.

Um dia voltou da padaria inconformado.

– Ô povo burro esse, Rosa. Sabe que o canalha do Ricardo Altério botou no Facebook que vai votar no Capitão? E pensar que em 74 eu tirei o safado do pau de arara. Devia ter deixado apodrecer lá, isso sim.

– Calma Barreto. Se controla.

O presidente assumiu e Barreto foi ficando cada vez mais arrasado.

– Até o Mourão, Rosa. Lembra do Mourão, que adorava o seu pudim? Até ele — confessou no dia da posse, desiludido.

Mas domingo passado o general acordou cedo.

Vestiu seu uniforme de gala e acordou a mulher com o CD da Banda dos Fuzileiros Navais.

Quando dona Rosinha percebeu, o general já tinha colocado a bandeira do Brasil e do PT na janela, como fazia no passado, para toda a praia ver.

Por um segundo a mulher ficou feliz de ver o marido tão ativo.

– O que aconteceu, Barreto, pra que essa festa toda?

– Estou fazendo o que o Capitão mandou. Estou homenageando o golpe.

E da janela gritou — Impeachment é o cacete! Foi golpe, isso sim!

Só não gritou “Lula livre!”, porque dona Rosinha chegou a tempo com o chá de camomila.

– Estou fazendo o que o capitão mandou. Estou homenageando o golpe. E da janela o general gritou – Impeachment é o cacete! Foi golpe, isso sim!

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