Brasil

O general se movimenta

Sem fazer alarde, o comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, montou agenda para tentar recuperar o diálogo com outros Poderes, rompido após ataques golpistas de Bolsonaro no Sete de Setembro

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PONTE O comandante do Exército, general Paulo Sérgio, tranquilizou o presidente do STF, Luiz Fux, sobre intenções dos militares (Crédito: Divulgação)

Pouco mais de um mês após Bolsonaro fazer ataques ao Judiciário no Sete de Setembro, o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, começou a marcar uma série de reuniões com autoridades importantes para afirmar que o Exército não apoia a ideia de golpe, como defende o chefe do Executivo. O militar tem garantido que trabalhará para garantir o Estado Democrático de Direito. É uma notícia positiva. Até recentemente havia dúvidas sobre a posição dos fardados em relação às investidas do presidente. Bolsonaro sempre tentou envolver os militares nas crises institucionais que cria. Chama a corporação de “meu Exército” e chegou a fazer um discurso golpista montado em uma caçamba de caminhão, em frente ao QG do Exército em Brasília, o Forte Apache. Em outra ocasião, levou o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, para sobrevoar uma manifestação de helicóptero. O ex-titular da Defesa mostrou descontentamento com a tentativa de associá-lo às palavras de ordem antidemocráticas. Alguns meses depois, foi demitido por Bolsonaro, que se queixava de falta de adesão ao seu projeto. A exoneração de Azevedo e Silva, seguida da demissão sob protestos dos comandantes das três Forças, virou a maior crise militar da redemocratização.

A tentativa de cooptação das Forças Armadas parece não ter surtido efeito. O general Paulo Sérgio vem tentando se desvencilhar do saudosismo ditatorial. Na tentativa de reduzir o estresse institucional, ele se encontrou congressistas e ministros do STF — inclusive o presidente da Corte, Luiz Fux, que foi convidado pelo comandante para um almoço no Quartel-General do Exército, em Brasília, na semana passada. Pessoas próximas a Fux relataram que o almoço tinha a intenção de acabar com os conflitos recentes provocados pela escalada golpista. Antes de se encontrar com o magistrado, o general também visitou outros dois ministros: Alexandre de Moraes, no dia 4 de outubro, e Nunes Marques, em 20 de setembro. Moraes foi um dos alvos centrais dos ataques proferidos por Bolsonaro nos atos de Sete de Setembro.

VISADO Atacado pelos bolsonaristas, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, também recebeu visita do general (Crédito:Pedro Ladeira)

O périplo do comandante pelo STF foi visto como uma forma de reconstruir pontes entre os militares e o Supremo. Pontes essas que, na avaliação dos ministros, começaram a ruir após a chegada de Walter Braga Netto, general da reserva, no Ministério da Defesa. “A relação com a caserna era melhor quando o ministro era o Fernando Azevedo”, disse Fux a um interlocutor. Oficialmente, o Exército tem tratado as reuniões do general Paulo Sérgio como agenda institucional.

Reservadamente, no entanto, o que se diz é que o gesto é “simbólico”. “O motivo do almoço foi basicamente dizer para Fux não envolver o Exército no mau relacionamento entre o presidente, o ministro da Defesa e o STF”, contou um oficial de alta patente, aliado do comandante. “Braga Netto é um general que ocupa uma função política. E ele nada tem a ver com o relacionamento e com o comprometimento das Forças Armadas com os outros Poderes.”

A relação dos militares com o Judiciário piorou por conta de atitudes tomadas pelo presidente, que costuma usar o nome das Forças Armadas para chancelar seus planos. Mesmo sem apoio da cúpula da caserna, o mandatário tem mantido essa atitude, a ponto de ter mandado até tanques de guerra da Marinha desfilarem pela Esplanada no dia em a Câmara derrotou a PEC do voto impresso, em agosto. O evento intimidatório foi criticado pelas principais lideranças políticas. O Alto Comando das Forças Armadas considerou um constrangimento. Não foi à toa que Nogueira aproveitou para tentar descolar a imagem do Exército da escalada autoritária. Amigos de Nogueira ressaltam até mesmo a atuação discreta do comandante em redes sociais, tamanha sua objeção a politizar as Forças Armadas. “Não é do feitio do comandante. E ele não deve parar por aí. Em breve, também deve visitar outras autoridades, como o presidente do Senado e o da Câmara”, afirmou outra pessoa do seu entorno.

Um dos pontos que aproxima Fux e o comandante do Exército é a mesma visão sobre a disseminação de notícias falsas. Dez dias depois das manifestações do Sete de Setembro, Nogueira, que ainda não tinha se manifestado, garantiu que a Força continuava “firme no cumprimento de suas missões constitucionais” e pediu para que soldados tomassem cuidado com as informações que recebiam nas redes socias – um recado claro a apoiadores de Bolsonaro.

Nogueira dedicou os últimos dois meses a realizar uma série de reuniões longe dos holofotes. Teve encontros com lideranças da bancada do Nordeste – muitas delas filiadas a partidos de oposição a Bolsonaro. O comandante abriu ainda espaço na agenda para receber banqueiros, como o presidente do Banco de Brasília, Paulo Henrique Costa. O banco concedeu empréstimo de R$ 3,1 milhões para que o senador Flávio Bolsonaro, o 01, financiasse a mansão onde mora em Brasília. Em setembro, Nogueira também recebeu o Grão Mestre Geral da Maçonaria, Múcio Bonifácio Guimarães.