Cultura

O fim e o início do mundo novo

Um grupo de escritores africanos participa de uma festa literária na Ilha de Moçambique, cidade insular que deu o nome ao país do qual foi a primeira capital. Tudo transcorre bem quando, de repente, os telefones ficam mudos e a internet deixa de funcionar – e, do outro lado da ponte que liga a ilha ao continente, vê-se apenas pesadas nuvens, anunciando uma violenta tempestade. Durante sete dias, os autores permanecem totalmente isolados, situação que ainda se torna mais insólita quando ocorrem estranhos acontecimentos, como quando alguns dos personagens dos livros daqueles escritores parecem ter tomado vida, passeando agora pelas ruas da cidade histórica.

É justamente esse embaçamento da fronteira entre ficção e realidade um dos encantos de Os Vivos e os Outros, novo romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, que a Tusquets (selo da editora Planeta) acaba de lançar. O curioso é que o livro foi escrito antes da quarentena imposta pela covid-19. “Quando terminei o romance, em novembro de 2019, ainda não tinha conhecimento da existência deste vírus”, conta Agualusa ao Estadão. “A literatura consegue muitas vezes prever acontecimentos futuros. Aliás, os escritores têm muito mais sucesso ao prever o futuro do que astrólogos e cartomantes. Nem um único astrólogo foi capaz de prever a pandemia. Os escritores sim.”

O título inicial do livro era O Mais Belo Fim do Mundo, no qual o autor imagina um eventual fim do mundo visto a partir da pequena ilha africana. “A coincidência mais extraordinária tem a ver com o tempo congelado, uma espécie de Purgatório, no qual os personagens permanecem aprisionados”, explica Agualusa, que prefere afastar coincidências entre a trama e a sua própria história – são comuns apenas o fato de ele viver hoje naquela ilha e de seus personagens serem escritores.

Na verdade, o que pode explicar o tom fantástico da história é a mística que ronda a Ilha de Moçambique, que foi moradia de muitos poetas, como Camões, que lá viveu durante dois anos – consta que foi na ilha onde terminou a escrita de Os Lusíadas. Lá ainda há descendentes do poeta Tomás Antônio Gonzaga. “Esta ilha sempre fascinou os poetas. É um território extraordinário, carregado de história e de estórias. Um lugar partilhado harmoniosamente por pessoas com experiências culturais muito diversas.”

A história se passa em 7 dias, mesmo tempo em que Deus teria criado o universo. Também as histórias que os autores escrevem acabam se tornando fato, realidade, ou seja, faz lembrar mais uma referência bíblica: “no princípio, era o Verbo”, notória abertura do primeiro capítulo do Evangelho de João que, em seus versículos iniciais, retoma a criação do mundo, tema ainda do primeiro capítulo do Gênesis.


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“Esta é uma história sobre um fim do mundo, e sobre um recomeço do mundo”, observa Agualusa. “Ao fim de algum tempo, os escritores percebem que só conseguirão sair daquela estranha prisão onde os colocaram, daquele limbo absurdo, enfim, do Purgatório, por meio da palavra – eles reinventam o mundo contando estórias. É o desafio que enfrentamos agora. Precisamos reiniciar o mundo. Para isso, precisamos inventar novas utopias. Precisamos começar por imaginar um mundo novo.”

Romance sobre a natureza da vida e do tempo, Os Vivos e os Outros reforça o poder da palavra e da imaginação, que tudo criam e regeneram. “A vida tem mais imaginação do que qualquer escritor. E está sempre a nos surpreender. Viver, aliás, é isso mesmo: estar disponível para a surpresa”, comenta Agualusa, que reforça tal pensamento na fala de uma das personagens: “Não há como a vida para urdir boas histórias”.

O autor recupera, aliás, o jornalista Daniel Benchimol (considerado por alguns críticos como seu alter ego) e a artista Moira Fernandes, personagens de seu romance anterior A Sociedade dos Sonhadores Involuntários. Segundo Agualusa, isso era inevitável pois, naquele livro, Benchimol encontrava refúgio na Ilha de Moçambique, ao lado da mulher, Moira, que está grávida.

O casal organiza a festa literária que reúne os autores africanos cujas trajetórias pessoais acabam se confundido com as tramas criadas por eles, um jogo em que passado, presente e futuro coexistem no mesmo plano. “Há muitos anos que persigo essa ideia, de que o passado, presente e futuro partilham um mesmo território”, conta o autor. “De que nada passa, nada se extingue, tudo permanece. Por isso, acho que os escritores não adivinham o futuro – lembram-se do futuro. Têm memórias traumáticas, ou gloriosas, de algo que está acontecendo no futuro. O livro trabalha também algumas destas ideias.”

E, ao longo da trama, com os personagens desesperados por não receberem nenhuma notícia por conta do colapso dos meios de comunicação (há boatos de que bombas atômicas teriam destruído o restante do planeta), Agualusa mostra como a sociedade se tornou refém da internet, especialmente das redes sociais. “Como afirma um dos personagens do romance, a internet coloca-nos dentro de uma vastíssima ficção. Depois de nos habituarmos a ela, custa-nos sair. Estranhamos a realidade. A realidade parece-nos de repente menos real do que a ficção.”

Próximo dos 60 anos (completa em 13 de dezembro), José Eduardo Agualusa firma-se cada vez mais na literatura com uma obra marcada por uma nova dicção, especialmente em textos com narrativa ágil – em seus romances, a língua portuguesa desponta como um tesouro, principalmente pela importância que a tradição oral ocupa na cultura africana, proporcionando a partilha não apenas de um idioma, mas também de muitas histórias, de sons, de sabores, de memórias.

E, claro, do humor que, no caso de Os Vivos e os Outros, desponta na ironia com que Agualusa retrata uma feira literária e do papel muitas vezes patético representado por moderadores e jornalistas. “Confesso que me diverti bastante a troçar dos jornalistas culturais, mas isso não significa que não goste dos festivais literários”, ressalta ele, temendo os profissionais que distorcem suas palavras a fim de conseguir um título atraente. “Contudo, também já aconteceu de melhorarem as minhas declarações. Certa ocasião, um jornal angolano completou uma entrevista comigo inventando perguntas e respostas. Não protestei porque as respostas eram muito boas. Até passei a usar aquelas respostas nas entrevistas seguintes.”

OS VIVOS E OS OUTROS

Autor: José Eduardo Agualusa

Editora: Tusquets (208 págs.,R$ 51,90 (papel), R$ 31,26 (e-book)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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