Internacional

O fim de uma era

Primeiro-ministro Shinzo Abe renuncia ao cargo como o homem que mais tempo comandou o Japão. Ele despertou o nacionalismo com um plano de rearmamento e conseguiu reativar uma economia estagnada, mas a pandemia ameaça seu legado

Crédito: Masanori Genko

Depois de oito anos e meio ininterruptos de administração do Japão, Shinzo Abe, 65, sai do governo devido a um grave e crônico problema de saúde, uma colite ulcerativa. Essa patologia causa dores abdominais, diarreias persistentes, perda de peso e, se não tratada de forma severa, pode evoluir para o câncer de cólon. A doença já havia causado sua renúncia em 2007, quando exerceu o cargo de primeiro-ministro pela primeira vez. Apesar do visível comprometimento de sua saúde, Abe manteve-se no comando de dezembro de 2012 até sexta, 28, quando anunciou que iria renunciar, algo que deve acontecer de fato após 14 de setembro, quando o parlamento deve escolher o novo premiê.

Abe conseguiu repaginar os grandes temas domésticos e externos que debilitam por décadas a nação. Na economia, por exemplo, o Japão vem lidando com a deflação desde meados da década de 90. O premiê, ao longo de seu mandato, tentou dar o impulso para uma recuperação no ritmo de crescimento, além de reverter a deflação histórica. Lançou o chamado “Abenomics”, que ocasionou uma alta da Bolsa e facilitou os empréstimos para expandir a economia. Apesar disso, os salários não aumentaram e a dívida do país cresceu muito. O primeiro-ministro deu uma sensação de segurança à população e ao mercado, diz Vinícius Rodrigues Vieira, professor de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado. “Representou um discurso forte, nacionalista”, afirma. No período de oito anos e meio, Abe enalteceu as principais características do povo japonês: o compromisso e seriedade com o trabalho e o rigor técnico na execução. “Ele procurou fomentar novos setores da economia vinculados a novas tecnologias”, acrescenta o especialista. Mas como a gestão econômica é suscetível à política e a emergências, a pandemia do novo coronavírus paralisou o comércio mundial, além de forçar o adiamento das Olimpíadas. Com isso, sua estratégia não gerou os benefícios esperados e seu legado passou a ser questionado. Antes da pandemia, a economia japonesa passou da situação de deflação para uma inflação de quase 2%. Hoje, devido à crise, o PIB registra uma queda de 7,8%.

No período de Shinzo Abe, o Japão investiu na modernização de sua frota naval e tentou mudar a Constituição de teor pacifista que previne conflitos (Crédito:MICHAEL RUSSELL)

O segundo objetivo da política econômica implementada por Abe foi tentar resolver o problema de pagamento da previdência social. Como o Japão atingiu alto grau de prosperidade e pode proporcionar que sua população chegue à terceira idade com qualidade de vida, usufruindo do dinheiro da aposentadoria por um longo tempo, cerca de 20 anos, e a taxa de natalidade vem caindo desde 1989, honrar a previdência social fica cada vez mais difícil. Atualmente o setor compromete 34,2% do orçamento do Estado. Contra esse problema, o governo Abe propôs uma reforma previdenciária ao Congresso para mudar o cenário diante das futuras gerações. Propõe aumentar a idade mínima para aposentadoria, rever gastos com lar de idosos e benefícios previdenciários. Apesar desses dois temas principais, o Japão mantém estabilidade política e econômica. Isso acontece pelo fato de o país concentrar grande volume de recursos financeiros em empréstimos ao redor do globo. É um grande credor internacional, com US$ 13 trilhões em empréstimos.

Investimento militar

De 1968 para cá, o Japão traçou um plano estratégico para se tornar uma das grandes potências no planeta. O primeiro-ministro mais longevo da história tentou minimizar o papel japonês na Segunda Guerra e procurou fazer acordos comerciais com todos os países do globo. Com os EUA, no período Obama, o governo traçou o acordo Trans-Pacífico (TPP), um tratado de livre-comércio envolvendo doze países. Foi a forma mais rápida encontrada para equilibrar o peso político e econômico da China e sua estratégia expansionista com a Nova Rota da Seda, uma rede comercial que deve abarcar os mercados da Ásia, Europa e Oriente Médio. Mas, a partir da chegada de Donald Trump ao poder, a parceria foi desfeita. Segundo Massimo Della Justina, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, o ex premiê foi rápido. “Abe desenvolveu parcerias bilaterais, principalmente com a Índia”, disse.

Ainda no plano geopolítico, o governo de Abe teve uma atuação destacada na área militar, com investimentos na Marinha. “Quem dispõe de uma força naval relevante vai ter sua voz ouvida nos mercados marítimos”, afirma Justina. Ao longo de sua administração, Abe investiu R$ 50 bilhões no aumento e na modernização da frota. Sua política colocou o Japão como um dos players mais relevantes no comércio marítimo e respeitado no campo bélico. Apesar do esforço, Abe sofreu criticas internas por desafiar a tradição pacifista, já que a Constituição, imposta e aceita após o final da Segunda Guerra, prevê o não uso de força para resolver conflitos. Também enfrentou vários escândalos, acusado de falta de transparência e de favorecer grupos empresarias e aliados. Apesar dos reveses, conseguiu seu lugar na história japonesa.

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