Cultura

O fim de “Millennium”

A série de romances policiais do sueco Stieg Larsson chega ao sexto e último volume e eterniza Lisbeth Salander como a primeira detetive hacker da era digital

HEROÍNA No sexto e último romance da série, Lisbeth Salander (Claire Foy, no filme de 2018) usa tanto a pistola Baretta como o laptop para caçar produtores de fake news (Crédito:MGM / New Regency Pictures)

O jornalista Stieg Larsson sofria do coração e ganhava pouco, mas planejava um salto na carreira literária. Militante de esquerda, dirigia a revista Expo em Estocolmo, dedicada a reportagens investigativas sobre os esquemas de corrupção da oligarquia da Suécia, envolvida com os movimentos nazista e neonazista. Sua parceira, a repórter Eva Gabrielsson, com quem vivia há 32 anos, também era repórter. Havia dois anos, ele passava as noites escrevendo.

Movido a cigarro e café, imaginava uma série de romances policiais sobre bastidores obscuros do governo, protagonizada por uma dupla de detetives: Mikael Blomkvist, diretor da revista Millennium — seu alter ego — e a jovem Lisbeth Salander, hacker e vítima de violência sexual. Intitulou a saga de “Millennium”, a princípio quatro volumes, para designar tanto o nome da revista como a nova era que se iniciava, a da informação, da violência gratuita e da disseminação de boatos (ainda não havia o termo “fake news”).

“Stieg sonhava no sucesso dos romances para pagar as dívidas da revista e dos processos que os figurões moviam contra ele”, disse Eva. Assim, na manhã de 30 de novembro de 2004, após mais uma noitada, tinha o coração repleto de esperanças e sete lances de escada até chegar à redação da Expo. Um infarto tombou-o no meio da subida. Tinha 50 anos.

Herdeiros literários

CRIADOR E SEGUIDOR O sueco Stieg Larsson (1954-2004) morreu antes de “Millennium” vender 100 milhões de exemplares. Os herdeiros escolheram David Lagercranz, 57, para concluir o projeto (Crédito:Jan Collsioo / SCANPIX e Divulgação)

Por ironia do destino, se é que ela existe, o primeiro romance da série foi lançado um ano depois, pela editora Norstedts. “Os homens que não amavam as mulheres” vendeu 50 milhões de exemplares e foi traduzido para 30 idiomas. Seguiram-se “A menina que brincava com fogo” (2006) e “A rainha do castelo de ar” (2007). Os três livros elevaram Larsson ao status de sucesso editorial da década de 2000. Os herdeiros passaram a disputar a herança bilionária. Erlan e Joakim Larsson, pai e irmão de Stieg, herdaram o espólio. Como Eva não era legalmente casada com Stieg, ficou sem direitos. Dizia não se interessar pelo dinheiro e não cedeu o quarto volume da série, que encontrou no laptop do companheiro. Eram 500 páginas de um romance que deveria se intitular “Aquilo que não nos mata”.

Erlan e Joakin ignoraram as provas. Em 2009, autorizaram a editora a licenciar filmes sobre a história. Todos enriqueceram, exceto a viúva. Em 2013, a Norstedts contratou um escritor para continua a saga: o jornalista sueco David Lagercrantz, que não conheceu Stieg e é conhecido como ghostwriter das memórias do jogador de futebol Ibrahimovic. Eva considerou a escolha “idiota”. Em 2015, Lagercrantz assinou “A garota na teia de aranha”, divulgado como o quarto volume. Em 2017, veio à luz “O homem que buscava a sua sombra” e, em 2019, “A garota marcada para morrer”. A série é lançada no Brasil pela Companhia das Letras.

Boato mortal

LISBETH EM DUAS VERSÕES Noomi Rapace (no alto) ganhou fama como Lisbeth na trilogia sueca de 2009. Rooney Mara encarnou a heroína na versão do americano David Fincher, de 2011 (Crédito:Knut Koivisto e Columbia TriStar Marketing Group)

Até hoje, ela vendeu mais de 100 milhões de cópias em 50 países. O êxito despertou interesse nas histórias policiais nórdicas e deu origem a centenas de best-sellers ambientados na região.

A moda se deve sobretudo ao carisma da trama de Larsson. Afinal, ele descortinou novas formas de crime e decifração, à luz da era digital. Os primeiros leitores suecos da saga pensaram tratar-se de ficção científica, já que Lisbeth era uma decifradora de sistemas digitais. Tal impressão era reforçada pelo fato de Stieg e Eva terem editado juntos os fanzines de sci-fi Fanac e The Magic Fan no final dos anos 1970.

Hoje, porém, as aventuras de Lisbeth e Mikael se materializaram como situações do cotidiano digital. “Lisbeth é a personagem mais poderosa e popular do suspense deste século”, afirma Lagercranz. “Ela encarna a Sherlock Holmes de saias. É a hacker contra o Estado, que tem a seu lado Mikael como uma espécie de doutor Watson. Eu quis decifrar o mistério que ela ocultava desde o início da série: por que se assumiu como vingadora da sociedade e de sua família disfuncional.” No último episódio, Lisbeth luta contra a máfia russa que vende robôs de fake news a políticos. “Se perdermos, a mentira irá matar o planeta”, adverte a heroína.

A profecia de “Millennium” parece ter-se cumprido. Mesmo assim, os leitores ortodoxos da série não a consideram legítima: acham que a senha do enigma se oculta no quarto volume inacabado de Stieg Larsson, e esperam que Eva venha a lançá-lo algum dia.

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