Comportamento

O fim das teorias conspiratórias

Mantidos sob sigilo por mais de meio século, cerca de três mil documentos revelam agora um dos maiores mistérios da história: o assassinato de John Kennedy

Crédito: Frank Hurley/NY Daily News Archive via Getty Images

EM CAMPANHA John Kennedy, acompanhado por sua mulher, Jacqueline, em Nova York: anos dourados para eles e para os americanos (Crédito: Frank Hurley/NY Daily News Archive via Getty Images)

Um lunático e uma teimosia, e somente um lunático e uma teimosia, conspiraram para a morte de John Fitzgerald Kennedy, o trigésimo quinto e o mais amado presidente dos EUA – um dos maiores estadistas que a humanidade já viu morrer tragicamente no auge da glória e do poder.

O lunático se chamava Lee Harvey Oswald, um paranóide que se dizia comunista. A teimosia foi a do próprio presidente Kennedy, democrata que insistiu em desfilar de carro aberto (um Lincoln conversível) no mais duro e agressivo reduto do conservadorismo republicano: a cidade de Dallas. Lá, John Kennedy faria um curto discurso sobre a importância da prosperidade econômica de uma nação na “preservação de princípios fundamentais como o da liberdade”.

Era o dia 22 de novembro de 1963. Kennedy, 46 anos, estava no carro acompanhado por sua mulher, Jacqueline Bouvier Kennedy, e pelo então governador do Texas John Connally. No final da manhã e do sexto andar do Texas School Book Depository, o ex-fuzileiro naval Oswald disparou três tiros de rifle contra o presidente: um projétil ricocheteou numa árvore, o segundo o atingiu no pescoço e feriu também o governador, o terceiro lhe foi fatal.

Pedaços do cérebro do segundo presidente americano mais jovem a ser eleito (em 1960 aos 43 anos de idade; o primeiro foi Theodore Roosevelt) voaram pelo carro, e um deles, quis o trágico destino, foi involuntariamente apertado por uma das mãos de Jacqueline. Se o Lincoln estivesse com a capota subida, provavelmente Kennedy não teria sido morto, pelo menos não naquele local: o lunático era ruim de mira e de tiro.

Do primeiro momento do atentado até hoje não pararam de surgir teorias conspiratórias querendo enxergar no assassinato mais do que há, na realidade, para ser visto. Na semana passada, tudo voltou à baila porque o presidente Donald Trump, cumprindo determinação da Justiça, tornou público praticamente todo o acervo oficial que envolve o episódio.

A lei de abertura dos arquivos é 1992, e foi feita porque, um ano antes, o filme “JFK”, dirigido por Oliver Stone, reviveu todas as dúvidas que, embora sendo infundadas, sempre alimentaram o interesse de pesquisadores, sociólogos, historiadores, artistas, políticos, oportunistas de plantão e, sobretudo, alimentaram a alma americana – para o imaginário popular, que não tem interesse pragmático ao inflar suposições, montar tramas e mais tramas na morte de Kennedy não deixa de ser uma maneira de dizer eternamente o quanto ele é amado e lembrado.

Uma pesquisa recente aponta que 74% dos americanos consideram John Kennedy um político notável e o colocam em primeiro lugar na lista dos últimos onze melhores mandatários do país. A legislação de 1992 deu vinte e cinco anos para que a documentação fosse revelada, portanto o prazo venceu agora. E, com isso, vê-se o fim das teorias conspiratórias.

Tudo bem que ainda haja 1% de material guardado, até porque sabe-se a razão para que ele não tenha vindo à luz: envolve órgãos como a CIA e o FBI em ações pouco dignificantes que vão de arapongagem a casos extraconjugais de agente secretos. Ou seja: nada têm a ver com o assassinato. Dos cerca de dois mil e novecentos registros divulgados, o certo é que somente cinquenta e três são inéditos. Demonstram sinais de alguma conspiração? Não, nenhum sinal.

 

A morte de Kennedy se deu no auge da chamada “guerra fria”: o mínimo que o governo dos EUA falava da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas era que lá os comunistas “devoravam crianças” – e convenhamos que não sem razão, porque, bem antes disso, o ditador Joseph Stalin declarara: “se for preciso matar todos os bebês filhos de burgueses para mantermos o povo no poder, ao açougue com eles”.

Por povo, é claro, leia-se garantir o próprio Stalin no comando. Mas os tempos de Kennedy nos EUA eram também os tempos de Nikita Khrushchov na URSS, e ele dava o troco assegurando que os americanos queriam destruir Cuba (governada pelo também ditador comunista Fidel Castro) com bombas químicas.

Era inevitável e natural, então, que a primeira e forte teoria conspiratória que surgisse desse conta de que Kennedy fora liquidado a mando de Moscou ou de Havana – e isso ganhava corpo porque Lee Oswald morara na URSS e, antes de seu ato, viajara para o México onde visitara a embaixada cubana e escrevera para a embaixada soviética. Khrushchov, por sua vez, acusava a CIA de ter matado Kennedy, em conluio com o FBI, para que a culpa recaísse justamente sobre os comunistas.

Era a teoria ideal de conspiração, simplista demais, mas que atendia aos interesses ideológicos. E pouco importou, assim, a mais integra, séria, isenta e profunda investigação feita pela “The President’s Commission on the Assassination of President Kennedy”, a chamada “Comissão Warren”, que concluiu que Oswald agira solitariamente. A comissão recebeu o nome de seu presidente, Earl Warren, magistrado e presidente da Suprema Corte dos EUA.

Conspirava contra a tese da não conspiração outro fato maluco: dois dias após o crime, quando era transferido de uma delegacia para um presídio federal, Oswald foi assassinado pelo mafioso Jack Ruby, com um tiro disparado a queima-roupa. Nos documentos agora revelados, há um lacônico memorando de J. Edgar Hoover, o então poderoso diretor no FBI, que é um valioso tesouro para aqueles que querem seguir acreditando num complô: “Não há nada mais sobre o caso Oswald, exceto que ele está morto”.

Pura realidade, só isso, mas não faltará quem diga que há coisas escondidas atrás do curto e seco texto. De volta a Jack Ruby, devido à sua ligação com o submundo da máfia, desenvolveu-se a teoria de que essa organização criminosa matara Kennedy. Primeiro: seria uma forma de fazer com que seu irmão Robert Kennedy, que ocupava o cargo de procurador-geral, desistisse da luta contra os mafiosos.

Segundo: o próprio presidente teria ligações com a máfia, desde que dividira com o chefão Sam Giancana a amante Judith Campbell Exner (quem os apresentou foi o cantor Frank Sinatra). A tudo isso somou-se a corrente que acusava o vice-presidente Lyndon Johnson de ser o grande mentor do crime.

Entre os documentos que Donald Trump autorizou a revelação há um relatório que indica o constante vaivém de graduados agentes do FBI e da CIA em um rancho de Johnson. Toda essa movimentação, no entanto, é depois que ele assumiu a Casa Branca, e nada mais natural que se reunisse com integrantes do servico de inteligência de seu país. O que piorou as coisas para Johnson foi uma declaração que ele deu em 1968 à rede ABC News: “Kennedy estava tentantando chegar a Fidel Castro, mas Fidel Castro chegou antes a ele”. Isso, sim, foi gasolina no fogo.

Ainda unida às teses de terrorismo comunista, de crime da máfia e de ambição estratosférica e desvairada de Lyndon Johnson, saltou também do acervo um interrogatório que municiará, por muito tempo, os que ainda falam em conspiração. É tesouro para eles. Em 1975, doze anos após o fato, o ex-direitor da CIA Richard Helms prestou depoimento a senadores.

Perguntaram-lhe: “há alguma informação relacionada ao assassinato que, de alguma modo, mostre que Oswald era agente da CIA, ou um agen…”. Nesse ponto o documento termina. E a resposta do ex-diretor é incógnita. Para historiadores americanos, não há arquivos perfeitos, e isso “não passa de falta de cuidado dos que guardaram por tanto tempo esse material histórico”. “Todos esses documentos já foram analisados nos anos 1990. Se houvesse novidades nos arquivos que mudassem a narrativa vigente, elas já teriam vazado”, diz o historiador Max Holland.

Há documentado um telefonema dado, não se sabe por quem, a um minúsculo e pouco importante jornal britânico chamado “Cambridge News”, vinte e cinco minutos antes do assassinato em Dallas. Quem teria dito ao repórter: “entre em contato com a embaixada americana em Londres porque um fato mundial ocorrerá nos EUA”.

O serviço de inteligência da Inglaterra sempre soube disso mas não atribuiu relevância ao fato, até porque, o mais lógico, teria sido o informante entrar em contato com jornais de muito peso, se fosse ele alguém ligado ao crime. O raciocínio é simples: quem ligou, se ligou, era para garantir repercussão e não prevenção com menos de meia hora de antecedência.

Nada mais de significativo o arquivo revelou ao público. O pouco que ainda resta guardado, dizem especialistas, nada tem a ver com Kennedy, mas sim com atos não muito legais do FBI. E existem, também, papéis que ligam Dallas a seres alienígenas e a objetos voadores não identificados. Como se vê, as teorias de conspiração, em sua maioria, foram e continuam sendo até coisa de outro planeta.

Hilter viveu na Colômbia?

Entre os 2.891 documentos referentes ao assassinato de John Kennedy há pelo menos um que trata de um homem que foi o seu oposto: o nazista Adolf Hitler.

No registro, um agente da CIA informa, em 1955, que até o ano anterior Hitler pode ter vivido na Colombia, sob o nome de Adolf Schrittelmayor. A informação foi obtida do ex-soldado nazista Phillipe Citroen, que aparece numa foto de 1954 (abaixo) com o suposto Hitler.