Meio Ambiente

O fim da natureza selvagem

Estudo mostra que as poucas florestas que permanecem intactas no mundo podem desaparecer completamente em 19 países nas próximas décadas

Crédito: Ibama / Agência Brasil

Segundo levantamento, entre 2000 e 2013, Brasil desmatou 15 milhões de hectares de floresta (Crédito: Ibama / Agência Brasil)

Os últimos resquícios de natureza intocada pelo homem, escondidos em recantos remotos do mundo onde a vida selvagem permanece isolada e protegida, estão desaparecendo em ritmo cada vez mais acelerado. Em 60 anos, as chamadas florestas intactas, ou nativas, podem sumir completamente em pelo menos 19 países. Para quatro dessas 19 nações (leia lista no fim da matéria), a situação é ainda mais crítica. Nelas, as florestas intactas podem desaparecer nas próximas duas décadas caso o ritmo de desmatamento não diminua. O alerta vem de uma pesquisa inédita divulgada nesta sexta-feira pela Universidade de Maryland, que coordenou o levantamento em colaboração com institutos ambientais e ONGs (organizações não governamentais) globais.

Para chegar a essa conclusão, o estudo rastreou, por meio de imagens de satélite, a perda mundial de florestas intactas e dos habitats nelas contidos entre os anos 2000 e 2013. Segundo os pesquisadores, as paisagens de florestas intactas são áreas sem qualquer sinal de intervenção humana com ao menos 500 quilômetros quadrados, o que equivale a 50 mil campos de futebol. Esse é o espaço mínimo necessário para abrigar a biodiversidade local com segurança.

Redução das florestas intactas

Gráfico mostra redução nas áreas de florestas intactas pelo mundo (em % de 2000 a 2013)

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Carla Schaffer / AAAS

Entre os 19 países mais ameaçados, 18 têm economias em desenvolvimento. Essa concentração não é fruto do acaso. “Os países que hoje são ricos, ou desenvolvidos, atingiram esse patamar ao custo das árvores e acabaram com suas matas nativas há muito tempo”, diz o pesquisador sueco Lars Laestadius, que colaborou com o estudo. Sobrou para os países em desenvolvimento o fardo de encontrar caminhos para a prosperidade econômica que não comprometam as últimas florestas nativas do mundo. Fardo injusto, segundo Laestadius, que cobra mais envolvimento dos países desenvolvidos no tema. “Gostaria de ver os países ricos fazerem um esforço para restaurar suas florestas intactas”, afirma.

Destruição

De acordo com o levantamento, em 13 anos, o mundo perdeu 920 mil km quadrados de florestas intactas, o que equivale a 92 milhões de campos de futebol. A América Latina foi responsável por mais de um terço dessa perda, o que faz dela a líder entre os continentes que mais desmataram florestas intactas no mundo. E é do Paraguai o título mundial de país que mais desmatou esse tipo de vegetação entre 2000 e 2013: incríveis 80% do pouco que restava, o que em termos absolutos equivale a 3,5 milhões de hectares.

O Brasil não fica atrás. Embora pareça bem com índice de 6%, o País ocupa o segundo lugar no ranking de desmatamento mundial em termos absolutos, de acordo com dados do mesmo estudo. Pudera. A área intacta é muito maior, então 6% equivale a nada menos que 15 milhões de hectares de floresta destruída.

Esperança

O elo com a natureza selvagem, porém, ainda não está perdido. O rastreamento por satélites utilizado na pesquisa identificou que áreas de conservação, determinadas por lei, foram um recurso eficaz para proteger florestas nativas na maior parte dos países. O desmatamento fora das áreas protegidas foi exponencialmente maior do que dentro delas.

Mesmo assim, esse recurso é considerado insuficiente pelos pesquisadores. No artigo que apresenta a pesquisa, os especialistas argumentam que uma solução melhor deveria ser criada a partir de cooperações entre países que garantam a supervisão de todos os territórios que ainda estão intactos. Afinal, a exemplo da Amazônia, muitas áreas de florestas nativas atravessam as fronteiras nacionais.

“A proteção de paisagens de floresta deve considerar uma estrutura muito mais ambiciosa do que fragmentos na forma de parques nacionais”, disse à ISTOÉ o geógrafo americano Matthew Hansen, um dos coordenadores da pesquisa.

Como a maior área de floresta tropical do planeta está dentro das fronteiras brasileiras, o País é considerado um ator fundamental para a conservação das matas nativas. O desmatamento na Amazônia Legal voltou a crescer em 2013 após anos de desaceleração. Para esses cientistas, é fundamental que o País volte a controlar a situação. “O Brasil é a melhor esperança para conservar as florestas intactas, apesar das perdas”, diz Hansen.

Rumo à extinção

Em 60 anos, 19 países perderão todas as suas florestas intactas se o desmatamento não desacelerar; quatro acabarão com essas áreas em 20 anos (em negrito); saiba quanto cada um destruiu (em %) de sua vegetação nativa entre 2000 e 2013

Paraguai – 79%
Laos – 48%
Guiné Equatorial – 45%
Nicarágua – 38%
República Centro-Africana – 34,4%
Libéria – 32,2%
Austrália – 32,7%
Camboja – 32%
Mianmar – 31%
República Dominicana – 29%
Honduras – 28,6%
Vietnã – 25,5%
Camarões – 25,2%
Malásia – 25%
Gabão – 23%
Panamá – 19,8%
Bolívia – 19,6%
Madagascar – 19%
Congo – 17,7%

Fonte: Universidade de Maryland, Departamento de Ciências Geográficas. Janeiro de 2017

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