Cultura

O fetiche dos clássicos

Interesse crescente do leitor brasileiro por obras fundamentais da literatura motiva lançamento de coleções luxuosas em tiragens limitadas

O fetiche dos clássicos
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UTOPIA, de Thomas More (1516) A obra que descreve o “não lugar” onde vive uma sociedade ideal ganha edição bilíngue em sua primeira tradução brasileira direto do latim (Coleção Clássica Autêntica Editora)

Publicado em 1516, o livro “Utopia”, combina literatura e filosofia ao evocar um “não-lugar” – uma ilha ideal onde a sociedade vive em cooperação pelo bem comum. “Embora nada possuam, todos são ricos”, escreveu o autor Thomas More (1478-1535), inglês que foi advogado, estadista e diplomata. Para celebrar os 500 anos da obra, a primeira tradução brasileira feita diretamente do latim acaba de chegar às livrarias. O volume inaugura a coleção “Clássica” da Autêntica Editora em 2017 e tem como atrativos a capa dura, o texto bilíngue, a orelha e o posfácio assinados por doutores e um anexo com cartas sobre o impacto do livro à época de sua publicação original (uma delas é assinada por Erasmo de Roterdã). A edição comemorativa de cinco séculos de “Utopia” é um belo exemplo de uma nova tendência de algumas editoras brasileiras: transformar textos clássicos em livros-fetiche.

“Temos visto um despertar do leitor por clássicos. Autores como Dostoiévski e Tolstói passaram a ser mais procurados”, afirma Daniele Cajueiro, diretora editorial da Nova Fronteira. Com um importante catálogo histórico, a editora acaba de lançar os primeiros volumes da Coleção Clássicos de Ouro, que terá 22 títulos até o final do ano. O primeiro lote traz “Retrato do artista quando jovem”, de James Joyce, “Como vejo o mundo”, de Albert Einstein, “História do pensamento ocidental”, de Bertrand Russel (vencedor do Nobel de Literatura de 1950), e ”Memórias de uma moça bem-comportada”, de Simone de Beauvoir.

A escolha foi baseada na experiência da Nova Fronteira com projetos especiais lançados recentemente em parceria com grandes livrarias. Segundo Daniele, em uma dessas edições especiais, o livro de Bertrand Russel esgotou antes mesmo do lançamento. Já a inclusão de Simone de Beauvoir entre os autores da primeira safra da coleção se deve em parte ao sucesso crescente de “O segundo sexo”, livro mais famoso da famosa feminista francesa.

VIDA LONGA

Embora venham conquistando espaço nas livrarias, os clássicos não podem ser considerados best-sellers. Por se tratar de edições luxuosas, que além da capa dura trazem conteúdos extras ao texto original (quase todos já em domínio público), eles chegam às livrarias em tiragens limitadas – o que reforça o apelo de objeto de desejo. Um bom exemplo é “Jaqueta branca ou O mundo em um navio de guerra”, de Herman Melville, autor de “Moby Dick”. A edição que acaba de sair pela Carambaia é de apenas 1.000 cópias, numeradas manualmente.

“O livro clássico pode não ter um pico de venda, mas o interesse por ele se mantém por muito tempo” Rodrigo Lacerda, diretor da coleção Clássicos Zahar

Em cada um deles, a capa traz uma gravura exclusiva, composta segundo uma técnica que usa exposição à luz ultra violeta e reagentes químicos para produzir uma imagem única em cada exemplar. “A regra de ouro o sucesso de um clássico é entender que ele não terá um pico de vendas no lançamento, mas o interesse permanecerá por muito tempo”, diz Rodrigo Lacerda, diretor da colação Clássicos Zahar, que já lançou uma dezena de autores e acaba de publicar uma edição comentada e ilustrada de “A volta ao mundo em 80 dias”, de Jules Verne. Segundo ele, os volumes da coleção, com tiragens entre 3 mil e 5 mil exemplares, visam o público jovem. “Havia uma demanda invisível que agora está sendo melhor atendida pelas editoras”. Tanto assim que o mesmo título de Verne também chega às livrarias pela concorrente Edipro –que adotou o slogan “a editora dos clássicos”.

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