Dizem especialistas que a estratégia de inundar as redes sociais de teorias conspiratórias, além de fomentar as divergências explorando temas controversos, foi engendrada por Vladimir Putin como uma ferramenta vital de sua guerra híbrida em meados dos anos 2010. O primeiro laboratório foi a Ucrânia, que desejava fortalecer sua democracia. O segundo, os EUA, que tinham em 2016 uma eleição vital. A desinformação e a campanha de ódio ajudaram Donald Trump a se eleger, contra todos os prognósticos (inclusive do próprio ex-presidente).

Desde então, essa comunicação disruptiva causou terremotos políticos em vários países e foi a base de movimentos como o Brexit. Poucos populistas aproveitaram essa onda como Bolsonaro. Desde a campanha de 2018, o seu grupo político criou uma rede de desinformação e ataques que conseguiu levá-lo ao Planalto mesmo com pouco dinheiro e tempo escasso de TV. A Justiça Eleitoral estava despreparada na época para escrutinar o subterrâneo das redes sociais que miraram especialmente as comunidades pobres e desinformadas, um movimento que foi captado inicialmente no Brasil pelo “New York Times”.

A estratégia foi transportada para o interior do Palácio do Planalto com o gabinete do ódio, grupo paralelo de comunicação que era abastecido com verbas públicas e respondia diretamente ao presidente. Essa política de Estado mirou os adversários do presidente, difamou aliados que romperam com ele, blindou a família contra investigações judiciais e chegou até à atual campanha presidencial, a mais suja da história.

A novidade é que o maior oponente de Bolsonaro nessa corrida, o PT, também desceu ao esgoto para ocupar o espaço cibernético. Usou mão de obra terceirizada, o deputado André Janones, para promover um mar de desinformações. Parte desse repertório é exagerado, outro tanto é pura mentira, mas a porção mais importante são as barbaridades que Bolsonaro e seu entorno despejam diariamente para promover preconceito de costumes e nacionalismo chauvinista. Bolsonaro está sendo vítima daquilo que criou. Está orovando agora do seu próprio veneno no ciberespaço.

E todo esse ruído ganhou o horário eleitoral gratuito. Passou a ser exibido no horário nobre da TV. Em encontro virtual de sua equipe, Lula reforçou que era preciso “destruir a máquina de mentiras que foi criada no Brasil a partir de 2018”. O episódio das refugiadas venezuelanas mostra que o presidente começa a perder essa guerra, em que até hoje nadou de braçadas. Mas a última pesquisa Ipec também revelou que a nova forma de comunicação não tem conseguido aumentar a rejeição do presidente de forma decisiva, apesar do desespero da campanha bolsonarista.
Esse show de horrores, por outro lado, poderá ter impacto no futuro do ambiente político, já conflagrado. Seja quem for o próximo presidente, ele terá dificuldades de governar. Enfrentará uma oposição aguerrida e terá dificuldades em pacificar uma sociedade convulsionada por tanta baixaria. A polarização vai perdurar e pode ficar até mais agressiva. O falecido marqueteiro Duda Mendonça, que criou a campanha política moderna no Brasil, como conhecemos até hoje, já ensinava que “quem bate perde”. No caso atual, os dois lados batem, e quem perde é a sociedade.