Brasil

O exército volta à selva

Especialistas dizem que operação é jogo de cena, já que os órgãos de combate estão sendo desmontados pelo governo enquanto o desmatamento cresce

Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama

CUSTOS A operação Verde Brasil 2 durou 354 dias e consumiu R$ 400 milhões (Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama)

“Eu vou derrubando pouco a pouco o desmatamento, até chegar a 2030 com isso zerado” Hamilton Mourão, vice-presidente da República (Crédito:Pedro Ladeira)

presidente Jair Bolsonaro tomou mais uma medida polêmica na área ambiental: autorizou a volta das Forças Armadas à Amazônia, em uma nova ação de GLO (Garantia da Lei e da Ordem) para combater o desmatamento. A medida é polêmica porque a última operação, desfechada em maio de 2020, durou quase um ano, gastou R$ 400 milhões e o desmatamento aumentou na selva. Ou seja, os resultados pretendidos não foram os alcançados. Ambientalistas afirmam que enviar o Exército para combater o desmatamento desvirtua a finalidade da Força, pois para isto existem os órgãos ambientais especializados: o Ibama e o ICMBio.

33,8 mil hectáres foi a área desmatada entre agosto de 2020 e maio de 2021 apenas nas reservas de conservação federal na Amazônia Legal

Além do mandatário, o vice-presidente, Hamilton Mourão, defende uma maior presença dos militares no combate ao desmatamento na Amazônia. O custo da nova operação, a ser lançada ainda em junho, é de R$ 50 milhões, com duração prevista até outubro. A última operação, chamada de Verde Brasil 2, durou 354 dias, entre maio de 2020 e abril deste ano. O governo quer lançar a operação até julho, porque a partir do próximo mês o desmatamento costuma acelerar com o auge da estação seca.

“A nossa visão sobre isto é a de que existe uma confusão de papéis. Quem tem a função de combater o desmatamento é o Ibama e o ICMBio”, diz Roberto Palmieri, ex-agente do Ibama e gerente de programa do Imaflora – Instituto de Manejo Florestal e Agrícola. Palmieri elogia a atuação do Exército nas operações de logística e apoio aos agentes do Ibama e do ICMBio, mas lembra que soldados não estão preparados para a fiscalização rigorosa, multas e apreensão de madeira cortada clandestinamente. “Existe um procedimento próprio do que pode ser apreendido em uma operação dessas, até para se aplicar as multas. Se a coisa não é feita totalmente dentro dos procedimentos, quem desmatou ilegalmente pode tentar liberar equipamentos através do Judiciário”, lembra Palmieri. Ele também diz que o governo cortou o orçamento do Ibama e do ICMBio em 2021 e aumentou o das Forças Armadas. “Usar o Exército para multar é um desvio de função. Seria mais inteligente o governo reforçar os órgãos ambientais.”

A ambientalista Silvana Andrade, da agência ANDA, diz que está em curso um desmonte sistemático das políticas ambientais, que teve início em 2019. “No ano passado, o governo suspendeu operações contra o desmatamento e os incêndios na Amazônia e no Pantanal, porque cortou R$ 60 milhões dos orçamentos do Ibama e do ICMBio. Vejo esta notícia da nova operação na Amazônia com muita desconfiança”, diz. “Quando você tira dinheiro, você desmonta.”

Salles na mira

O desmatamento avançou até nas unidades de conservação federal. Segundo dados do INPE, em maio deste ano foram desmatados 11,3 mil hectares, frente a uma destruição de 2,7 mil hectares em maio do ano passado. O governo federal afirma que a operação Verde Brasil 2 apreendeu 506 mil metros cúbicos de madeira ilegal, mas isto aparentemente não incomodou os criminosos. Os ambientalistas dizem que o governo federal sucateia o Ibama e o ICMBio. Apenas no último, 1.300 cargos estão vagos.

Enquanto isso ocorre, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é investigado pelo STF pela suspeita de obstrução à apreensão recorde de madeira cortada por criminosos ambientais no Estado do Pará, como revelou reportagem da ISTOÉ de 30 de abril. A terceira operação dos militares na Amazônia corre o risco de ser “uma peça de teatro para inglês ver”, disse uma fonte à ISTOÉ.