O Exército se perdeu na Amazônia

Durante décadas as Forças Armadas encararam a Amazônia como região estratégica para o País, suscetível à influência e até à invasão de forças estrangeiras. Nos anos 1970, por exemplo, essa visão levou a intervenções cirúrgicas, discretas e eficientes que impediram núcleos do narcotráfico de se instalarem em território brasileiro, evitando que o Brasil se transformasse em base do tráfico e mesmo que sofresse o risco de virar um narcoestado, como aconteceu com os vizinhos.

Esse fato, aliado a um programa eficiente de treinamento de militares na região, admirado até por forças de outras nações, representaram uma vantagem estratégica até agora. Mas esse ativo está naufragando diante da evidências surgidas pelo lamentável desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips. Assim como Bolsonaro capturou as Forças Armadas para sua ameaça golpista, ele também transformou os militares em avalistas de uma nova terra sem lei.
O vice, Hamilton Mourão, havia sido destacado para chefiar um conselho que deveria zelar pela preservação da Amazônia Legal diante do aumento das queimadas e da incineração da imagem internacional do presidente. Faria isso afastando os observadores internacionais, como desejava o bolsonarismo. Como era de se prever, o conselho falhou miseravelmente e não evitou a expansão do fogo e nem dos grileiros, além de calcinar ainda mais a reputação do governo no exterior. Agora, diante do desaparecimento dos dois profissionais, o general fez como o presidente: culpou as vítimas. Disse que eles entraram em “área perigosa” e “passaram a correr risco por não avisarem as autoridades”.

Assim como Bolsonaro capturou as Forças Armadas para a ameaça golpista, ele também transformou os militares em avalistas de uma nova terra sem lei

É o reconhecimento de que o crime passou a dominar áreas da Amazônia, como já acontece nos morros cariocas, pela ausência do Estado. Além de hub para o escoamento da droga, os bens explorados na região servem para lavar o dinheiro do narcotráfico. Há evidências de que facções criminosas que crescem em todas as regiões do País já agem na Amazônia.
Ao enfraquecer órgãos de controle, punir policiais da PF que investigavam delitos, expor jornalistas e estimular atividades predatórias e ilegais, como a de notórios madeireiros clandestinos, Bolsonaro ajudou a criar um santuário para criminosos. A surpresa é que os fardados tenham se prestado também à inglória tarefa de entregar o ouro para os bandidos, rasgando mais essa cartilha da doutrina militar.


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