Cultura

‘O Estrangeiro’, de Luchino Visconti, merece revisão, 50 anos depois

Há um momento, durante o julgamento em “O Estrangeiro”, em que aparece brevemente um repórter, fazendo anotações – é Luchino Visconti lembrando que Albert Camus foi jornalista, antes de se tornar grande escritor (e vencer o Nobel).

Ainda no tribunal tem a cena que agride o ouvido. Diz o juiz – “In nomine del popolo… francese!” Visconti sempre gostou dos elencos internacionais e já desde o começo dos anos 1950 trabalhava com atores (astros) de língua inglesa e francesa, enquanto seus colegas dos primórdios do neorrealismo ainda insistiam com não profissionais. O método de Visconti com atores era polêmico. Ele os dublava, sempre.

A grande retrospectiva de Visconti vai chegando ao fim no Cinesesc. O sucesso tem sido imenso, superior a toda expectativa. Alguns filmes ganharam sessões extras, para atender à demanda. Morte em Veneza e O Estrangeiro, que passa nesta terça-feira, 13, mais uma vez, às 21h50.

A adaptação de Camus talvez seja o filme de Visconti mais hostilizado por parte da crítica. Nenhum talvez lhe tenha causado tantos problemas. A ideia foi amadurecida enquanto Visconti dirigia Silvana Mangano no episódio de “As Bruxas”. O marido da atriz, o produtor Dino De Laurentiis, possuía os direitos do livro. Não precisou de muito esforço para persuadir Visconti.

O livro foi escrito em 1938 e a adaptação do grande diretor trouxe a ação parara o período da guerra da independência da Argélia. Nesse novo quadro, mesmo que tudo fosse igual, ficava diferente. Mersault continuava matando o árabe com aqueles quatro disparos fatídicos, continuava julgado e condenado. A viúva de Camus, que tinha o direito de aprovação do roteiro, vetou. Nenhuma mudança, o livro tal qual.

Visconti, preso a contrato, teve de se conformar e, e para complicar, Alain Delon, que ele queria no papel, não pôde fazer o filme. Foi substituído por Marcello Mastroianni, que Visconti não considerava adequado. Visconti dirigiu, mas disse, mais tarde, que às vezes não parecia estar ali. O estrangeiro, no set, era ele.

Em “Rocco”, Visconti atingira o auge do seu realismo crítico, mas, mesmo ali, o personagem com consciência de classe (Ciro) terminava por atraí-lo bem menos que o “santo” Rocco (Delon), cuja bondade provocava tantos problemas. “O Leopardo” é suntuoso, mas o príncipe Salinas (Burt Lancaster) é ambíguo. Antecipa o mundo novo e o valida ao dançar com Angélica (Claudia Cardinale), mas é um homem do antigo regime.

E em “Vagas Estrelas da Ursa”, Freud, o incesto, se superpõe aos postulados históricos de Marx. Mersault é estrangeiro na Argélia não porque sua origem seja europeia. É estrangeiro no mundo, que vê da sua janela. Enterra a mãe sem emoção, e responde com evasivas às perguntas de Maria (Anna Karina). Ele a ama? Sim, não, talvez. Não importa.

Mersault mata o árabe por causa do sol, um sol metafórico, mas é condenado por não haver chorado no enterro da mãe. Sua dura confrontação final com o padre expõe um homem cuja indiferença o levou longe demais. Mersault não pertence mais à ordem social e não criou nada em troca. Um lúmpen político e existencial.

Visconti cria a mais brilhante e elaborada das mise-en-scènes. Amplos movimentos de câmera combinam-se com a zoom, disparada como tiros. A trilha de Piero Piccioni fornece os sons adequados para essa guerra interna, sob a aparência de indiferença. A maioria do elenco é de franceses, dublados para o italiano, mas o próprio Mastroianni também é dublado. É um filme que exige revisão. Visconti estava certo. Apesar de tudo, não é um de seus filmes menores. O tempo está aí, 50 anos depois, para prová-lo.