O encanto radical na América Latina

Com a derrota de Donald Trump em 2020, parecia arrefecer a onda extremista no coração da democracia mundial. Mas ela continua a ameaçar. Um ano depois, apesar de ter perdido protagonismo, o republicano continua mandando no seu partido e mantém-se um farol importante aos déspotas de todos os continentes. Do outro lado do Atlântico, a extrema direita continua a ditar a agenda antieuropeia na Polônia e o movimento Vox permanece ativo na Espanha. Ainda que os extremistas tenham perdido espaço na Itália e na Alemanha, uma nova voz radical está em ascensão na França: Éric Zemmour, que conseguiu superar até a arquiconservadora Marine Le Pen.

Essa crise das democracias representativas parecia ter diminuído na América Latina com o derretimento de Jair Bolsonaro (apesar de sua irrelevância no cenário internacional, o brasileiro é o último líder global dos movimentos antidemocráticos inspirados pela direita alternativa americana). Mas a região tem surpreendido com o aparecimento de novos candidatos a autocrata. O sinal mais recente veio do Chile, quando José Antonio Kast passou ao segundo turno das eleições presidenciais defendendo Pinochet. Antiglobalista, ele adota pautas de costumes como o combate ao aborto e à diversidade sexual e quer um muro contras os imigrantes venezuelanos e haitianos. Na Argentina, o folclórico Javier Milei conseguiu uma vaga de deputado nas eleições legislativas tentando se mostrar tão radical quanto Bolsonaro e Trump. No Uruguai, o senador e general da reserva Guido Manini Rios se mantém como uma voz influente. No Peru, o evangélico Rafael López Aliaga, que se apresenta como crítico feroz à ideologia de gênero, quase chegou ao segundo turno nas eleições presidenciais.

A ultradireita tenta rivalizar com a velha esquerda na região. O fracasso dos extremistas pode fazer o centro voltar a se fortalecer

O populismo enraizado piora o quadro na região. Mas há sinais positivos de que a crise pode, paradoxalmente, trazer o centro de volta ao protagonismo político. Os dois polos em disputa no Chile (o outro candidato é da extrema esquerda) podem ser obrigados a adotar programas moderados para governar. Na Argentina, o peronista Alberto Fernández encontrou espaço para negociar uma política fiscalmente responsável com o naufrágio do kirchnerismo. No Brasil, Bolsonaro está cada vez mais isolado ao passo que Lula se vê obrigado a apoiar as ditaduras companheiras para defender seu próprio legado. Não há marketing político que sobreviva à defesa dos regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela.


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