O encantador de plateias

O encantador de plateias

Maria Teresa Wassermann Fabiano Cerchiari/Ag. IstoÉ Ricardo Darín é um dos atores mais importantes da América Latina na atualidade. Assim foi introduzido a uma plateia de jornalistas o homenageado na 5ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos, realizada recentemente em São Paulo. Embora forte, esta afirmação não soou como um elogio jogado irresponsavelmente para agradar ao convidado. Ela é sustentada pela obra desse argentino que protagonizou filmes como O Filho da Noiva, Nove Rainhas e, mais recentemente, O Segredo de Seus Olhos, vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2010. Filho de atores, Darín começou a carreira cedo. Aos 12 anos, já emprestava sua voz ao rádio e estreava com pequenas participações no cinema. Aos 20, era galã de novelas e seriados na tevê e se ?especializava? em comédias românticas. Mas foi aos 40 que o ator começou a conquistar notoriedade. Com o drama El Mismo amor, La Misma Lluvia, de Juan José Campanella, Darín abriu as portas do reconhecimento internacional. Hoje, aos 53, todos os filmes com os quais se envolve são aplaudidos pelo público e pela crítica. Seu novo projeto, Abutres, que narra uma história de amor que nasce em meio ao duro contexto da exploração das indenizações provenientes de acidentes de trânsito em Buenos Aires, chega aos cinemas brasileiros na sexta-feira 3, já como o indicado argentino para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Longe da tão famosa prepotência dos portenhos, mas com a ironia e o humor refinado que lhes é característico, este buenairense não se dá a mesma importância com que é apresentado e tampouco o mérito de tantos sucessos na carreira. ?Eu tenho sorte?, afirma com simplicidade quando perguntado sobre os filmes que estrelou. ?Tive muitíssima sorte porque sempre encontrei pessoas dispostas a confiar em mim. Se não fosse por elas, não teria feito absolutamente nada por dois motivos fundamentais: primeiro, porque sou muito covarde e, segundo, porque sou muito vagabundo?, disse sem tom de brincadeira. Em uma longa entrevista, que mais parecia uma conversa graças à simpatia e leveza de Darín, o ator contou que os pais não queriam que ele fosse ator, falou sobre cinema na América Latina, sobre a mobilização social causada pelo filme Abutres na Argentina e, divertido, negou o rótulo de galã afirmando que não se considera um ícone de beleza sob nenhum aspecto. Influência dos pais ?Meus pais não queriam que eu fosse ator, queriam que eu fosse advogado ou astronauta. Mas penso que a maior influência que tiveram sobre mim foi que me fizeram conhecer a ?cozinha? da profissão e, por isso, existem muitos tabus que eu nunca tive. Nunca tive, por exemplo, medo do ridículo. Por vir de uma família sem estabilidade econômica, quando me ofereciam um trabalho, eu aceitava com alegria e não pensava se ia me trazer prestígio ou não.? Ícone de beleza ?Esse rótulo (de galã) para mim é muito estranho. Realmente sou uma pessoa muito sortuda porque, com este nariz e estes dentes que tenho, se não fossem meus olhos, eu não teria de responder a perguntas sobre isso.? Identidade latino-americana ?Tenho a sensação de que existe algo que nos faz irmãos e isso é o senso de humor. Não me refiro à comicidade, mas a certo olhar, certa sensibilidade e capacidade de rir de nós mesmos. Nossas democracias são muito jovens, estão em pleno desenvolvimento e isso nos faz um pouco ingênuos. Nossa identidade está ligada à vocação de olhar com humor para as coisas graves que nos acontecem.? Cinema argentino ?Toda a situação em que a liberdade de expressão é censurada, por lógica, termina chegando a um ponto que, quando as portas são abertas, necessariamente se pensa que a única coisa sobre a qual se pode falar é disso. Esse é o motivo pelo qual o cinema argentino, durante mais de 20 anos, falou exclusivamente da ditadura militar. Hoje, a nova geração de cineastas ainda fala do tema, mas com novo olhar. O olhar de quem era criança na época e fala mais dos sentimentos que aqueles acontecimentos causaram e não dos fatos em si. Essa geração mostra histórias com o coração, tenta estar com a cabeça aberta e isso nos está dando certa reputação no mundo.? Cinema brasileiro ?Na Argentina, nós consumimos muito cinema brasileiro. Cidade de Deus foi um filme que me impactou muito. Gostei muito de Pixote também. O cinema brasileiro tem muitos filmes impactantes.? Oscar ?Fiquei muito feliz com o prêmio para o Segredo dos Seus Olhos. Eu me dei o trabalho de ver os cinco finalistas e me pareceram incríveis. O que acho que fez com que ele tivesse esse destaque foi a utilização do humor de uma forma adequada e econômica. O humor que se desprende naturalmente de uma situação.? Abutres e seus resultados sociais ?Estamos muito contentes com a aceitação artística que a história teve, mas também com os resultados. Na Argentina, aconteceu um fenômeno, uma mobilização que conseguiu que, finalmente, o congresso nacional tratasse do tema. Hoje se busca que a vítima, que é a maior prejudicada, seja a que obtenha o maior benefício. A intenção era contar uma história de amor atípica e o filme conseguiu, sem querer, refrescar as sensibilidades das pessoas sobre o assunto.? Direitos humanos ?Quando queremos abordar uma temática profunda ou sensível no cinema, como todos os temas ligados aos direitos humanos, quanto mais naturais somos, quanto menos sublinhemos o tema, temos maior possibilidade de sermos compreendidos sem ferir. Temos que aceitar o ponto de vista do outro porque ninguém pode considerar-se livre de culpa sobre todos os aspectos.?