Perspectiva 2022/ Educação

Foram cerca de 290 dias de escolas fechadas durante o ano letivo de 2020, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). 99,3% delas, em todo o país, suspenderam as atividades presenciais devido à pandemia de Covid. Somente em novembro de 2021 os colégios estaduais e particulares foram autorizados a voltar sem distanciamento e com a presença total dos alunos nas salas de aula. Mas nem todos voltaram. Cerca de 240 mil crianças entre 6 e 14 anos permaneciam fora, no segundo trimestre de 2021, de acordo com o relatório divulgado pela organização Todos Pela Educação — o que representa um aumento de 171% em comparação ao mesmo período de 2019.

Evasão escolar bate recordes durante a pandemia
POLÍTICA Daniel Cara: governo freia democratização do ensino (Crédito:Divulgação)

O levantamento mostra que houve uma queda acentuada no número de matrículas entre alunos da mesma faixa etária. Enquanto em 2019 estavam matriculados 99%, em 2021 esse índice caiu para 96,2%, o menor em dez anos. “Isso acontece por três motivos: o primeiro é a quebra de vínculo que o aluno tem com a educação; o segundo são as lacunas de aprendizagem que foram acentuadas com a pandemia; e o terceiro é a crise econômica. Muitos jovens necessitaram ajudar em casa como complementação de renda. Isso coloca a escola em segundo plano”, afirma Olavo Nogueira Filho, diretor executivo do Todos Pela Educação.

O primeiro grande passo em 2022 será promover o retorno dos alunos. Para tanto precisa haver um projeto consistente de construção de uma educação melhor em escala nacional. “Necessitamos de mais escolas em período integral, centros educacionais que conversem com o projeto de vida dos alunos, que tenham bons cursos de artes, cultura e esporte”, afirma Nogueira. Ele explica que para o projeto acontecer é preciso o apoio do governo federal, mas é enfático em dizer que não terá ajuda em 2022. “Estamos vivendo o cenário mais crítico para a educação nos últimos 20 anos e temos um governo que não enfrenta os desafios reais da situação”, diz.

Outro fator que diminui a chance dos alunos retomarem o estudo é o aumento da taxa de matrícula nas particulares. Diferentemente do ano passado em que a maioria das escolas privadas seguraram os preços temendo uma fuga dos alunos, esse ano elas devem, ironicamente, compensar o atraso e acompanhar a inflação do País. Segundo levantamento realizado pela consultoria Meira Fernandes, especializada em gestão de instituições de ensino, mais de 90% das instituições particulares pretendem aumentar o valor da mensalidade de 2022, entre 7% e 12%. “A palavra certa é reposição. Durante a pandemia, as escolas fizeram investimentos altíssimos para manter o ensino híbrido. Esse crescimento da taxa não cobre todos os custos que ela teve”, afirma Rogerio Caramante, gestor de Marketing da Consultoria Meira Fernandes. Ele diz que o reajuste de matrículas provavelmente não aumentará a evasão. “Os donos de colégios já perderam 15% dos estudantes durante a pandemia e não querem perder mais”, afirma.

De modo geral, as perspectivas da educação não são muito satisfatórias e no ensino superior o quadro não fica atrás. Isso porque o governo travará uma última guerra no ano eleitoral para continuar sua estratégia de doutrinação e de eliminação do pensamento crítico dos estudantes brasileiros. Depois das demissões dos servidores do Inep, da renúncia de 114 pesquisadores do Capes e do esvaziamento do Enem, estreitando o corredor que leva o jovem ao ensino superior, Jair Bolsonaro usará o esgotamento do Banco Nacional de Itens (BNI) para impor sua visão da sociedade e do mundo.

Educadores e especialistas ouvidos por ISTOÉ afirmam que as manobras que o presidente fez ao longo de 2021 para desacreditar e desestabilizar o sistema educacional brasileiro irão continuar em 2022. Prova disso foi a medida assinada por Bolsonaro que libera o acesso ao Programa Universidade para Todos (Prouni) aos alunos que cursaram o ensino médio em colégios particulares (sem bolsa de estudo). Antes, apenas estudantes do ensino médio em escolas públicas ou que tinham bolsas integrais em colégios particulares podiam participar do programa. O presidente mente ao dizer que isso garante um maior leque de alunos com acesso ao ensino superior. Na realidade diminui as chances dos jovens de baixa renda. “É mais uma das medidas de Bolsonaro para frear a democratização da sociedade pela educação. Vai tornar o acesso à universidade elitizado”, diz o educador Daniel Cara.